Por Robson Gonçalves Rocha Júnior
Licenciado em Letras (UNEMAT) e Mestrando em Literatura (UFGD)
Um pai abusivo obrigava seus filhos a ensaiarem incansavelmente até que pudessem, de alguma forma, tornar-se uma banda de sucesso. Semelhantemente a tantos casos no Brasil e no mundo, a situação tinha tudo para culminar em tragédia; no entanto, esse rigor extremo foi o estopim para o surgimento de Michael Joseph Jackson: filantropo, cantor, compositor e dançarino estadunidense que redefiniu a cultura pop.
O filme, em teoria, teria motivos de sobra para retratar o sucesso do “rei do pop” e consolidar-se, a exemplo de Rocketman (2019), como uma obra exemplar no gênero cinebiografia. Infelizmente, seguindo os passos de Bohemian Rhapsody (2018), não busca um aprofundamento sobre a vida da celebridade em questão.
Nesse sentido, algumas explicações se fazem presentes. Entre os produtores, destacam-se John McClain, executivo musical e atual co-executor do espólio financeiro de Michael, além de John Branca, que além de ser co-executor do espólio de Michael, é presidente da The Michael Jackson Company. Branca, especialmente, é retratado na obra como uma espécie de “salvador”.

Assim, para quem não conhece a história do artista, é fácil pensar que Michael continuaria sofrendo com abusos psicológicos de seu, até então, empresário e pai. O advogado, em diversos momentos, aparece no fundo do plano, observando e sorrindo, como se fosse uma entidade essencial para o desenvolvimento profissional e pessoal de Michael.
Essa visão crítica encontra respaldo em declarações recentes da própria família do cantor. Segundo a coluna de Júlia Barbosa, no site AdoroCinema (2026), Paris Jackson, filha de Michael, afirmou ter optado por não se envolver ou dar aval à produção. Para Paris, o roteiro fabrica uma versão suavizada e fantasiosa tanto dos feitos quanto da personalidade de seu pai; além disso, ela manifestou discordância explícita quanto à forma como Branca é posicionado na cinebiografia.
O filme, embora prometa em suas sinopses narrar a trajetória de Michael da vida à morte, falha em cumprir o esperado. A trama se encerra em meados da década de 1980. Havia a necessidade? Provavelmente não. Essa escolha, embora narrativamente questionável, revela-se uma óbvia “mina de ouro” para as produtoras, que já pavimentam o caminho para uma lucrativa continuação. A obra chega a retratar o diagnóstico de vitiligo, por exemplo, mas encerra-se antes mesmo que a sua famosa transição estética se concretizasse.

A narrativa, com exceção dos conflitos de Michael com seu pai, abstém-se de abordar polêmicas ou eventuais desvios de caráter do cantor. Quase como uma hagiografia cristocêntrica, a obra trata o artista como uma figura intocável, cujas ações teriam sido motivadas unicamente pelas melhores intenções possíveis e por uma busca incessante pela perfeição.
Por outro lado, é inegável que, esteticamente, é um filme bonito. Os principais hits de Michael são acrescentados, além do cuidado com o figurino marcante do artista. Destaque para o trabalho de Juliano Valdi e Jaafar Jackson, que, em diferentes fases da vida do cantor, ambos conseguem capturar com maestria a essência da maior marca registrada do artista: a fluidez e a genialidade de sua dança.

Em suma, a cinebiografia de Michael Jackson funciona mais como um videoclipe de luxo e uma peça de relações-públicas do que como um documento histórico honesto. Embora o espetáculo visual e as performances arrebatadoras de Valdi e Jaafar honrem o legado artístico do “Rei do Pop”, o roteiro higienizado falha com o homem por trás do mito.
Para quem quiser conferir essa experiência nas telonas e tirar suas próprias conclusões, Michael (2026) está em cartaz nos cinemas de todo o Brasil.

