A marca da meia no tornozelo, os pés inchados após um dia de trabalho ou o rosto mais cheio ao acordar. São sinais que muita gente conhece, mas nem sempre sabe explicar. A retenção de líquidos pode ser passageira, resultado de hábitos cotidianos, ou indicar problemas de saúde que exigem atenção.
Para Maria Cláudia Benitez Valdez, de 38 anos, o cuidado começa antes mesmo de beber água. Com doença renal crônica, ela precisa controlar cada gole para evitar o acúmulo de líquidos no organismo. Quando a sede aperta, recorre a cubos de gelo, água com limão ou pequenos goles de água com gás.
“Quando estamos com muita sede, não bebemos um 'golão' de água igual a todo mundo. Primeiro, eu pego um cubo de gelo, passo na boca, depois bebo um pouco de água. Ou tomo água com gás”, conta.
Moradora de Campo Grande, Maria Cláudia sente o inchaço principalmente ao redor dos olhos. O desconforto diminui após as sessões de hemodiálise, realizadas três vezes por semana. Ela tem rins policísticos, condição genética que também afeta outros familiares, e se prepara para entrar na fila de transplante.


Mas nem todo inchaço está relacionado a uma doença renal. A nutricionista Júlia Melo explica que alimentação, sedentarismo, alterações hormonais e alguns medicamentos também podem favorecer a retenção de líquidos. A frequência e a intensidade dos sintomas ajudam a identificar quando é necessário procurar avaliação médica.
Bem hidratado ou não – Júlia explica que a retenção de líquido acontece quando o corpo acumula água em excesso entre as células, provocando inchaço. A condição pode ocorrer tanto em pessoas com doenças associadas, como Maria, quanto em pessoas saudáveis, inclusive aquelas que praticam atividades físicas e desidratam com frequência.

Hábitos alimentares, sedentarismo e uso de alguns medicamentos justificam geralmente a retenção em pessoas sem comorbidades. Ela costuma ser reversível e, quando não é, indica algum problema de saúde que precisa ser investigado.
Alimentos – Ao contrário do que se costuma ouvir, Júlia esclarece que leite e pão não causam, por si só, inflamação ou retenção de líquido.
“Ninguém inflama porque comeu algo com lactose ou glúten, a inflamação é um processo muito complexo e que demanda uma grande resposta fisiológica, por isso, nenhum alimento isolado causa o problema”, detalha.
Alimentos com alto teor de sódio, açúcar e gorduras saturadas, principalmente os ultraprocessados, podem favorecer a retenção de líquido, especialmente quando associados a uma alimentação inadequada, pouca ingestão de água e sedentarismo.
"O ideal é manter uma boa hidratação por dia, consumir alimentos in natura ou minimamente processados, como frutas, legumes, cereais integrais, ter uma boa prática esportiva, especialmente atividades cardiovasculares, como caminhadas. O cuidado na hora de temperar a comida também merece atenção: quanto menos sal, melhor. Temperos prontos devem ser evitados", orienta a nutricionista.
Quando é normal? – Chegar em casa e sentir as pernas inchadas, perceber marcas bem visíveis da calça jeans ou do elástico das meias, além de abdômen estufado, podem ser sinais de retenção de líquido. Ela pode durar algumas horas ou se prolongar por dias, causando desconforto e revelando problemas de saúde mais sérios.
É considerada normal, segundo a nutricionista, quando é reversível. “Ou seja, quando algum sinal de desidratação é observado, mas foi revertido pela volta da hidratação ou redução daquele fator causal. Pés inchados após tirar os sapatos e não conseguir realizar atividade física frequentemente são sinais de alerta”, fala.
Reter líquido no período próximo ao início do ciclo menstrual também é normal. "A oscilação hormonal dá essa pré-disposição", afirma.

No caso de pacientes que praticam atividades como a corrida ou ciclismo, ela observa retenção também. "Pela diferença de fluxo sanguíneo nas pernas ou pela falta da hidratação pré, durante e após. São fatores que geram sinais importantes de retenção mesmo após minutos de finalização do treino", descreve.
Substitutos da água – Júlia finaliza defendendo a água como "padrão ouro" para hidratação. Não há necessidade de substituí-la por outras bebidas, exceto em alguns casos.
"É apenas com água, sem a substituição dela por água de coco, refrigerantes, sucos. A água é padrão ouro! Em situações específicas de exercício físico, o uso de isotônicos e repositores deve ocorrer conforme o tempo e a intensidade", conclui.

