Normalmente, procuramos esconder nossas dores e feridas da alma. Não gostamos que os outros percebam nossas fraquezas, conheçam nossas angústias ou descubram os lugares em que estamos quebrados. Afinal, o que pensarão? O que dirão?
Davi conheceu o momento em que aquilo que se passa dentro de nós deixa de ser secreto. Sua angústia tornou-se visível, sua fragilidade ficou exposta — e muitos dos que o viram não tiveram compaixão. Balançaram a cabeça. Um gesto de desprezo.
Mas aquilo não começou com o olhar. Começou com palavras. Davi havia sido difamado, acusado e hostilizado. “Em paga do meu amor, me hostilizam” (v. 4). Essas palavras não ficaram do lado de fora — atravessaram suas defesas e chegaram ao lugar mais profundo: “Meu coração está ferido dentro de mim” (v. 22).
E o que fere o coração não permanece escondido por muito tempo. A dor interior transbordou para o corpo: os joelhos vacilavam, a carne emagrecera, a força se desfazia. O que começara como palavra terminou visível a olho nu.
Então sua fraqueza tornou-se pública.
Mas, nesse momento, o Salmo muda de direção: “Mas tu, SENHOR Deus, age por mim” (v. 21). Os homens agiam contra Davi; Deus agia por ele.
E o Salmo encontra sua expressão mais profunda na cruz.
Diante de Jesus crucificado, os que passavam também balançavam a cabeça e o cobriam de zombaria (Mt 27:39) — o mesmo gesto, a mesma sentença que Davi já conhecera. Eles olhavam para sua humilhação e liam ali uma derrota encerrada. Viram a cruz, mas não viram a ressurreição. Viram a morte, mas não perceberam que, por meio daquela morte, Cristo vencia a morte.
O olhar que zomba enxerga o que está diante dos olhos; não enxerga o que Deus está fazendo por trás dele.
Há momentos em que o sofrimento não apenas dói; ele também nos expõe ao olhar dos outros. Davi conheceu isso. Jesus conheceu isso de maneira infinitamente maior. E, quando nossa dor também se torna visível, não precisamos permitir que o olhar alheio determine o significado daquilo que estamos vivendo.
Davi terminou dizendo: “Com a minha boca darei muitas graças ao SENHOR” (v. 30). Aquele que fora alvo de acusações encontrou uma razão para louvar.
Porque os homens podem olhar para a nossa fraqueza e concluir derrota. Deus, porém, ainda está agindo.
A cruz nos ensina que o olhar humano pode contemplar uma realidade verdadeira e, ainda assim, interpretá-la completamente errado. Mas a ressurreição nos mostra aquilo que a cruz, aos olhos dos homens, escondia: Deus estava agindo.

