Construir uma passagem para animais por baixo ou por cima de uma rodovia não garante, por si só, que eles deixem de atravessar pela pista. Para que a estrutura cumpra sua função, cercas precisam impedir o acesso ao asfalto e conduzir a fauna até os pontos seguros de travessia. É essa combinação que pesquisadores e organizações que atuam na conservação defendem para reduzir colisões nas rodovias de Mato Grosso do Sul.
“Só essas [passagens] são praticamente inúteis. É necessário ter cercas, um cercamento que direciona esses animais para essas passagens”, afirma Jade Tissiani, secretária-executiva do Observatório Rodovias Seguras para Todos. Ela esteve em Campo Grande recentemente para participar do evento ConservAção MS, que debateu meio ambiente e sustentabilidade.
De acordo com Jade, o cercamento funciona como uma barreira entre o animal e a pista, mas também como um corredor até a estrutura de travessia. A passagem, por sua vez, permite que a fauna alcance o outro lado da rodovia sem entrar em contato com os veículos.
Estudos técnicos produzidos pela INCAB (Iniciativa Nacional para a Conservação da Anta Brasileira)/IPÊ (Instituto de Pesquisas Ecológicas) apontam, com base em literatura científica, que cercas específicas associadas a passagens de fauna, quando implantadas adequadamente, podem reduzir em mais de 80% as colisões.
Não basta, porém, cercar qualquer trecho. Segundo Jade, é preciso conhecer os locais utilizados pelos animais e instalar estruturas adequadas às espécies presentes em cada região.
“Às vezes implementam cercas em locais que não foram os que identificamos como mais críticos. Também acontece de fazerem cercas que não são as ideais”, explica.
Cursos d'água, fragmentos de vegetação e áreas utilizadas para alimentação ou deslocamento estão entre os elementos da paisagem que ajudam a entender por onde os animais circulam. Estudos de monitoramento também permitem identificar os chamados hotspots, pontos onde as colisões se concentram.

Dados ajudam – Uma das ferramentas utilizadas para reunir essas informações é o Cofauna (Mapa de Colisões com a Fauna), plataforma com registros georreferenciados que permite visualizar onde ocorreram atropelamentos e colisões.
Jade ressalta que os registros não necessariamente correspondem à totalidade dos animais atingidos. Alguns conseguem deixar a pista depois do impacto e podem morrer na vegetação, sem que a ocorrência seja contabilizada.
Essa diferença também exige cautela ao comparar Mato Grosso do Sul com outros estados. “Não quer dizer que em Mato Grosso do Sul tenha mais atropelamento. Pode ser que a gente monitore mais”, pondera.
O problema também representa risco para quem está dentro dos veículos. Segundo informação atualizada pelo Observatório Rodovias Seguras para Todos, 53 pessoas morreram desde 2013 em colisões envolvendo antas nas rodovias de Mato Grosso do Sul.
Recentemente, em 3 de agosto, uma adolescente de 13 anos e o padrasto de 38 morreram após o carro em que estavam atingir uma anta na BR-267, entre Rio Brilhante e Maracaju. O veículo seguia em direção a Maracaju quando ocorreu a colisão. Com o impacto, o motorista perdeu o controle, invadiu a pista contrária e bateu de frente com um caminhão carregado com etanol. Os dois veículos pegaram fogo e os ocupantes do carro morreram no local.

BR-262 – A BR-262 é hoje um exemplo de aplicação conjunta dessas medidas. Segundo o balanço mais recente do DNIT (Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes), a execução de um contrato para mitigação dos impactos sobre a fauna começou em 2025.
O contrato contempla 170 quilômetros de cercas condutoras de fauna, 7 passagens superiores, 10 subterrâneas, sinalização vertical e redutores de velocidade. Conforme dados do DNIT, R$ 30 milhões estão provisionados para as ações, o que classifica a BR-262/MS como a rodovia que recebe atualmente o maior investimento público do País em mitigação de fauna.
As estruturas de travessia nem sempre precisam ser construídas do zero. Dependendo das características do local e das espécies, estruturas existentes podem ser adaptadas.
“Não precisa necessariamente construir uma nova passagem de fauna. Muitas vezes você tem um bueiro que pode ser adaptado ou uma passagem de gado que pode ser utilizada”, afirma Jade.
Para ela, a BR-262 ainda não representa uma situação ideal, mas as intervenções podem servir de referência para outras estradas do Estado.

Adequação de cerca – Para Jade, a escolha do tipo de cercamento é outro ponto importante, pois as convencionais, como as de quatro fios encontradas em propriedades rurais, não cumprem necessariamente a função de impedir que animais silvestres cheguem à pista.
Além do tipo de estrutura, é necessário definir onde ela começa e termina. Planos técnicos de mitigação analisados para rodovias de Mato Grosso do Sul alertam que cercas curtas podem simplesmente fazer com que o animal acompanhe a barreira até encontrar o final e tente atravessar a rodovia naquele ponto.
A instalação de cercas direcionadoras também está entre as medidas discutidas para as rodovias estaduais. Jade cita a MS-345, na região de Bonito e da Serra da Bodoquena, onde ações de mitigação vêm avançando e podem ter obras iniciadas em breve.
O objetivo, segundo ela, é fazer com que cercamento, passagens e características da paisagem sejam analisados como partes de um mesmo sistema, em vez de intervenções isoladas.
Para Jade, depois de anos dedicados ao levantamento dos atropelamentos e à identificação de pontos críticos, o desafio é transformar o conhecimento acumulado em intervenções nas estradas.
“A gente já monitorou por décadas, já tem dados expressivos para comprovar que é necessário fazer isso e aquilo. O que a gente precisa agora é focar na solução.”
A secretária-executiva também defende que essas medidas sejam previstas antes da construção ou da ampliação das estradas, em vez de implantadas somente depois que os problemas aparecem. “É muito mais fácil prevenir do que mitigar.”


