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quarta-feira, 16 de setembro de 2026

No Setembro Amarelo, especialista destaca o cuidado para quem fica

Aexperiência de quem fica pode muitas vezes não ser notada. Mas o acolhimento e, em alguns casos, o acompanhamento profissional, podem ser essenciais para preservar e zelar pelos enlutados.

No Setembro Amarelo, campanha brasileira de conscientização sobre a prevenção ao suicídio e a importância da saúde mental, especialista do Hospital Universitário Maria Aparecida Pedrossian, da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (Humap-UFMS), integrante da HU Brasil, destaca a importância de lidar com as consequências de quem fica.

Conversamos com o psicólogo clínico do Humap-UFMS/HU Brasil, Edilson dos Reis Capelão, para entender os impactos e traumas ocasionados pelos episódios.

O que torna o luto após uma morte nestas circunstâncias particularmente doloroso para familiares e amigos?

Três dimensões se sobrepõem e o tornam particularmente doloroso:

I. A dimensão traumática: Diferente de uma morte esperada, o suicídio é abrupto, violento e, muitas vezes, descoberto pelos próprios familiares. Isso ativa o que na psicanálise chamamos de excesso pulsional que o psiquismo não consegue simbolizar de imediato.

II. A dimensão do conflito ambivalente: Toda relação humana comporta amor e hostilidade. No luto por suicídio, essa ambivalência torna-se persecutória. O enlutado se depara com sentimentos de abandono, rejeição e raiva do morto, o que gera intensa culpa inconsciente

III. A dimensão social: É o que a literatura chama de luto desautorizado, ou luto disenfranchised , e morte estigmatizada. A sociedade não sabe como acolher, evita o tema e, com isso, priva o enlutado de seu direito de sofrer publicamente e de receber suporte.

Por que sentimentos como culpa e a pergunta "eu poderia ter feito alguma coisa?" aparecem com tanta frequência?

A culpa no luto por suicídio é quase universal e possui raízes profundas:

Culpa como tentativa de controle psíquico: Diante do desamparo absoluto que a morte impõe, o pensamento "eu poderia ter feito algo" é, paradoxalmente, uma defesa. É menos angustiante acreditar que houve uma falha pessoal do que aceitar a radical impotência humana diante da escolha do outro.

Culpa como expressão da responsabilidade fantasiada: Na perspectiva psicanalítica, somos constituídos na relação com o outro e sustentamos, inconscientemente, a fantasia de que somos responsáveis por mantê-lo vivo e feliz. O suicídio confronta essa fantasia onipotente da infância. O superego, instância crítica e punitiva, atua de forma severa, buscando um culpado.

Culpa alimentada pelo discurso causal simplista: A busca social por um motivo único (“foi por causa do término", "foi por causa da depressão") faz o enlutado se colocar como causa.

Como lidar com perguntas que talvez nunca tenham resposta?

O trabalho de luto envolve quatro tarefas, sendo uma delas encontrar um lugar duradouro para quem se foi na vida emocional do sobrevivente, o que inclui a construção de um novo significado. No luto por suicídio, a busca por sentido é central.

Entre as abordagens existentes está a que busca diferenciar explicar de significar: Talvez nunca saibamos o "porquê" factual exato. O trabalho psíquico não é encontrar a explicação definitiva, mas poder viver com a ausência dela.

Também tolerar o não-saber: na psicanálise, chamamos isso de capacidade de sustentar o vazio, o negativo. É um trabalho de luto que exige tempo. Tentar preencher rapidamente esse vazio com respostas prontas impede a elaboração.

E ainda transformar a pergunta em narrativa: Nos grupos de apoio, incentivamos que as perguntas possam ser compartilhadas e narradas, sem a exigência de resposta. Escrever cartas que não serão enviadas, construir um memorial simbólico, falar sobre a pessoa para além do modo como ela morreu, são formas de dar destino às interrogações.

O silêncio e o estigma em torno do suicídio podem dificultar o processo de luto?

Sim, de forma decisiva. O estigma é um dos principais fatores de complicação do luto. O silêncio opera em três níveis:

Social: O suicídio ainda é tratado como tabu, pecado ou crime, o que leva familiares a esconderem a causa da morte. Isso gera isolamento social e vergonha.

Familiar: Instala-se o que chamamos de "conspiração do silêncio". Para proteger uns aos outros, ou por medo do julgamento, os membros da família evitam falar da pessoa morta ou do modo como morreu.

Intrapsíquico: O enlutado internaliza o estigma e passa a se autocensurar: "não posso chorar em público", "não posso falar dele". Isso bloqueia a expressão afetiva, fundamental para a elaboração.

Pesquisas do nosso Núcleo mostram que enlutados por suicídio que participam de grupos de apoio apresentam menor índice de luto complicado, justamente porque o grupo rompe o silêncio e oferece um espaço legitimado e não julgador para a dor.

Como familiares e amigos podem acolher alguém que perdeu uma pessoa nestas circunstâncias?

O acolhimento eficaz não está em dizer a coisa certa, mas em oferecer uma presença sustentada.

Esteja presente de forma concreta: Em vez de "conte comigo para o que precisar", ofereça ações específicas: "posso ficar com você hoje à tarde", "vou ao mercado para você", "posso acompanhar você ao cartório/cemitério".

b) Valide, não minimize: Legitime todos os sentimentos, inclusive a raiva, o alívio e a culpa. Frases como "ele está em paz agora" ou "foi a vontade de Deus" tentam consolar quem fala, não quem escuta.

c) Fale o nome de quem morreu: Muitas pessoas evitam mencionar o nome por medo de fazer o outro sofrer. O enlutado, ao contrário, tem medo de que o seu ente querido seja esquecido. Pergunte sobre as memórias: "como você gostaria de se lembrar dele?".

d) Sustente o acolhimento no tempo: O apoio costuma ser intenso na primeira semana e desaparecer depois. O luto por suicídio dura de 18 a 24 meses em seu período mais agudo, podendo recrudescer em datas significativas. Continue presente após o primeiro mês.

Como saber quando o sofrimento do luto está exigindo ajuda profissional?

O luto não é doença, é um processo de trabalho psíquico. Contudo, ele pode se complicar e evoluir para o Transtorno do Luto Prolongado, previsto no DSM-5-TR.

Sinais de alerta que indicam a necessidade de avaliação profissional especializada:

Após 6 a 12 meses, a dor permanece tão intensa e invasiva quanto no início, sem nenhuma oscilação;

Incapacidade persistente de retomar atividades básicas de autocuidado, trabalho ou estudo;

Ideação suicida no enlutado, identificação com o ato ("vou me juntar a ele") ou sentimento de que a vida perdeu completamente o sentido;

Uso abusivo de álcool, medicamentos ou outras substâncias para anestesiar a dor;

Sintomas traumáticos intensos: pesadelos recorrentes com a cena da morte, flashbacks , evitação fóbica de lugares que lembram a pessoa;

Isolamento social absoluto e persistente e culpa persecutória que impede qualquer movimento de vida.

Nesses casos, é indicada psicoterapia individual com profissional com formação em luto e, se necessário, avaliação psiquiátrica. O Grupo de Apoio ao Luto não substitui a psicoterapia quando há complicação.

Crianças e adolescentes que perdem alguém por suicídio precisam de um cuidado diferente?

Sim, absolutamente. O cuidado deve ser adaptado ao estágio de desenvolvimento cognitivo e emocional.

Em crianças, até aproximadamente nove anos, a compreensão da irreversibilidade e universalidade da morte ainda está em construção. Elas precisam de informações verdadeiras, curtas e adequadas à idade, sem eufemismos como "ele dormiu". Dizer "ele morreu por suicídio, quando uma pessoa tem uma dor tão grande que não consegue ver outra saída" é mais protetor do que o silêncio, que alimenta fantasias ainda mais assustadoras. A criança elabora o luto brincando e precisa de rotina e segurança.

O adolescente já compreende a morte como o adulto, mas vive o luto de forma particular, atravessado pela construção de sua identidade e por um sentimento de onipotência. Há risco aumentado de identificação e efeito de contágio, especialmente se havia vínculo de forte admiração. Eles precisam ser incluídos nas conversas, nos rituais de despedida e ter seu espaço de luto respeitado, que muitas vezes se expressa por irritabilidade, isolamento ou por não querer falar com os pais, mas com pares. Nunca esconder a causa da morte do adolescente, pois a descoberta posterior quebra o vínculo de confiança.

Em ambas as faixas etárias, a vigilância quanto a mudanças bruscas de comportamento, queda no rendimento escolar, automutilação e isolamento é fundamental.

Se você ou alguém que você conhece está em sofrimento intenso neste momento, busque ajuda imediata. Em Campo Grande, o Grupo de Apoio ao Luto do Humap-UFMS/HU Brasil oferece acolhimento. As reuniões acontecem aos sábados, das 14h às 16h30, na Unidade 6, Multiuso 2, ao lado da Biblioteca Central da UFMS. O acolhimento, aberto ao público geral, é gratuito e sem inscrições. Em nível nacional, o Centro de Valorização da Vida (CVV) atende 24 horas pelo número 188, em completo sigilo.

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