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sábado, 24 de outubro de 2026

Na reta final da eleição, ansiedade vai além da disputa pelo voto

Expectativa pelo resultado pode provocar estresse, prejudicar sono e alimentar a busca incessante por notícias

Acompanhar pesquisas eleitorais, conferir notícias em tempo real e discutir possíveis resultados fazem parte da rotina de quem aguarda a definição das eleições. A expectativa pode ultrapassar o interesse político e afetar o sono, a concentração e as relações pessoais, especialmente em um cenário de polarização.

Em Campo Grande, moradores ouvidos pelo Campo Grande News relatam diferentes formas de acompanhar a disputa. O comerciante Celso Henrique, de 54 anos, diz que espera o fim da polarização política no país. Ele acompanha as notícias pela internet e por veículos de comunicação, mas afirma que não sente muita ansiedade com a proximidade do resultado.

“O Brasil não pode ser esse racha, esquerda, direita. Eu acho que tem que ser um povo”, afirma Celso. Para ele, o debate político deveria priorizar propostas, em vez de ataques entre adversários.

Na reta final da eleição, ansiedade vai além da disputa pelo voto
Celso Henrique espera o fim da polarização política no país após as eleições de 2026. (. Foto: Luiz Donizete)

O professor Jeferson Camargo Taborda, da Faculdade de Ciências Humanas da UFMS, explica que a expectativa eleitoral está ligada à incerteza sobre o futuro e ao medo de situações que fogem ao controle individual. “A expectativa pode ser definida como uma incerteza em relação ao futuro, e por isso tem relação direta com o medo”, afirma.

Segundo o professor, a falta de controle sobre acontecimentos considerados importantes pode provocar ansiedade, frustração e sensação de impotência. A forma de reagir, porém, varia de pessoa para pessoa e depende do histórico de cada uma ao lidar com situações de estresse.

Os efeitos do estresse em períodos eleitorais também podem afetar a saúde cardiovascular. Um estudo publicado em 2022 na revista científica JAMA Network Open, que analisou dados de 6.396.830 adultos vinculados a dois sistemas de saúde da Califórnia, nos Estados Unidos, identificou aumento de 17% nas hospitalizações por doenças cardiovasculares agudas nos cinco dias após a eleição presidencial de 2020, em comparação com o mesmo período duas semanas antes. Nos casos de infarto agudo do miocárdio, a alta foi de 42%.

Outra pesquisa, publicada em 2021 no Journal of the American Heart Association, identificou aumento de 77% na incidência de arritmias durante um período de seis semanas que incluiu a eleição presidencial norte-americana de 2016.

Para Taborda, os sinais iniciais de que a preocupação começa a interferir na rotina podem aparecer no comportamento cotidiano. “Alguns sinais podem ser o uso excessivo de redes sociais, não conseguir concluir tarefas comuns, desatenção e esquecimento com maior frequência”, explica.

Excesso de informação – A psicóloga Vitória Regina também chama a atenção para a busca repetitiva por informações. Segundo ela, acompanhar notícias, pesquisas e análises pode ser uma tentativa de reduzir a incerteza e recuperar a sensação de previsibilidade diante de um resultado que não depende da ação individual.

“Buscar informações pode funcionar como uma estratégia de regulação emocional: ao consultar notícias, pesquisas e análises, a pessoa tenta organizar o que está acontecendo e construir alguma compreensão sobre o que poderá vir a seguir ”, afirma.

O problema, segundo a psicóloga, aparece quando a consulta se torna repetitiva. A pessoa verifica as atualizações, sente um alívio momentâneo e, pouco depois, volta a procurar novas informações. “A consulta produz um alívio momentâneo, mas esse alívio não necessariamente se mantém; logo surge a necessidade de verificar novas informações”, explica.

As redes sociais podem intensificar esse ciclo ao oferecer atualizações contínuas e recomendar conteúdos que mantêm o usuário conectado. Com isso, acompanhar a eleição pode ocupar momentos de descanso e dificultar a concentração em outras atividades.

Na reta final da eleição, ansiedade vai além da disputa pelo voto
Luiz Martins utiliza a internet para conhecer as propostas dos candidatos. (. Foto: Judson Marinho)

O aposentado Luiz Martins, de 74 anos, conta que acompanha as eleições com frequência pela internet. Para ele, conhecer os candidatos e suas trajetórias é essencial antes de votar. “Você tem que conhecer os candidatos, saber qual o trabalho deles, o que fizeram pelo país, para você chegar lá e dar o seu voto”, afirma.

Já a vendedora Vanessa Teixeira, de 38 anos, acompanha a disputa pelas redes sociais e considera que o resultado terá impacto direto na vida da população. “É o voto que vai ajudar a decidir nossa vida”, diz.

Para Vitória, o desafio é encontrar uma forma de acompanhar os acontecimentos sem permitir que a busca por atualizações ocupe toda a rotina. “Estar continuamente exposto a informações não significa, necessariamente, conseguir compreendê-las ou atribuir sentido a elas”, afirma.

Taborda também recomenda atenção à confiabilidade das informações, especialmente diante da circulação de conteúdos falsos e de imagens e vídeos produzidos com inteligência artificial. A orientação é verificar a origem das publicações e buscar fontes confiáveis antes de compartilhar notícias.

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