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terça-feira, 6 de outubro de 2026

Skatista leva o “grá” das araras de Campo Grande para debaixo dos pés

Pedro Iti anda de skate desde criança e agora reúne fauna, sol e identidade regional em suas produções

Quem mora ou já passou por Campo Grande provavelmente já ouviu o “gra” das araras que cruzam o céu da cidade. Agora, o som e as aves que fazem parte da paisagem campo-grandense deixaram um pouco o Cerrado para ganhar também as pistas de skate. Elas estampam os shapes da GRÁ, marca de skateboarding criada em 2025 pelo skatista profissional Pedro Iti, de 37 anos, que levou elementos da fauna sul-mato-grossense para debaixo dos pés de quem se equilibra sobre 4 rodas.

A ideia de criar uma marca própria começou a amadurecer entre 2023 e 2024, depois de Pedro acumular anos de experiência com marcas de fora de Mato Grosso do Sul. Como skatista profissional, ele já teve modelos de shapes assinados com seu nome, mas sentia que os patrocínios limitavam a possibilidade de colocar referências próprias nos produtos.

A GRÁ surgiu justamente da busca por autonomia e pela vontade de aproximar o skate da cena local. “Com uma marca, eu consigo trabalhar mais a cena local, movimentar com evento, patrocinar outro skatista, colocar mais conceito, mais identidade regional no shape”, explica.

Skatista leva o “grá” das araras de Campo Grande para debaixo dos pés
Com mais de duas décadas sobre o skate, Pedro transformou a experiência nas pistas na criação da própria marca, a GRÁ (. Foto: Amanda Ferreira)

E se o nome é curto, os significados são vários. Pedro explica que GRÁ parte de 3 referências que orientam a identidade visual da marca. A primeira é o “grá”, som que ele associa ao grito das araras-canindé comuns na região. A segunda vem de “graça”, ligada à ideia de enxergar beleza e gratidão no cotidiano. Já o “Rá”, referência ao deus do Sol na cultura egípcia, Pedro incorporou às artes por causa da presença marcante do sol e do clima seco no Cerrado.

É daí que aparecem araras, silhuetas de aves diante do sol, palmeiras, lua e pôr do sol nos desenhos dos shapes. O processo criativo fica nas mãos do próprio skatista. “Eu tenho a ideia, aí eu vou no Photoshop, desenrolo e faço alguma coisa”, conta.

Segundo Pedro, as artes não seguem uma fórmula fechada, mas partem dos três conceitos que sustentam a GRÁ e de referências que encontra no próprio cotidiano. “O norte da criação do conceito das artes da GRÁ vem de mim, mas vem sempre embasado nesses três conceitos, que é a graça, a arara, o grito da arara e Rá, o sol".

A produção ainda é pequena. Desde a criação da marca, Pedro afirma ter feito 11 remessas, normalmente com 15 a 20 shapes cada, embora algumas tenham chegado a 30 unidades. Ele comercializa as peças em 2 lojas de skate e diretamente pelas redes sociais. Segundo ele, produzir em quantidades menores permite que o estoque gire e que o dinheiro das vendas seja usado para bancar as próximas remessas.

Outro ponto pensado por Pedro é o preço. Os shapes são produzidos em marfim e custam R$ 189, segundo ele. O skatista explica que poderia trabalhar com maple canadense, considerado por ele uma madeira superior, mas isso elevaria o preço para a faixa dos R$ 320. A escolha pelo marfim busca tornar o produto mais acessível, principalmente para adolescentes e para quem precisa dividir os gastos com o skate com as despesas de casa.

“É para essa pessoa pegar um shape mais barato, um shape legal para usar, com conceito, com identidade, que o cara se identifique”, diz.

Skatista leva o “grá” das araras de Campo Grande para debaixo dos pés
Do primeiro contato com o skate na infância à carreira profissional, Pedro construiu trajetória ligada à cena de Campo Grande (. Foto: Amanda Ferreira)

Estilo de vida – Mais do que disputar campeonatos, Pedro diz que a proposta está ligada à cultura e à comunidade do skate. Atualmente, ele toca a marca ao lado do skatista Arthur, que participa andando, produzindo fotos e vídeos e usando os produtos. “O nosso intuito não é muito ligado à competição. A gente trabalha mais pela cultura. O propósito é mais cultural mesmo, comunitário, fortalecer a comunidade”, resume.

Essa relação com o skate começou em 1998, quando tinha entre 8 e 9 anos. Em uma época em que vídeos e informações sobre a modalidade eram menos acessíveis, foi pela televisão que ele encontrou uma porta de entrada. O interesse surgiu ao assistir, na MTV, a clipes do Charlie Brown Jr., banda que incorporava o skate à própria identidade visual.

Com o passar dos anos, ele atravessou diferentes fases da modalidade, das categorias de base às competições e produções de vídeos nas ruas. Em 2015, profissionalizou-se e passou a concentrar os esforços na carreira como skatista.

Antes disso, desde 2012, já participava da Rema, onde trabalhou com comunicação, redes sociais e produção de vídeos. Mesmo depois de se profissionalizar, continuou ligado ao espaço como colaborador e conselheiro.

Skatista leva o “grá” das araras de Campo Grande para debaixo dos pés
Pedro Iti começou a andar de skate ainda criança, em 1998, inspirado pela cultura que conheceu pela televisão (. Foto: Amanda Ferreira)

Hoje, Pedro define sua trajetória profissional como mais ligada à indústria e à cultura do skate do que às competições. Depois de anos recebendo patrocínios e assinando modelos para outras marcas, decidiu colocar essa experiência em um projeto próprio.

Para ele, a GRÁ carrega também a responsabilidade de representar uma geração de skatistas de Campo Grande que cresceu sonhando em viver da modalidade. “Eu não estou fazendo isso só por mim. A GRÁ não é para eu ter dinheiro. Ao contrário, é para fazer o skate girar. É uma sementinha do skateboard”.

Os shapes estão disponíveis na Rema Skate Shop, na Rua Pedro Celestino, 1.387, no Centro de Campo Grande. A loja também comercializa os modelos da marca pela internet.

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