“Ele acabou com a vida da minha família, ele destruiu, arruinou a minha família". A revolta de Karla Vicentini vem acompanhada de uma espera dolorosa na Santa Casa de Campo Grande: o filho está em coma no CTI e ainda não sabe que o pai, o mecânico Aristóteles Onassis Tufaile, de 47 anos, morreu após ser baleado pelo vizinho, Manoel Paulo Cardoso, de 65 anos, na noite de terça-feira (20), no Jardim Batistão.
Na manhã desta quarta-feira, Karla foi ao hospital acompanhada da namorada do filho. As duas chegaram em uma viatura policial. Enquanto a mãe relatava os momentos de violência, a jovem chorava. Karla também estava machucada após tentar impedir que o vizinho continuasse atirando.
Segundo ela, não havia histórico de conflitos entre os dois homens. A discussão começou durante a troca de uma calha no apartamento localizado nos fundos da oficina da família, onde o filho do casal mora. O serviço era necessário devido a um vazamento e, conforme Karla, não envolvia a construção de um muro nem qualquer intervenção no telhado da residência de Manoel.
A mulher afirma que a manutenção já vinha sendo feita havia cerca de dois anos e que os trabalhadores acessaram o local pelo lado da família, utilizando uma escada. Aristóteles, segundo ela, não subiu no telhado do vizinho.
“Não tem nada a ver com o muro. Não tem muro. No apartamento onde meu filho mora, estávamos trocando a calha. Subimos pelo nosso lado. Não tinha nada. Eu tenho vídeo comprovando como ele saiu gritando que quebraram o telhado dele. Não quebrou”, afirmou.
Karla contesta a alegação de que as telhas da casa de Manoel teriam sido quebradas durante o trabalho. Segundo ela, o vizinho dizia que o profissional responsável pela calha havia subido no telhado dele. A mulher admite que uma pedra pequena ou outra poderia ter caído durante o serviço, mas ressalta que o local estava limpo e que o filho gravou imagens para mostrar como o trabalho foi executado.
Ela também nega que Aristóteles tenha jogado pedaços de madeira ou pedras contra o portão do vizinho. “Meu esposo não agrediu ele. Foi dito que ele jogou pau , pedra no portão, isso não aconteceu. Isso é mentira”, declarou.
De acordo com Karla, Aristóteles autorizou a medição da calha, ao contrário da versão de que Manoel não teria permitido o procedimento. Ela diz que já entrou em contato com a delegacia e com a Ceasa, que possui vídeos sobre o episódio e o material está com seu advogado.
Onde tudo começou – Karla situa o início da discussão por volta das 17h45 de terça-feira. Ao chegar à oficina, ao lado da residência da família, encontrou Aristóteles preocupado com a reação do vizinho à suposta quebra das telhas.
Ela questionou como o telhado poderia ter sido danificado se ninguém havia passado por ele. Na sequência, o marido teria chamado Manoel para mostrar as imagens que, segundo ela, comprovariam que não havia danos.

“Meu esposo simplesmente chamou ele e falou assim: ‘Sr. Manuel, vem ver o vídeo que não tem nada quebrado no telhado do senhor’. Ele já saiu lá de dentro atirando. Ele atirou no meu esposo, ele atirou no meu filho”, relatou.
Os disparos ocorreram por volta das 18h07, segundo Karla. Ela afirma que Manoel atirou contra Aristóteles e o filho do casal e que, quando o jovem já estava caído no chão, tentou disparar contra a cabeça dele.
“Quando meu filho estava no chão, ele ia dar um tiro na cabeça do meu filho. Eu agarrei por trás. Se eu não me jogo no chão, ele tinha dado um tiro na minha nuca. Ele pôs o revólver aqui em mim e eu dei um soco na mão dele, foi onde ele conseguiu sair dos meus braços”, contou.
Na tentativa de escapar, Karla caiu e se machucou. Ela afirma que o vizinho também disparou em sua direção e que o projétil passou por cima de sua cabeça. “Eu corri, quando eu corri, eu caí, me ralei. E ele deu o tiro, e o tiro passou por cima da minha cabeça. Ele deu para me matar”, disse.
Durante o episódio, segundo Karla, Manoel teria dito a Aristóteles: “Eu vou mostrar para você como se faz um homem”.
Moradores tentaram ajudar a família – Após os tiros, moradores da rua ajudaram no socorro de Aristóteles e do filho. Karla afirma que o vizinho ainda tentou atirar contra as pessoas que prestavam assistência, mas não conseguiu efetuar novos disparos. Ela acredita que a munição possa ter acabado ou que a arma tenha falhado.
Enquanto Manoel tentava fugir, pessoas que estavam na rua teriam arremessado pedras contra o carro dele.
A localização do suspeito contou com a ajuda de um morador que vive em frente à residência da família. Segundo Karla, o vizinho pegou o celular dela, que estava com um policial também morador da região, e enviou a localização em tempo real para acompanhar o deslocamento do veículo.
O policial fotografou a placa e repassou a informação às demais viaturas. Manoel acabou se envolvendo em um acidente de trânsito durante a fuga, próximo de uma igreja católica, na Avenida Bandeirantes, conforme o relato de Karla.
O registro policial aponta que o suspeito percorreu cerca de 7,5 quilômetros após deixar o local dos disparos e se envolveu em um acidente na Rua Marechal Floriano. Ele foi localizado por uma equipe da Força Tática.
Durante a busca no veículo, os policiais encontraram um revólver Taurus calibre .38 com cinco munições deflagradas. A arma foi apreendida e encaminhada para perícia. Manoel informou que o revólver não era registrado e que o mantinha desde quando morava em uma chácara em Dois Irmãos do Buriti.
O suspeito foi levado à delegacia para formalização do flagrante. A perícia técnica e a autoridade policial estiveram no local, e o caso foi registrado na Depac (Delegacia de Pronto Atendimento Comunitário) Cepol.
"Não tinha por que eles terem essa briga" – A convivência entre Aristóteles e Manoel, segundo Karla, nunca havia sido marcada por desentendimentos. Ela afirma que o vizinho havia se mudado para o imóvel havia aproximadamente três ou quatro meses e que, antes disso, não existiam brigas entre os dois. A manutenção no apartamento, por sua vez, já estava em andamento havia cerca de dois anos.
Além de vizinhos, os dois tinham uma relação comercial: Aristóteles já havia consertado o carro de Manoel. Karla lembra que o suspeito chegou a brincar sobre a possibilidade de trabalhar na oficina quando se mudou para a região.

“Ele ainda fez uma brincadeira quando se mudou para lá. Falou: ‘Olha, eu sou seu novo vizinho, eu também sou um mecânico aposentado. Sr. Ari, quando eu ficar sem dinheiro, você me arruma um serviço também, para mim ganhar dinheiro’. Bem assim. Então não tinha por que eles terem essa briga”, relatou.
Karla afirma que nunca havia presenciado uma reação agressiva semelhante por parte do vizinho e diz desconhecer o que teria motivado os disparos.
Ela conta que a filha de Manoel procurou seu contato quando o pai chegou à vizinhança e pediu que fosse avisada caso houvesse algum problema com ele.
“Ela falou para mim assim: ‘Karla, algum problema que meu pai te der, me liga’. Ela só falou isso. ‘Porque meu pai é uma pessoa extremamente ignorante, antissocial, ele é acostumado a morar no meio do mato’”, contou.
Segundo Karla, a mulher também teria dito que o pai era de Dois Irmãos do Buriti e não sabia como viver em sociedade. A mulher ressalta, porém, que nunca havia enfrentado uma situação como a de terça-feira.
Estado de saúde e dor – O disparo que atingiu o filho do casal acertou o abdômen, pelas costas, na região do estômago, segundo Karla. O jovem precisou passar por cirurgia e permanece internado em estado grave no CTI da Santa Casa.
É no hospital que ela enfrenta agora a expectativa pela recuperação do filho e a dor de saber que ele ainda não tem conhecimento da morte do pai. “Eu estou aqui no hospital, vim ver meu filho. Meu filho nem sabe que o pai faleceu. Ele está em coma em um CTI”, relatou.
Karla rejeita a possibilidade de Manoel alegar legítima defesa. Para ela, a quantidade de disparos e o fato de Aristóteles ter sido atingido na cabeça contradizem essa versão.
“Eu achei uma covardia o que ele fez. Eu acho mais do que merecido ele pagar, não ele alegar que foi uma legítima defesa, porque eu acho que cinco tiros não é uma legítima defesa. Ele atirou para matar mesmo, ele atirou na cabeça do meu marido”, afirmou.
Ao falar sobre Aristóteles, Karla o descreve como um trabalhador dedicado, pai presente e homem comprometido com a família. Ela pede que o caso seja esclarecido e que o marido não, seja responsabilizado por acusações que considera falsas.
“Eu quero que a justiça seja feita, que a justiça seja feita e que meu marido não fique impune nessa, porque ele é um trabalhador, um pai de família, um pai excelente, um pai super-herói, um pai dedicado à família mil por cento, nem a cem por cento. E ele acabou com a vida da minha família, ele destruiu, arruinou a minha família”, declarou.
Antes de encerrar o relato, Karla voltou a negar qualquer histórico de brigas entre o marido e o vizinho. Ela diz não compreender o que motivou o ataque e afirma que sua única expectativa agora é que o suspeito responda pelo crime.
“Eu quero falar a verdade. Não teve brigas, não teve discussões antes, não teve nada. Eu não sei qual foi o ódio que ele teve, eu não sei, e também não quero saber. A única coisa que eu quero saber é que ele pague pelo erro que ele fez, pelo crime que ele cometeu, porque ele assassinou meu marido”, concluiu.

