Dor no peito, tontura, palpitações e falta de ar fora do comum durante uma corrida podem indicar problemas cardíacos e exigem atenção imediata. Com o crescimento das corridas de rua no Brasil e a aproximação da São Silvestre, marcada para 31 de dezembro, especialistas alertam para os riscos de ignorar esses sintomas durante treinos e competições.
Embora a prática regular de exercícios contribua para a saúde cardiovascular, o esforço físico intenso pode revelar problemas até então desconhecidos. Em situações mais graves, o corredor pode sofrer uma parada cardíaca, emergência em que o atendimento nos primeiros minutos é decisivo para a sobrevivência.
O alerta ocorre em meio à expansão das corridas de rua no País. Segundo levantamento da Abraceo (Associação Brasileira de Organizadores de Corridas de Rua e Esportes Outdoor), o número de provas oficiais cresceu 85% em 2025, passando de 2.827 para 5.241 eventos. A estimativa é de que 15 milhões de brasileiros pratiquem a modalidade.
A São Silvestre, uma das principais competições do calendário nacional, registrou 55 mil inscritos em 2025. A prova tem percurso de 15 quilômetros e reúne atletas profissionais e amadores em São Paulo.
Apesar de raras, as paradas cardíacas durante corridas de longa distância representam um risco que não pode ser ignorado. Estudo publicado em 2025 na revista científica JAMA analisou aproximadamente 29,3 milhões de participações em maratonas e meias-maratonas nos Estados Unidos, entre 2010 e 2023.
Nesse período, foram registradas 176 paradas cardíacas, com 59 mortes. A proporção equivale a aproximadamente uma ocorrência a cada 167 mil participações. Os episódios foram mais frequentes entre homens e participantes de maratonas, em comparação com as meias-maratonas.
Entre os casos com causa identificada, a doença arterial coronariana, caracterizada pelo comprometimento das artérias que levam sangue ao coração, foi a mais comum.
O levantamento também identificou uma redução na proporção de mortes entre as vítimas. O índice passou de 71%, no período de 2000 a 2009, para 34% entre 2010 e 2023. O resultado reforça a importância do reconhecimento rápido da parada cardíaca e das medidas de ressuscitação.
Sinais de alerta – Segundo Denis Corrêa, instrutor da CoreHelp, instituição especializada em treinamentos para situações de emergência , é importante distinguir o cansaço provocado pelo exercício de manifestações que podem indicar problemas de saúde.
Durante a atividade física, o aumento dos batimentos cardíacos e da frequência respiratória é esperado. A preocupação começa quando surgem sintomas incomuns, como pressão no peito, falta de ar intensa, tontura, sensação de desmaio ou palpitações acompanhadas de mal-estar.
"Esses sintomas podem estar relacionados a arritmias, alterações na circulação sanguínea ou outras condições cardiovasculares. Nem todo mal súbito, porém, é provocado por problemas cardíacos. Desidratação, exaustão pelo calor e alterações nos níveis de glicose também podem causar episódios de fraqueza, tontura e perda de consciência", explica.
A recomendação é interromper o exercício assim que surgirem sinais preocupantes. Dor no peito, desmaio e dificuldade intensa para respirar exigem atendimento de urgência. Mesmo quando os sintomas desaparecem, o corredor não deve retomar a atividade antes de passar por avaliação médica.

Primeiros socorros – Quando uma pessoa desmaia durante uma corrida, a rapidez no atendimento pode determinar suas chances de sobrevivência. O primeiro passo é verificar se ela responde aos chamados e apresenta respiração normal.
Caso esteja inconsciente e não respire normalmente, é necessário acionar o Samu (Serviço de Atendimento Móvel de Urgência), pelo telefone 192, e iniciar imediatamente as manobras de ressuscitação cardiopulmonar.
As compressões devem ser realizadas no centro do peito, em ritmo de 100 a 120 por minuto, até a chegada do socorro ou conforme orientação da equipe de emergência. Se houver um DEA (Desfibrilador Externo Automático) disponível, o equipamento deve ser utilizado o mais rápido possível, seguindo suas instruções.
De acordo com a AHA (Associação Americana do Coração), a ressuscitação iniciada imediatamente por pessoas que presenciam uma parada cardíaca pode dobrar ou até triplicar as chances de sobrevivência.
Para Denis, a preparação das equipes responsáveis pelas competições é tão importante quanto o condicionamento dos participantes. A presença de profissionais capacitados, equipamentos de emergência e pessoas treinadas em primeiros socorros permite uma resposta mais rápida diante de situações graves.
Prevenção – Além de reconhecer os sintomas, corredores devem aumentar gradualmente a intensidade dos treinos, respeitar os períodos de descanso e manter a hidratação adequada.
Pessoas que apresentam sintomas durante o esforço, têm doenças cardíacas conhecidas ou histórico familiar de morte súbita precisam de avaliação médica individualizada antes de intensificar a prática esportiva.
O instrutor lembra que as emergências não estão restritas às competições. "Uma parada cardíaca pode acontecer tanto durante uma competição esportiva quanto em uma caminhada no parque ou em outras situações do cotidiano", afirma.
A orientação para quem participa de corridas de rua é respeitar os limites do corpo. Insistir no exercício diante de sinais de alerta pode transformar uma atividade benéfica à saúde em uma situação de risco.

