“Nas últimas cinco safras [de soja] aqui consideradas, essa região [de Dourados que compõe 16 municípios] teve um prejuízo ou deixou de faturar em torno de R$ 1,5 bilhão de reais. É muito dinheiro que se perdeu por fato desse problema da irregularidade das chuvas”, explicou Júlio Cesar Salton, pesquisador da Embrapa Agropecuária Oeste, durante o Simpósio de Agricultura, realizado pela instituição junto com o GPP (Grupo Plantio na Palha), nesta segunda-feira, dia 11, na 60ª Expoagro.
Para fazer a estimativa, o pesquisador levou em consideração um preço médio de R$ 120 a saca. Os dados foram apresentados durante palestra sobre Níveis de Manejo e Produtividade da Soja, no contexto do Zarc (Zoneamento Agrícola de Riscos Climáticos).
Ele lembra que janeiro e fevereiro são períodos críticos para a soja, mas nem sempre tem o mesmo volume de chuvas ao longo dos anos, com impacto direto no resultado da safra. Como exemplo, citou a Safra 2021/22 que não choveu nem 100 milímetros ao longo dos dois meses, fazendo com que a produtividade média na região não passasse dos 1,5 quilos por hectare.
“Todo mundo que está envolvido com soja lembra dessa safra. Mas, não foi a única. Nós tivemos safras passadas também muito ruins, 2003, 2004 foi ruim e assim por diante. O fato é que há uma relação muito direta entre o volume de chuva e a produtividade da soja, o que é óbvio. A cada milímetro de chuva nós respondemos com algo em torno de 4,5 kg de soja, ao longo desses anos todos”, pontuou trazendo um estudo elencando de 1.988 a 2024.
A análise, segundo ele, é uma revisão mais organizada daquilo que o setor já sabe. “É uma realidade, não vamos dizer que isso está acontecendo agora, de repente. Não, isso já vem acontecendo há 40 anos ou desde que se começa a plantar soja. Então, gente, isso aqui é de fato um grande problema e não é novo, então se a gente sabe que esse negócio acontece, o que que a gente está fazendo para evitar esse tipo de problema?”, questionou.
Ele apresentou um balanço hídrico na fase inicial, de desenvolvimento e reprodutiva da planta, mostrando como o sistema que chama de ‘convencional’ com plantio e revolvimento do solo, há menos água na maioria das vezes. “Chega mais rápido à condição de déficit hídrico, ou seja, a planta nessa situação está faltando água para ela”, pontuou. Já no sistema de plantio direto e integração lavoura-pecuária, apresentam mais água disponível.
A demonstração é um dos conceitos que exemplifica os impactos das alternativas adotadas de manejo do solo para a retenção de água e, consequentemente, aumento na produtividade que gera mais lucro ao produtor.
ZONEAMENTO AGRÍCOLA
Estimular os produtores rurais a adotarem tecnologias voltadas a melhorar os níveis de manejo, é um dos fatores que levam com que o Zarc passe a considerar esse aspecto. Isso porque essas alternativas podem compensar uma deficiência natural do solo em capacidade de água, fazendo com que fique elevada e reduzindo o risco de perdas na lavoura.

“Você passa a considerar que às vezes tem um solo arenoso, mas por fazer um plantio direto, fazer uma prática cultural mais sustentável, você consegue melhorar a capacidade daquele solo em sustentar uma lavoura. Então às vezes você tem um solo arenoso ou misto que vai ter um resultado melhor do que um solo argiloso mal cuidado. Então isso acaba premiando o bom agricultor”, explicou Dr.Éder Comunello, pesquisador da Embrapa Agropecuária Oeste que abordou as mudanças do Zarc durante o Simpósio.
Ele lembra que ao longo de 30 anos desde que foi implantada, o Zarc é uma política pública que sofreu variações ao longo das décadas. Entre essas, está a ampliação nos tipos de solo. Antes eram somente o arenoso, misto e argiloso, sendo que há três anos passou para seis tipos, permitindo maior definição da necessidade das culturas, especialmente no diz respeito à reserva de água disponível nos solos.
Outra mudança significa recente foi a atualização da base de dados considerando de 1.992 a 2022. “Agora o Zarc retrata essas mudanças recentes, esse aquecimento, esses períodos de chuvas mais desuniformes”, esclarece o pesquisador.
Apesar de não ser obrigatório, o Zoneamento é utilizado como instrumento de referência por muitas empresas, principalmente para oferecer seguro agrícola. O estudo aponta, em linhas gerais, quais épocas mais indicadas para que as lavouras tenham níveis mínimos de oferta hídrica para garantir produtividade.
O pesquisador explica que o Zarc “não é infalível”, mas diminui muito as chances de prejuízo, colaborando para resguardar o produtor para que possa fazer seu investimento, especialmente considerando o cenário atual de altos custos.
MANEJO E IRRIGAÇÃO
“Hoje o negócio agrícola, ele é empresarial. Então, se você coloca um real investido, esse real tem que retornar. Então, é fundamental que as garantias de sucesso do empreendimento sejam atingidas. E essas garantias elas passam pela irrigação, pelo manejo de solo, pela adubação eficiente, por um plantio na época adequada. Então é um conjunto de atividades que são feitas para retornar esse capital investido”, explica Mário José Maffini, presidente do Grupo Plantio na Palha.
Maffini ainda pontua que como os veranicos são o grande gargalo, principalmente no centro-sul do Estado, existe potencial para que os sistemas de irrigação cresçam futuramente nesse setor, pela disponibilidade de água para essa finalidade.
COBRANÇA DO USO DA ÁGUA
Mesmo que ainda não alcance em larga escala propriedades rurais, a irrigação já é uma fatia considerável do consumo da água. “Se a gente pegar todos os consumos, independe de ser consumo humano, indústria, que seja uma mecânica dentro da cidade. Se pegarmos todos os consumos e tirarmos só a irrigação, o volume de água captado pela irrigação é maior do que todo o resto junto”, explica Leonardo Ramos, presidente do Comitê da Bacia do Rio Ivinhema.

Ele ministrou uma palestra sobre a cobrança no uso da água na agricultura e pecuária e um estudo feito pelo Comitê, para atender uma política nacional que traz essa exigência há quase 30 anos. Ele lembra que a ideia é de que os maiores usuários “contribuam com um pouquinho para a manutenção de todo o ecossistema”, pontua.
O presidente relata que a ANA (Agência Nacional das Águas) sugestiona que não seja cobrado de quem consome até R$ 500 por ano, o que daria uma média de 400 metros cúbicos de água por dia. Para se ter uma ideia, com esse volume de água seria possível tomar, pelo menos, 13 mil banhos de cinco minutos em um único dia. “É muita água e muito poucas pessoas consomem tanta água assim. E o nosso estudo está indo para esse sentido”, explica Ramos.
Ele lembra que há outros comitês no Brasil já com a cobrança implantada e que os modelos adotados em outras regiões estão servindo de espelho, para que seja adaptado à realidade da região. O grupo de trabalho que vai conduzir o estudo já foi definido com membros do poder público, sociedade civil e usuários.
É esse grupo que vai indicar o coordenador das atividades, em uma reunião marcada para o dia 27 de maio, na sede do Parque Estadual das Várzeas do Rio Ivinhema.
Conforme o presidente, a participação no Simpósio de Agricultura foi para mostrar como a cobrança do uso da água se for bem feito e estruturado, com uma agência definida para gestão, é possível ter a garantia de que tudo o que foi arrecadado pode ser revertido para ações dentro da própria Bacia, mantendo a sustentabilidade do recurso que é utilizado por todos.
Além do Zarc e da cobrança do uso da água, durante o Simpósio também teve palestra sobre créditos de carbono, seguido de debate sobre os temas.

