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terça-feira, 27 de outubro de 2026

Mostra 2016: ‘Amor Possível’ e o mistério de ‘Borges’

Mostra 2016: 'Amor Possível' e o mistério de 'Borges'

O título sugere um filme romântico. Bem, pode mesmo haver algum tipo de envolvimento sentimental em Amor Possível, de Lee Chang-dong. Mas este é, digamos, pouco romântico, no sentido tradicional do termo. Prevalece a política. E, pasmem, destaca-se a antiga luta de classes, que muitos "liberais" já deram como morta.

A história é a de dois casais que se aproximam por causa de uma filmagem. Mi-ok vive com o marido desempregado, Ho-seok, e um filho pequeno, Cheol. Por acaso, Mi-ok conhece Ye-Ji, uma documentarista que deseja fazer um filme com desempregados. Que, aliás, existem aos montes num país em que as empresas se "reestruturam", ou seja, despedem o maior número possível de funcionários para aumentar a lucratividade. É bem o caso da família de Mi-ok, cujo marido está sem emprego, depois de uma greve na qual era um dos líderes.

O filme é delicado, sutil. Cheio de "camadas", com se diz. Há, pelo menos, duas delas. Ou três ou quatro, se observarmos bem. A questão político-econômica do desemprego forçado em nome da lucratividade. A do desejo, que se instala entre dois personagens. A da assimetria dos relacionamentos quando as classes sociais são muito distantes. Por fim, uma nota reflexiva sobre o próprio cinema, que contamina o conjunto: como o fato de estar sendo filmado altera a subjetividade de um dos personagens ou do grupo inteiro. Às vezes, ligar uma câmera pode ser como apontar uma arma para alguém.

Com essa composição múltipla de fatores e rigor de mise-en-scène, Amor Possível é, desde já, um dos melhores títulos desta 50ª Mostra, perfilando ao lado de obras como Minotauro, A Mulher Desconhecida e A Terra do meu Pai. Como os outros, tem rodagem internacional, tendo recebido o Grande Prêmio do Júri no Festival de Veneza deste ano. Ainda é possível vê-lo.

29/10

19:15

CINESESC

classificação indicativa

16 anos

Biografia de Jorge Luis Borges

Nada convencional é esta biopic do grande escritor argentino, dirigida por Mariano Llinás. A começar pela duração de cinco horas e quarenta minutos. Mas também pelo tom empregado, com o diretor e um "auxiliar", o especialista em Borges, Ernesto Montequin, formando um par de investigadores. A dupla assume ares de Sherlock Holmes e seu auxiliar Watson para se imiscuir nos mistérios dessa vida de literato.

O próprio Borges dizia, se não me engano, que sua vida era singularmente desprovida de notáveis fatos exteriores. Ele não participou de uma guerra, não foi um ativista político, um aventureiro ou um don juan. Foi um escritor, que fez sua vida entre livros e amizades de mesmo ofício, que se encontravam nos fabulosos cafés de Buenos Aires. Há reminiscências desses cafés que conservam algum encanto de outrora, ainda que infestados de turistas com seus celulares que tudo registram.

No entanto, é dessa vida singularmente monótona de fatos externos, que Llinás e Montequin buscam extrair os mistérios que as biografias convencionais de Borges deixam escapar.

De fato, há mistérios insondável no homem e ele pouco se dispôs a revelá-los. Faziam parte do personagem. Poeta inspirado, escritor de contos que se parecem a ensaios e ensaios que parecem contos de ficção, Borges nunca escreveu um romance, uma narrativa longa. Mas, talvez, sugerem Montequin e Linás, essa narrativa esteja num filme que sequer foi dirigido por ele.

A dupla avança passo a passo, adentrando o labirinto de documentos deixados pelo autor, revisitando sua obra e esmiuçando papeis dos que com ele conviveram. Inclusive um diário deixado por sua esposa, Elsa. Foi um casamento fracassado, ao que parece arquitetado por Leonor, mãe de Borges. "Cometi o maior dos pecados: não fui feliz", dizia Borges a respeito dessa relação. Houve outras, muitas outras, não se sabe se consumadas ou não. Entre os papeis, destaca-se o diário deixado por Bioy-Casares, amigo de toda a vida de Borges e parceiro em obras comuns.

A dupla de investigadores examina também outras relações de Borges, como Estela Canto, talvez a mais conhecida entre tantas, e que deixou um livro a respeito, Borges na Contraluz.

Enfim, o homem é mesmo um mistério. Mas nesse documentário ele é esmiuçado a tal ponto que o personagem apenas se engrandece e se torna ainda mais fascinante. Claro que o filme se torna transparente em particular para os leitores aficionados de Borges, essa obra que é um mundo em si mesma.

28/10

15:00

RESERVA CULTURAL – SALA 2

classificação indicativa

14 anos

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