21.4 C
Dourados
domingo, 4 de outubro de 2026

João Vitor encontra em cemitério cenário para adaptar Edgar Allan Poe

Visita ao Santo Antônio revelou histórias de imigração, fé, arte e da própria cidade

Uma cidade escondida entre túmulos. João Vitor Mendes Moraes, 24 anos, universitário do curso de Audiovisual da UFMS (Universidade Federal de Mato Grosso do Sul), chegou ao Cemitério Santo Antônio sem saber muito bem o que esperar.

A ideia de participar de um passeio fúnebre durante a programação da Semana dos Museus, no fim do mês passado, parecia estranha até para quem convivia com ele. “Quando eu falei pras pessoas do meu cotidiano, só na faculdade, falei pra minha namorada e tal, todo mundo ficou meio assim: como assim, passeio fúnebre? É uma parada estranha, uma parada esquisita”, lembra.

A estranheza, no entanto, durou pouco. “Foi muito divertido, surpreendentemente, foi muito confortável e, principalmente, edificante.” João chegou ao passeio por um motivo que não tinha exatamente a ver com turismo. Ele está produzindo um curta-metragem para um trabalho interdisciplinar da faculdade e pretende adaptar “O Enterro Prematuro”, conto de Edgar Allan Poe.

Enquanto procurava cemitérios de Campo Grande que pudessem servir de cenário, publicou um story perguntando aos amigos onde encontraria um lugar interessante para filmar. Dias depois, uma amiga lembrou-se da publicação e enviou a ele a divulgação do passeio no Santo Antônio.

João Vitor encontra em cemitério cenário para adaptar Edgar Allan Poe
Passeio fúnebre apresentou ao universitário histórias de pessoas sepultadas no cemitério mais antigo de Campo Grande (. Foto: João Vitor Mendes)

“Eu me inscrevi sem saber de novo onde eu ia mergulhar”, conta. “Era um conceito que, pra mim, era algo a ser explorado na hora mesmo.” O que ele encontrou foi muito mais do que lápides e histórias de pessoas enterradas.

O Cemitério Santo Antônio, com 112 anos, acabou funcionando para João como uma espécie de mapa da própria cidade. Entre túmulos, esculturas e relatos, ele percebeu a força da presença japonesa e, especialmente, da cultura de Okinawa na formação de Campo Grande.

“Uma das coisas que me chama muita atenção sobre a nossa história é como existe de fato essa grande raiz Okinawa, essa grande raiz japonesa também aqui na cidade, que é uma coisa que vira e mexe acaba caindo nesse ostracismo”, observa. Para ele, estar diante de jazigos antigos tornou essa presença muito mais concreta. A visita também desmontou algumas ideias que ele próprio carregava sobre o ambiente.

O passeio tinha, naturalmente, um tom sério, mas os mediadores conseguiram conduzir a experiência de maneira leve. João lembra que o grupo acabou entrando até no humor involuntário que existe quando se fala de morte dentro de um cemitério. “Às vezes alguma coisa era dita em tom de seriedade, mas a frase tava construída de uma maneira engraçada, porque a gente estava no cemitério”, brinca.

João Vitor encontra em cemitério cenário para adaptar Edgar Allan Poe
Passeio terminou sob lua cheia e deixou João com vontade de voltar ao cemitério para fotografar e pesquisar locações para o curta (. Foto: João Vitor Mendes Moraes)

“Então, aquela coisa de piada de morrer mesmo, tá ligado?” A condução foi tão envolvente que o passeio passou cerca de uma hora além do previsto. Quando a noite chegou, a experiência ganhou outro cenário. O passeio terminou sob uma lua cheia que, para João, parecia completar o lugar. “Fechamos com uma lua cheia maravilhosíssima”, lembra. As esculturas, adornos e detalhes dos jazigos também começaram a chamar mais atenção.

“É uma maneira de lembrar que a morte é uma coisa que tem a sua beleza e uma beleza muito grande”, afirma. Para ele, o contato com o espaço ajudou a perceber que a morte não precisa ser associada apenas a sofrimento, medo ou tristeza.

“Ainda existe beleza no processo mortuário, no contexto mortuário.” Outro aspecto que surpreendeu o universitário foi a diversidade religiosa presente no espaço. Segundo ele, o passeio mostrou um lugar onde aparecem referências cristãs, asiáticas e de religiões de matriz africana, além de práticas ritualísticas que continuam fazendo parte da rotina do cemitério.

“Tem religiões publicamente apresentadas com raízes afro, com raízes asiáticas, com raízes do cristianismo também. Tem esse encontro de fato, inclusive ritualístico”, relata. Ele também se surpreendeu ao saber que o local permanece aberto para diferentes manifestações e rituais, respeitando as práticas de quem usa o espaço. A experiência bateu justamente em uma percepção que João tinha sobre a própria cidade.

“Campo Grande tem essa cara muito cristã, essencialmente muito evangélica”, diz. Por isso, encontrar no cemitério um espaço onde diferentes tradições convivem de maneira respeitosa foi uma surpresa.

João Vitor encontra em cemitério cenário para adaptar Edgar Allan Poe
Esculturas e adornos dos jazigos chamaram a atenção do universitário, que passou a enxergar beleza também no ambiente ligado à morte (. Foto: Amanda Ferreira)

Preservação – Para ele, o passeio mostrou que existe uma Campo Grande menos óbvia, que nem sempre aparece quando se fala sobre a identidade da capital sul-mato-grossense. Além da história e da religião, João saiu impressionado com a conservação do cemitério. Ele conta que esperava encontrar um espaço mais abandonado ou tomado por túmulos deteriorados, mas encontrou um ambiente organizado e visualmente marcante.

“Era tudo muito bonito, era tudo muito bem cuidado principalmente”, diz. O cuidado também despertou nele ainda mais vontade de voltar para fotografar e, futuramente, avaliar o espaço como cenário do curta. A equipe do local, segundo ele, foi receptiva e explicou que o uso para filmagens depende dos procedimentos formais necessários.

No fim, o que começou como pesquisa para um trabalho da faculdade virou uma experiência que João recomenda até para quem, como ele próprio no início, acha estranha a ideia de passear em um cemitério. “Eu super faria de novo e faria em outros cemitérios até se fosse o caso”, afirma.

Para ele, o passeio fúnebre é uma maneira pouco convencional de conhecer Campo Grande. “É uma forma talvez não usual de conhecer a história da própria cidade, mas que definitivamente traz horizontes e direções e curiosidades que às vezes as pessoas não sabem que elas têm".

João Vitor encontra em cemitério cenário para adaptar Edgar Allan Poe
João Vitor acompanhado da namorada durante passeio e sessão fotografica (. Foto: @l.a.v1990)

Leia também

Últimas Notícias