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terça-feira, 6 de outubro de 2026

Briga entre cães: sinais de alerta e cuidados que hotéis e creches devem ter

Veterinária explica indicadores de tensão, divisão de grupos e como agir com segurança durante conflitos

Brincadeira, correria e interação fazem parte da rotina de muitos cães em hotéis e creches. Mas, entre uma perseguição e outra, também pode surgir uma situação de tensão que exige atenção de quem está cuidando dos animais. Identificar esses sinais antes que o conflito aconteça pode fazer diferença para evitar ferimentos.

O assunto ganhou destaque após os casos envolvendo cães no Hotelzinho Peludos Resort, em Bonito, a 297 quilômetros de Campo Grande. Primeiro, um vídeo mostrou Ravi sendo agredido dentro do estabelecimento após, segundo a versão apresentada pela responsável pelo local, ter brigado com um Yorkshire que morreu durante o episódio. Depois, veio à tona uma gravação envolvendo Manjericão, um Akita de 4 anos, também hospedado no local.

Diante da repercussão, a médica veterinária comportamentalista, adestradora e zootecnista Marcela Barbieri explica que o comportamento dos cães precisa ser observado muito antes de uma eventual briga.

Segundo Marcela, nem sempre o primeiro sinal de desconforto é um rosnado. O animal pode demonstrar que está incomodado de maneiras mais discretas, como desviar o olhar, virar a cabeça, lamber os lábios, bocejar fora de contexto , colocar as orelhas para trás, abaixar o corpo, tentar se afastar ou procurar uma rota de fuga.

Em situações de maior tensão, podem aparecer corpo rígido, olhar fixo, bloqueio da passagem de outro cão, perseguição insistente, tentativa repetida de montar, encurralamento, rosnado e exposição dos dentes.

“Um dos erros mais comuns é acreditar que só existe problema quando aparece um rosnado. Muitas vezes o cão já tentou se afastar, interromper a interação ou comunicar desconforto várias vezes antes disso. Um profissional capacitado deve intervir nessa fase, e não esperar que a situação evolua para conflito.”

Briga entre cães: sinais de alerta e cuidados que hotéis e creches devem ter
Marcela Barbieri ensina limites e manejo durante atividades com os animais (. Foto: Arquivo pessoal)

A especialista explica que não se deve analisar apenas um comportamento isoladamente. O contexto e a interação entre os animais também precisam ser considerados.

Uma briga pode, sim, acontecer de maneira rápida, mas muitas vezes é precedida por sinais que passam despercebidos. Também existe o aumento gradual da excitação do grupo.

“Um grupo pode começar brincando e gradualmente ficar mais acelerado, com perseguições mais intensas, dificuldade de interromper a interação, vocalizações, disputas e menor capacidade de autorregulação.”

Por isso, para Marcela, o trabalho em uma creche ou hotel não deve se limitar a separar cães quando eles efetivamente brigam. A equipe precisa perceber quando a dinâmica entre os animais começa a ficar mais intensa e intervir antes.

Não basta separar por tamanho. Quando vários cães convivem no mesmo ambiente, o porte é um dos fatores que devem ser considerados, mas não é o único.

“Avalio principalmente compatibilidade comportamental, estilo de interação, tamanho e diferença de força física, idade, condição clínica, capacidade de autorregulação, histórico social, presença de medo ou reatividade, comportamento diante de recursos e nível de excitação.”

Isso significa que colocar cães pequenos juntos e grandes em outro grupo não resolve, sozinho, todos os riscos. Dois animais do mesmo tamanho também podem ser incompatíveis.

Ao mesmo tempo, diferenças muito grandes de porte aumentam as consequências de uma interação brusca. Um cachorro grande pode provocar uma lesão grave em um pequeno mesmo sem intenção de machucá-lo, durante uma perseguição, colisão, pisada ou brincadeira mais intensa.

“Eu considero a diferença de porte um fator importante de gerenciamento de risco. Mas dois cães do mesmo tamanho podem ser completamente incompatíveis. O correto é combinar porte + perfil comportamental + estilo de brincadeira + nível de excitação + supervisão adequada.”

Novato no grupo – A adaptação também exige cuidado. Segundo Marcela, um animal recém-chegado não deveria ser colocado imediatamente em um grupo grande.

Primeiro, é necessário conhecer o histórico de saúde e comportamento e observar como o cão reage ao ambiente, às pessoas, aos sons e aos demais animais. Depois, as apresentações devem ocorrer de maneira gradual e controlada.

“Um cão pode ficar inibido em um ambiente novo e só começar a demonstrar seu repertório comportamental quando estiver mais familiarizado. Portanto, adaptação é um processo, não um teste de cinco minutos".

A avaliação também precisa continuar nos dias seguintes, já que o comportamento pode mudar conforme o animal se sente mais confortável no espaço.

Se o conflito já começou, a prioridade deve ser interromper a interação com segurança para os cães e para os profissionais.

Marcela explica que não existe uma única técnica que sirva para todas as situações. Sempre que possível, barreiras físicas, como portões, placas ou divisórias, podem ajudar a interromper o contato sem que o funcionário precise colocar as mãos ou o rosto próximo à boca dos animais.

Depois da separação, os cães devem ser colocados em ambientes distintos e avaliados.

“Separar a briga não encerra a ocorrência. Os animais precisam ser examinados, porque perfurações pequenas podem esconder lesões profundas, esmagamento e trauma de tecidos".

A veterinária também alerta para intervenções físicas inadequadas. Segundo ela, orelhas, cauda e extremidades não são estruturas apropriadas para suspender ou arrastar um cachorro.

“Além de causar dor e lesões, isso pode levar um animal altamente excitado a provocar agressão redirecionada e aumentar ainda mais a ativação".

Bater no animal também não é considerado uma técnica adequada de separação e pode intensificar a resposta agressiva.

Em situações graves, existem técnicas específicas de emergência que podem ser utilizadas por profissionais treinados. Marcela ressalta, porém, que esse tipo de procedimento exige conhecimento técnico e treinamento adequado, não devendo ser improvisado por pessoas sem capacitação.

Quando há diferença de porte, atenção é redobrada. Em uma briga entre um cachorro grande e um pequeno, a diferença de massa e força aumenta o risco de lesões graves para o menor.

Mas simplesmente puxar um animal enquanto o outro continua mordendo pode piorar os ferimentos, dependendo da forma como ocorreu o ataque. “O ideal é interromper o contato de maneira tecnicamente segura e, assim que possível, separar fisicamente os animais".

Mesmo que aparentemente esteja bem, o cão envolvido precisa ser observado. Pelagem, adrenalina e pequenas perfurações podem esconder lesões que não são percebidas imediatamente.

Contenção não é punição – Para diferenciar uma intervenção necessária de uma abordagem inadequada, Marcela aponta quatro critérios: necessidade, proporcionalidade, técnica e duração.

“A força empregada deve ser a mínima necessária para obter controle e cessa assim que o risco cessa. O objetivo é separar e proteger, não punir o animal".

Para ela, hotéis e creches também precisam ter protocolos definidos antes que uma emergência aconteça.

“Uma creche profissional precisa ter protocolos previamente estabelecidos e funcionários treinados. Não é adequado depender de improvisação justamente no momento de maior risco".

Conhecer o animal também ajuda na prevenção. Saber quais situações aumentam sua excitação e reconhecer os sinais individuais permite que a equipe intervenha antes de um conflito.

Mas isso não significa que o cachorro obedecerá necessariamente a um comando durante uma situação de alta intensidade. “Então, saber comandos é útil, mas não substitui manejo ambiental, prevenção nem um protocolo seguro de emergência".

Uma ocorrência também precisa ser registrada e comunicada aos responsáveis. Marcela considera fundamentais a separação e estabilização dos animais, avaliação veterinária e comunicação imediata e transparente aos tutores.

O estabelecimento deveria ainda manter um relatório com informações como horário, cães envolvidos, profissionais presentes, situação que antecedeu o conflito, intervenção realizada, possíveis lesões e providências adotadas.

Se houver câmeras, as imagens devem ser preservadas.

Em casos de morte, a veterinária destaca a importância de guardar vídeos, registros da rotina, horários, identificação dos animais, funcionários envolvidos e informações sobre eventual atendimento. Quando há dúvidas sobre a causa da morte, uma necropsia pode ajudar a esclarecer as circunstâncias.

Para os tutores, alguns sinais também podem aparecer depois que o animal volta para casa. Mudanças repentinas de comportamento, como isolamento, irritabilidade, medo, maior reatividade, tentativa de se esconder, recusa em voltar ao local ou receio incomum de pessoas e outros cães merecem atenção.

Alterações no sono, apetite ou reação ao toque também podem indicar que algo não está bem. “Dor pode aparecer primeiro como mudança comportamental. Um cão que subitamente começa a evitar toque, rosnar durante manipulação ou reagir de maneira desproporcional deve também ser investigado clinicamente".

No caso de um animal que tenha passado por uma experiência dolorosa ou assustadora, a especialista explica que podem ocorrer impactos comportamentais. Isso não significa que todo cachorro desenvolverá um problema, mas experiências negativas podem influenciar como ele reage posteriormente.

Escolha – Antes de escolher um hotel ou creche, Marcela recomenda que os tutores façam perguntas sobre a rotina e os protocolos do estabelecimento.

Entre elas, como os grupos são formados, quantos cães ficam sob responsabilidade de cada profissional, qual treinamento a equipe possui, como ocorre a introdução de novos animais e quais são os períodos de descanso.

Também vale perguntar diretamente: “O que vocês fazem quando percebem que um cão está desconfortável?” e “Qual é o protocolo se acontecer uma briga?”

A estrutura também deve ser observada: há espaços para separar os animais? Existe protocolo de emergência? Há atendimento veterinário de referência? O local registra intercorrências? Há câmeras?

E, segundo Marcela, é importante observar os próprios cães.

“Uma creche boa não precisa ter vinte cães correndo e brincando sem parar. Descansar, cheirar o ambiente, explorar, afastar-se de outros cães e simplesmente não querer brincar também são comportamentos normais".

Para a especialista, os episódios recentes podem servir de alerta para que tutores e estabelecimentos passem a olhar com mais atenção para comportamento, prevenção e preparo profissional.

“Foi uma grande tristeza tudo isso que aconteceu, mas que sirva de aprendizado e alerta para toda a população".

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