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terça-feira, 6 de outubro de 2026

Morar longe em troca de aluguel mais barato pode “mascarar” economia

Valor cobrado no transporte e o tempo gasto também entram na conta de campo-grandenses

Escolher onde morar é uma decisão que vai muito além do valor anunciado no contrato de aluguel. Em Campo Grande, por exemplo, a diferença entre os preços praticados nos bairros evidencia duas realidades.

De um lado, estão regiões mais valorizadas, com mais infraestrutura, onde a localização e a proximidade dos serviços podem custar mais caro. De outro, bairros onde os imóveis têm preços mais acessíveis, mas a distância dos compromissos diários pode acrescentar despesas à rotina. No fim do mês, a economia obtida com a moradia realmente compensa?

A resposta depende da rotina de cada família. Para quem trabalha longe de casa, o transporte pode consumir uma parcela importante do orçamento. Neste caso, a economia com o aluguel pode vir acompanhada de gastos com ônibus, corridas por aplicativo e combustível.

Já para quem tem filhos, familiares por perto ou compromissos que podem ser resolvidos a pé, morar em um bairro mais distante das áreas centrais pode representar uma escolha vantajosa.

Há ainda quem esteja disposto a pagar mais para reduzir o tempo no trânsito e ter escolas, comércio e serviços a poucos minutos de casa.

Morar longe em troca de aluguel mais barato pode "mascarar" economia
Pista de skate mostra o que é lazer no Jardim Tijuca (. Foto: Osmar Veiga)

Perto da família, longe de tudo – Aos 72 anos, Nilza Pavão conhece bem o peso de organizar a vida com recursos limitados. Moradora do bairro Tijuca há quatro anos, a dona de casa começa o dia às 6h, quando se levanta para preparar o neto para a escola e tomar café da manhã. Depois, os dois seguem a pé até a instituição de ensino.

Na Rua Rio da Prata, Nilza paga R$ 1,2 mil de aluguel. Antes de operar de câncer, ela trabalhava como faxineira. A doença, porém, alterou sua realidade e reduziu suas possibilidades de obter renda.

Morar longe em troca de aluguel mais barato pode "mascarar" economia
Nilza, na praça do Jardim Tijuca, conta como é morar na região (. Foto: Osmar Veiga)

Ao recordar um dos períodos mais difíceis, Nilza explica como a falta de recursos chegou a comprometer até mesmo a alimentação. “Quando eu operei do câncer, eu não tinha meios para comprar comida, eu peguei o Loas.”

A experiência também mudou a maneira como ela organiza as compras da casa. Mesmo com a preocupação de manter a despensa abastecida, ela observa que os produtos necessários à limpeza doméstica pesam cada vez mais no orçamento.

Nilza já buscou auxílio no Cras (Centro de Referência de Assistência Social), mas deixou de retirar as cestas básicas. Hoje, precisa calcular cuidadosamente as despesas para garantir os itens de que necessita ao longo do mês.

“Eu pegava cesta básica no Cras, mas parei. Sabão em pó, água sanitária, papel higiênico, que é caro, essas coisas são caras. O arroz, o feijão, o óleo, o macarrão, um café, não é caro. O que é caro hoje em dia é o produto de limpeza. O mês que vai gastar para comprar tudo é de 700 reais para lá. Água e luz minha filha paga, a água está 65, a luz está 92”, detalhou.

Morar longe em troca de aluguel mais barato pode "mascarar" economia
Mãe e filho caminham a pé segurando sacolas de supermercado (. Foto: Osmar Veiga)

A aparência também faz parte da maneira como Nilza se apresenta ao mundo. Ela conta que algumas pessoas interpretam suas roupas limpas e seu cuidado pessoal como sinais de uma situação financeira confortável. Para ela, porém, manter-se arrumada é um hábito antigo, que não desapareceu com as dificuldades enfrentadas depois da doença.

“Tem gente que fala que eu vivo toda bonita na rua. Antes de eu operar do câncer, eu era faxineira. As pessoas acham que eu tenho meios, porque me veem assim, eu sempre fui assim toda vida, se eu vou na quitanda, eu vou limpinha e arrumadinha”, comentou.

Quando consegue resolver os compromissos a pé, Nilza evita despesas extras. Mas as consultas e os exames exigem outras alternativas, e nem sempre é possível fazer todo o trajeto de ônibus. Nessas ocasiões, a filha ajuda a pagar o transporte por aplicativo, uma despesa que pode se tornar necessária justamente nos momentos em que a mobilidade é mais difícil.

Morar longe em troca de aluguel mais barato pode "mascarar" economia
Rua sem asfalto no Jardim Tijuca mostra estrutura do bairro (. Foto: Osmar Veiga)

“Quando estou passando mal, que eu vou no médico, aí eu pego Uber. Quando vou pegar, a minha filha paga para mim. Dia 14 tenho exame das pernas para fazer, vou ter que ir de ônibus e voltar de Uber. Novembro eu tenho vários exames para fazer”, disse, já prevendo mais gastos.

Apesar da distância em relação a outras regiões da cidade, Nilza não vê a mudança para um bairro mais central como uma escolha simples. Ela valoriza a tranquilidade da rua onde mora e, sobretudo, a possibilidade de contar com a filha por perto.

“Eu mudei para cá porque minha filha mora logo ali. Eu gosto daqui, é um bairro sossegado, tranquilo, pelo menos onde eu moro. Graças a Deus nunca aconteceu nada. Mesmo sendo longe, eu prefiro ficar aqui, porque eu moro pertinho da minha filha”, disse.

O desejo de morar em uma região mais bem localizada existe, mas está condicionado à possibilidade de encontrar um imóvel adequado e que caiba no orçamento. Nilza procura uma casa com dois quartos de casal, sem abrir mão da proximidade da família.

“Eu preciso de uma casa com dois quartos de casal. Se for para pagar aluguel, eu prefiro ficar por aqui mesmo, perto da minha filha”.

Morar longe em troca de aluguel mais barato pode "mascarar" economia
Samuel conversando com a reportagem sobre morar no Tijuca (. Foto: Osmar Veiga)

Custo compensa – Também morador do Tijuca, o auxiliar de sinalização, Samuel Avarenga, de 32 anos, encontrou no bairro uma alternativa que combina aluguel acessível e tranquilidade. Ele vive na região há 2 anos e paga R$ 600 mensais pela moradia, com água e energia inclusas. Em um orçamento doméstico, ter essas duas contas incorporadas ao aluguel ajuda a dar previsibilidade às despesas e facilita o planejamento financeiro.

Além da moradia, Samuel estima que gasta R$ 900 por mês com alimentação. Como há um mercado nas proximidades, ele costuma fazer as compras a pé, evitando depender de transporte.

A tranquilidade foi um dos aspectos que mais chamaram sua atenção quando escolheu o endereço. Para ir ao trabalho, no bairro Noroeste, ele utiliza o ônibus.

“Eu achei sossegado, achei um bairro bem tranquilo. Trabalho no Noroeste, vou de ônibus”, contou.

Morar longe em troca de aluguel mais barato pode "mascarar" economia
Samuel, a pé, indo embora para a casa (. Foto: Osmar Veiga)

Mesmo com o aluguel baixo e as despesas básicas incluídas, o custo da mobilidade continua presente. Samuel calcula gastar aproximadamente R$ 200 por mês com transporte por aplicativo. Somado ao aluguel, esse valor representa R$ 800 mensais, sem incluir alimentação e outras despesas pessoais.

O morador, entretanto, não descarta mudar de região. Ele já viveu no Jardim Aeroporto e considera também o Coophavila, bairros que associa a uma localização mais conveniente para suas necessidades.

“Eu mudaria para o Jardim Aeroporto, eu já vivi bastante tempo lá. Eu tenho pensamento de mudar para o coophavila também, acho que é mais localizado”, completou.

Localização como economia de tempo – Para a empresária Josiane, que mora há 7 meses no bairro Cidade Jardim, a escolha do endereço foi influenciada pela combinação entre preço, localização e praticidade. Depois de um período procurando imóvel, ela encontrou um aluguel que considera uma oportunidade. A proximidade do Centro e a presença de serviços nas redondezas também contribuíram para a decisão, tornando o cotidiano da família mais conveniente.

Morar longe em troca de aluguel mais barato pode "mascarar" economia
Hospital particular na região do bairro Cidade Jardim (. Foto: Osmar Veiga)

Josiane estima gastar entre R$ 1,5 mil e R$ 2 mil por mês com alimentação. A família tem carro, mas a rotina não depende exclusivamente do veículo. Ela busca a filha na escola a pé, além de também conseguir ir caminhando à academia. São pequenos deslocamentos que, quando somados ao longo da semana, podem representar economia de combustível e tempo.

“É um bairro bom, com mais tempo na nossa cidade. Com certeza é localizado, fica mais próximo do Centro. É um aluguel barato, é um achado. A gente passou um tempo procurando, estávamos achando por 3 mil”, lembrou.

Ter um carro, no entanto, não significa que o custo do deslocamento seja pequeno. Josiane conta que utiliza bastante o transporte por aplicativo, especialmente quando precisa resolver compromissos em diferentes pontos da cidade. As corridas chegam a aproximadamente R$ 1,5 mil por mês, enquanto o gasto com gasolina fica em torno de R$ 500. Somadas, essas duas despesas representam cerca de R$ 2 mil mensais relacionados à mobilidade.

Morar longe em troca de aluguel mais barato pode "mascarar" economia
Campo de futebol mostra lazer no bairro Cidade Jardim (. Foto: Osmar Veiga)

Ao comparar o endereço atual com a antiga moradia no bairro Santo Antônio, Josiane destaca justamente a diferença na necessidade de usar o veículo. Na avaliação dela, a localização atual tornou alguns compromissos mais simples e ajudou a reduzir parte dos deslocamentos que antes faziam parte da rotina familiar.

“Por conta da região, o valor do aluguel fica ok, morar mais próximo, morar mais tranquilo. Antes de mudar para cá, a gente morava lá no Santo Antônio, gastava muito de combustível. Aqui tem tudo perto, o shopping é 5 minutos perto de casa”, avaliou.

Morar longe em troca de aluguel mais barato pode "mascarar" economia
Foto aérea mostra estrutura e padrão de casas no Cidade Jardim (. Foto: Osmar Veiga)

Dados – Os números do Índice Fipezap ajudam a dimensionar essa diferença. Em agosto, o preço médio anunciado do aluguel por metro quadrado variava significativamente entre bairros de Campo Grande. No Jardim dos Estados, o valor era de R$ 88,60 por m², enquanto no Rita Vieira chegava a R$ 38,50. No São Francisco, o preço era de R$ 36,90; no Tiradentes, R$ 33,30; no Seminário, R$ 30,80; e no Pioneiros, R$ 28,70. Considerando o conjunto do mercado monitorado, o preço médio ficou em R$ 32,75 por m².

A diferença entre os bairros mostra como a localização interfere no custo da moradia. Em um imóvel de 50 metros quadrados, por exemplo, a aplicação desses valores médios corresponderia a um aluguel de R$ 4.430 no Jardim dos Estados e de R$ 1.435 no Pioneiros. A diferença seria de R$ 2.995 mensais, antes de considerar condomínio, contas domésticas e outros encargos. Trata-se de uma simulação com base nos preços médios por metro quadrado, e não do valor efetivamente pago por todos os moradores desses bairros.

O levantamento também aponta variação mensal de 3,85% e alta acumulada de 16,25% no ano, enquanto a variação acumulada em 12 meses foi de 1,87%, conforme os dados informados do índice.

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