Em 1550, o escritor italiano Antonfrancesco Doni registrou uma reclamação: existiam tantos livros que já não havia tempo para ler sequer os títulos. João Calvino, na mesma época, descrevia os livros como uma floresta na qual o leitor podia se perder. Quase cinco séculos depois, qualquer pessoa com um celular na mão reconhece a sensação. Troque livros por publicações, vídeos e mensagens, e a queixa de 1550 vira o diagnóstico de 2026.
Vale entender como a Europa chegou àquela floresta, porque nós estamos entrando numa idêntica, em velocidade muito maior.
Antes de Gutenberg, estima-se que existissem cerca de 30 mil livros em todo o continente europeu. Cada um era copiado à mão, durante meses, e custava o equivalente a muitos salários. O livro era precioso porque era escasso. Então veio a prensa de tipos móveis, por volta de 1450, e em apenas 50 anos a Europa produziu mais de 20 milhões de volumes. No século seguinte, entre 150 e 200 milhões. Uma multiplicação de milhares de vezes em poucas gerações.
Repare no que aconteceu com o problema. Durante mil anos, a dificuldade tinha sido encontrar informação: ela era rara, cara e trancada. Em poucas décadas, a dificuldade virou o oposto: escolher, no excesso, o que merecia atenção. A escassez trocou de lado. E quando a escassez troca de lado, o valor vai junto. O valor deixou de estar no objeto livro, que qualquer oficina produzia, e passou ao que continuava raro: o critério sobre o que ler, a reputação de quem escrevia, a obra que justificava o tempo do leitor numa prateleira cada vez mais cheia.
A inteligência artificial acaba de repetir esse movimento com o conteúdo, em escala e velocidade sem precedente histórico. Texto, imagem, vídeo, áudio: tudo o que até ontem exigia equipe, tempo e orçamento hoje se produz em minutos, a custo próximo de zero. A floresta de Calvino virou selva infinita, que cresce sozinha, dia e noite.
Diante disso, muitas empresas estão tirando a conclusão errada. O raciocínio delas é: se produzir ficou barato, vamos produzir mais que todo mundo. Mais publicações, mais vídeos, mais presença, mais volume. É uma corrida compreensível e perdida de saída, porque otimiza exatamente o que acabou de perder valor. Quando todos os concorrentes têm acesso à mesma abundância, o volume deixa de diferenciar qualquer um. É como ter corrido para fabricar livros em 1600: a essa altura, livro já não era vantagem; era paisagem.
A história sugere onde o valor foi se esconder, porque ele migra sempre na mesma direção: para o que a nova tecnologia não barateia. E o que a IA não barateia é precisamente aquilo que faz alguém se importar.
Pense no motivo pelo qual um presente feito à mão vale mais do que um comprado às pressas, ou por que um filme favorito acompanha uma pessoa pela vida inteira. Não é a qualidade técnica da execução. É a percepção de que existe alguém ali: uma intenção, um cuidado, uma experiência real, uma voz que não se confunde com nenhuma outra. Nós nos importamos com criações quando reconhecemos nelas a presença de quem criou. Essa percepção não se fabrica em escala, não se copia do concorrente e não sai mais barata no mês que vem.
Para o empresário, a tradução é direta e muda a pergunta de gestão. A pergunta da era da escassez era: quanto conteúdo conseguimos produzir? A pergunta da era da abundância é: o que, de tudo o que produzimos, alguém escolheria no meio da selva? O que carrega a nossa voz, e não a média estatística de todas as vozes? O que um cliente leria até o fim, guardaria, mandaria para alguém? Se a resposta for nada, produzir dez vezes mais só torna o nada mais volumoso.
Isso não é um argumento contra a inteligência artificial, e os leitores desta coluna sabem que aqui não se faz esse tipo de argumento. A IA é extraordinária na execução, e quem abrir mão dela vai perder para quem a usa. O ponto é outro: a execução deixou de ser o ativo. O ativo é o que vem antes dela: o critério sobre o que merece existir, a experiência real que dá lastro ao que se diz, a intenção que o público reconhece do outro lado. A máquina amplifica uma voz; não substitui o ter algo a dizer.
Há quem preveja que a década de 2030 trará um novo Renascimento, um florescimento do que é autêntico e significativo justamente porque o genérico ficou infinito. Pode ser otimismo de quem vende essa tese. Mas o precedente histórico joga a favor: foi no século da superabundância de livros que a Europa produziu algumas das obras mais lidas até hoje. O excesso não matou o que tinha valor. Tornou o valor impossível de disfarçar.
A sua empresa vai produzir mais conteúdo no ano que vem, com ou sem estratégia, porque a tecnologia empurra. A pergunta que vale uma reunião de diretoria é outra: desse volume todo, o que vai existir porque vocês tinham algo a dizer? Porque é só com essa parte que alguém vai se importar.
(*) Alcir Nantes Abuchaim é CEO da i4t (Intelligence for Transformation), empresa sul-mato-grossense de arquitetura de inteligência corporativa. Siga nas Redes Sociais @i4t.ai

