Mostra 2026: A Terra do meu Pai
Fatherland ou A Terra do Meu Pai, como ficou em idioma brasileiro, começa de modo um tanto enigmático. Um homem desperta num quarto miserável, e começa a falar com alguém ao telefone. Ao seu lado dorme uma pessoa. Homem ou mulher? Não dá para saber. O corpo parece masculino, os cabelos longos sugerem uma mulher. Tudo é ambíguo, híbrido, num preto-e-branco um tanto fantasmático usado por Pawel Pawlikowski no filme que lhe valeu o prêmio de melhor direção no Festival de Cannes.
Depois ficamos sabendo quem é o personagem e com quem ele falava ao telefone. Era Klaus, membro da família Mann, cujo patriarca, Thomas Mann, Prêmio Nobel de Literatura, é o pivô deste longa-metragem notável, o primeiro grande filme desta Mostra de Cinema que promete muito em sua 50ª edição.
Descobrimos também com quem fala Klaus naquela que parece ser uma situação terminal. Ele conversa com sua irmã, Erika, que acompanha o pai numa viagem um tanto estranha.
Mann e família haviam saído da Alemanha com a ascensão do nazismo. Estabeleceram-se nos Estados Unidos e Mann naturalizou-se americano. O ano agora é 1949, bicentenário do nascimento de Goethe, o símbolo maior da grandiosa literatura alemã. Mann, o escritor exilado, é convidado para visitar sua terra e receber o Prêmio Goethe. Mas, qual é sua terra, uma vez que a Alemanha, que perdeu a guerra, fora dividida?
Dividida entre a parte Ocidental (americana) e a parte Oriental (soviética) é bem o símbolo desta outra guerra iniciada assim que terminou a sangrenta Segunda Guerra Mundial, vencida pelos Aliados contra a Alemanha. A Guerra Fria, como foi batizada e que manteve o mundo, por décadas, à beira do holocausto nuclear. Mann (interpretado por Hanns Zischler) decide fazer essa viagem pela Alemanha, começando por Frankfurt (onde Goethe nasceu em 1749), indo até Weimar (onde Goethe faleceu em 1832). Quem dirige o carro, um Buick preto, é sua filha primogênita, Erika, vivida pela fabulosa Sandra Huller, de A Zona de Interesse e Anatomia de uma Queda.
A viagem de Mann e Erika por essa Alemanha partida é como um passeio trágico pelo mundo fragmentado que saiu da Segunda Guerra Mundial e deu nova forma à civilização, que vigorou pelo menos até 1989 quando caiu o Muro de Berlim, ou até 1991, quando ruiu o império soviético. Um mundo de escombros físicos e morais, de inimizades, ressentimentos, ajustes de contas, reacomodações geopolíticas. Um mundo de instabilidade, no qual o futuro parecia estar sempre à beira de um abismo, desta vez definitivo, para a espécie humana.
A arte de Pawlikowski consiste em compactar essa situação ultra-complexa em meros 82 minutos, proeza rara em meio ao prolixo cinema contemporâneo. Em particular o cinema dito "de arte", que não consegue resolver uma mera crise de casal em menos de três horas de tela.
Do que se fala aqui é nada menos que uma crise civilizacional, corporificada em um escritor de gênio, porém retratado como um ególatra que coloca seu trabalho e o reconhecimento dessa arte acima de tudo e de todos. Seu contraponto é a filha Erika, também ela uma personagem complexa, magnificamente interpretada por Sandra Huller. Erika não se conforma com a frieza com que o pai recebe a notícia do suicídio do filho e prossegue sua programação pela Alemanha como se nada de mais houvesse ocorrido. É o embate entre uma missão auto-imposta de intelectual e as considerações do mundo externo, do qual a morte de um filho faz parte.
No todo, essa crise civilizacional do pós-guerra soma-se ao dilema entre o individualismo e o pensamento coletivista e são postos à prova neste filme notável.
Pawlikowski não entrega tudo de bandeja ao espectador. Deixa que as questões fundamentais com as quais trabalha permaneçam implícitas enquanto ressoam no espectador. É sintético a ponto de deixar de fora temas óbvios, que para outros seriam obrigatórios. Por exemplo, o fato de que enquanto tudo isso decorria, Mann, já doente, lutava com a escrita do livro que para muitos seria sua obra-prima, o romance Doutor Fausto. Uma releitura contemporânea à tragédia da guerra do Fausto, de Goethe, sobre o homem que vende a alma ao diabo em troca do prazer do conhecimento.
Para Mann, o pacto sinistro teria sido selado por seu país ao tentar dominar o mundo e, pela violência, impor a sua civilização sobre todas as outras. Pacto trágico, que leva à morte e à perdição. Era assim que via a Alemanha, o país agora dividido, que perdeu sua alma. Mas tudo isso permanece nas entrelinhas desse filme extraordinário. Interpretá-lo é tarefa nossa, como espectadores.
horários de exibição
18/10
15:10
RESERVA CULTURAL – SALA 1
19/10
21:30
CINESESC
20/10
17:15
SOLAR SALA PETROBRAS
classificação indicativa
14 anos

