27.7 C
Dourados
segunda-feira, 28 de setembro de 2026

‘Clubes usaram mal o dinheiro das bets, só aumentaram salário de jogador’, diz presidente do Cuiabá

Cristiano Dresch preferiu manter o time mato-grossense sem patrocinador master a aceitar propostas de casas de apostas: ‘Viciam a pessoa e destroem as famílias. Não é algo saudável’

saiba maisPoucos cartolas do futebol brasileiro têm postura tão contrária às bets quanto Cristiano Dresch. Sócio-proprietário do Cuiabá desde 2011 e presidente do clube há três anos, o empresário preferiu manter o time que comanda sem um patrocinador master a aceitar proposta de casas de apostas, que estão na iminência de parar de operar no País com a edição de uma medida provisória assinada pelo presidente Lula na última sexta-feira.

Sob sua gestão, o Cuiabá chegou a ter uma parceria com a Luck.bet, encerrada depois de menos de um ano, no fim de 2022. A empresa, diz Dresch, pagava R$ 800 mil para estampar a sua marca no calção. Desde então, ele decidiu não aceitar mais nenhuma proposta de plataformas de apostas.

“Permanecemos na Série A em 2023 e 2024 e tivemos muita procura de bet querendo patrocinar o Cuiabá. O meu patrocínio valia R$ 15 milhões, eu pedia R$ 20 milhões, se valia R$ 10 milhões, eu pedia R$ 15 milhões. Sempre pedi um valor alto para não fazer negócio”, conta Dresch em entrevista ao Estadão.

“Chegou um momento em que o Sicred, já afetado pela inadimplência que as bets causam, nos avisou que se colocássemos uma bet na camisa não iria renovar o patrocínio”, acrescenta ele, mencionando a cooperativa de crédito que patrocina o clube do Mato Grosso desde 2015.

A avaliação de Dresch, que afirma ter feito mais de dez reuniões com empresas de apostas, é de que as bets viciam os apostadores, destroem famílias e as deixam endividadas.

“Nós fizemos um campo de grama sintética e contratamos vários diaristas. Tinha muitos que passavam o dia com o celular na mão apostando, jogando Tigrinho. O funcionário trabalha durante a semana e recebe no final da semana ou às vezes ele recebe todo dia. Então, como o sujeito tem dinheiro todo dia, começa a apostar e isso causou um dano gigantesco na renda das pessoas”, relata o presidente do Cuiabá.

“O trabalhador ganha um salário mínimo e passa a gastar uma parte com aposta porque tem uma falsa ilusão no início. Isso viciou as pessoas”.

É uma filosofia minha. Já conversei com alguns donos de bet. Tem muita coisa que acontece que a mídia não fala porque depende desse dinheiro, mas muita coisa ruim com esse negócio chamado bet.

Cristiano Dresch, presidente do Cuiabá

‘É difícil desligar a tomada e acabar com as bets’

O Cuiabá não fez parte do movimento de clubes que se juntaram para lançar um manifesto contra a decisão do governo federal de banir toda a operação das bets no País. Eles falaram em “fim do futebol brasileiro”, sem o dinheiro das casas de apostas.

Dresch discorda e acha o discurso exagerado. Na opinião do presidente do Cuiabá, os clubes, em geral, não usaram os recursos advindos dos sites de apostas, que inflacionaram o mercado, da melhor maneira.

“O futebol poderia ter feito bom uso desse dinheiro. O que os times fizeram com esse dinheiro? Aumentaram o salário de jogador. Só isso. Passou a transferir mais renda ainda para jogadores. Ninguém investiu em estrutura, ninguém pagou dívida”, opina.

“Vejo São Paulo, Corinthians e Santos hoje numa situação caótica financeiramente. Os clubes falam que ‘é o fim do futebol’. Pelo amor de Deus, né?’ Acho uma declaração infeliz”.

‘Clubes usaram mal o dinheiro das bets, só aumentaram salário de jogador’, diz presidente do Cuiabá
Cuiabá joga sem patrocinador master há mais de dois anos. Foto: AssCom Dourado

Dresch diz ser a favor da Medida Provisória assinada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva na última sexta-feira. Lula decidiu banir toda a operação de bets no Brasil, isto é, o fim dos chamados cassinos online, como o jogo do Tigrinho, e das apostas esportivas.

O empresário considera, porém, que a regulamentação das casas de apostas poderia ter sido mais bem-feita. “Acho que a propaganda é excessiva e existem muitas bets clandestinas”, diz.

“É difícil desligar a tomada e acabar com esse negócio do dia para a noite, falando na questão prática. Sou a favor da Medida Provisória, mas não acredito que vai acabar com esse negócio”.

O que está por trás das bets, escondido, é esse monte de cassino, de jogo do Tigrinho. Temos uma oportunidade de reduzir bem, de diminuir o impacto que isso está causando à sociedade. Sempre fui contra, nunca vi isso como algo saudável.

Cristiano Dresch, presidente do Cuiabá

Dois anos sem um patrocinador master

São quase dois anos sem patrocinador master no Cuiabá. A última companhia a exibir sua marca no espaço mais nobre da camisa do time mato-grossense foi a Drebor, empresa de artefatos de borracha que pertence justamente à família Dresch.

O dirigente crê que o Cuiabá recebe valores acima da média dos demais patrocinadores entre as equipes que disputam a Série B e avalia que o clube que comanda gera retorno aos seus parceiros comerciais. “Os valores que a gente recebe, mesmo não tendo o master, são equivalentes, até acima dos clubes da Série B”.

O time do Mato Grosso tem forte ligação com o agronegócio, assim como seus parceiros comerciais. Por isso, tem aproveitado o espaço frontal na camisa disponível para divulgar iniciativas associadas ao agronegócio. Recentemente, foi feita uma campanha para divulgar a produção de biocombustíveis no Estado.

“Colocamos no jogo contra o Goiás a frase na camisa: “Movido a etanol”. Isso fez com que a gente se aproximasse dessas empresas produtoras de etanol de milho aqui no Mato Grosso", explica.

“Certamente nós vamos conseguir fechar um patrocínio no espaço master com uma dessas empresas.”

Leia também

Últimas Notícias