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quinta-feira, 8 de outubro de 2026

Inaugurada em 2014, “Estrada das Antas” deve ganhar 1ª passagem de fauna em 2027

Concessão prevê 11 estruturas até o 8º ano; plano para reduzir atropelamentos existe desde 2017

Inaugurada em dezembro de 2014, a MS-040 deve receber em 2027 a primeira passagem específica para a travessia de animais silvestres. Ao todo, a Caminhos da Celulose, concessionária responsável pela rodovia, prevê a implantação de 11 novas estruturas até o oitavo ano da concessão.

A medida atende a uma reivindicação antiga de pesquisadores e organizações ambientais que acompanham os atropelamentos de animais nas estradas de Mato Grosso do Sul. A MS-040, que liga Campo Grande a Santa Rita do Pardo, ganhou inclusive o apelido de “Estrada das Antas” devido ao histórico de colisões envolvendo a espécie.

Dados atualizados do Cofauna (Mapa de Colisões com a Fauna de Mato Grosso do Sul) mostram que, entre março de 2016 e março de 2026, foram registradas 2.055 ocorrências de atropelamentos de animais silvestres na MS-040. Entre as espécies e grupos com maior número de registros estão o tatu-peba, com 371 ocorrências; cachorro-do-mato, com 341; anatídeos (aves aquáticas), com 334; e anta, com 298.

A preocupação com os atropelamentos na rodovia resultou na elaboração de um plano específico de mitigação para a MS-040, em agosto de 2017. O documento foi produzido voluntariamente pelas pesquisadoras Patrícia Medici, coordenadora da INCAB (Iniciativa Nacional para a Conservação da Anta Brasileira), projeto do IPÊ (Instituto de Pesquisas Ecológicas), e Fernanda Abra, especialista em ecologia de estradas. O estudo identificou pontos críticos de atropelamentos e indicou intervenções para reduzir as mortes de animais e os riscos para quem trafega pela estrada.

O documento propôs, entre outras medidas, cercamento direcionador, novas passagens inferiores para a fauna e aproveitamento de estruturas já existentes, como redes de drenagem e passagens de gado. A proposta era impedir o acesso dos animais ao asfalto e direcioná-los para pontos onde pudessem atravessar a rodovia em segurança.

Segundo os pesquisadores, o estudo foi apresentado à Agesul (Agência Estadual de Gestão de Empreendimentos) e à então Secretaria de Estado de Infraestrutura e detalhava estruturas existentes com potencial para serem utilizadas pelos animais e indicava intervenções nos pontos considerados prioritários. Procurada, a Agesul ainda não se posicionou a respeito.

Agora, nove anos depois, esse mesmo trabalho volta a aparecer no planejamento da rodovia. Em resposta ao Campo Grande News, a Caminhos da Celulose informou que o material produzido pela INCAB e pelo IPÊ está sendo usado como base de estudo para a definição das novas passagens e das medidas de mitigação relacionadas à fauna.

Primeira passagem – As 11 novas estruturas não serão implantadas de uma só vez. Segundo a Caminhos da Celulose, a primeira está prevista para o segundo ano da concessão, em 2027. Depois dela, o cronograma prevê uma passagem no terceiro ano, uma no quarto, duas no quinto, duas no sexto, duas no sétimo e outras duas no oitavo ano da concessão. Também estão previstas sinalizações de conscientização e advertência.

A concessionária não informou onde as 11 passagens serão instaladas, se haverá cercamento direcionador nem se os locais escolhidos correspondem aos pontos críticos identificados pelos pesquisadores.

Justiça – A ausência das medidas de mitigação já havia levado o caso à Justiça anos antes da concessão. Em 2018, o MPMS (Ministério Público de Mato Grosso do Sul) acionou a Justiça contra o Estado, Imasul (Instituto de Meio Ambiente de Mato Grosso do Sul), Agesul e empresas envolvidas nas obras da MS-040 para cobrar a implantação de medidas contra atropelamentos de animais silvestres.

Segundo o órgão, o Plano Básico Ambiental da rodovia previa passagens subterrâneas, cercamento, sonorização e redutores de velocidade. No entanto, desde a liberação da estrada ao tráfego, em dezembro de 2014, praticamente nenhuma dessas medidas havia sido implantada. A exceção eram algumas placas de sinalização instaladas em 2017, após cobrança do Ministério Público.

Atropelamentos de antas – Os atropelamentos representam uma ameaça à fauna, mas colisões envolvendo animais de grande porte também colocam em risco motoristas e passageiros. Em 3 de agosto deste ano, por exemplo, uma adolescente de 13 anos e o padrasto, de 38, morreram após o carro em que estavam atingir uma anta na BR-267, entre Rio Brilhante e Maracaju. O Chevrolet Onix seguia em direção a Maracaju quando ocorreu a colisão. Com o impacto, o motorista perdeu o controle da direção, invadiu a pista contrária e bateu de frente com um caminhão carregado com etanol. Os dois veículos pegaram fogo.

O acidente ocorreu em outra rodovia, mas exemplifica o potencial de gravidade das colisões com animais de grande porte. Na MS-040, um dos casos mais marcantes envolvendo antas ocorreu em março de 2025, quando aconteceram dois acidentes na mesma madrugada. No mais grave, no km 49, um Hyundai Creta atingiu uma anta, que morreu. O motorista ficou preso às ferragens, sofreu ferimento na cabeça e foi levado para a Santa Casa de Campo Grande. Horas antes, no km 60, uma Hilux havia atingido de raspão outra anta, sem deixar feridos. Estes casos fazem parte dos 298 registros envolvendo antas que constam no Cofauna entre março de 2016 e março deste ano.

Inaugurada em 2014, "Estrada das Antas" deve ganhar 1ª passagem de fauna em 2027
Quilômetro 04 da rodovia MS-040, entre Campo Grande e Inocência (. Foto: Direto das Ruas)

Cercamento – Para a secretária-executiva do Observatório Rodovias Seguras para Todos, Jade Tissiani, passagens de fauna e cercamento cumprem uma dupla função, pois protegem os animais e aumentam a segurança de quem trafega pelas rodovias, ao reduzir o risco de colisões graves.

A eficácia das passagens, porém, depende de medidas complementares. Segundo Jade, é necessário impedir que os animais tenham acesso direto à pista e direcioná-los aos pontos seguros de travessia. Essa é a função do cercamento, que atua como barreira e conduz a fauna até as estruturas. Dependendo das características do trecho, passagens já existentes, como bueiros, também podem ser adaptadas.

Para Jade, o desafio agora é transformar o conhecimento acumulado ao longo dos anos em ações efetivas. “A gente já monitorou por décadas, já tem dados expressivos para comprovar que é necessário fazer isso e aquilo. O que a gente precisa agora é focar na solução".

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