O golpe do falso advogado deixou de depender apenas de uma mensagem suspeita ou de um número desconhecido. Com acesso a informações verdadeiras de processos, nomes, fotografias e até recursos capazes de reproduzir a voz de profissionais, os golpes estão cada vez mais ‘convincentes’ e vem ocorrendo em todo o Brasil.
Somente neste ano, Dourados já registrou 1.031 ocorrências de estelionato, segundo dados do painel estatístico da Secretaria de Estado de Justiça e Segurança Pública de Mato Grosso do Sul (Sejusp), consultado pela reportagem.
O número, porém, reúne diferentes modalidades de fraude e não permite identificar quantos desses registros estão relacionados especificamente ao golpe do falso advogado.
Ainda assim, o dado ajuda a dimensionar o ambiente em que esse tipo de crime ocorre e reforça a dimensão do problema enfrentado pelas vítimas.

Em Dourados, a advogada Andreza Miranda também foi alvo do golpe. Criminosos utilizaram seu nome e sua identidade profissional para abordar uma de suas clientes em um caso recente.
Centenas de outros advogados do município também já relataram ser vítimas no uso de dados.
O episódio, somado a outros relatos acompanhados pela profissional, revela como a estratégia dos criminosos pode atingir pessoas em situações distintas e provocar prejuízos que vão de alguns milhares de reais a mais de R$ 100 mil.
“Em comum, estão a sensação de urgência, a expectativa de receber um valor e a falsa impressão de que a comunicação realmente partiu do advogado responsável pelo processo. Muitas vítimas relatam que já conheciam o golpe do falso advogado e, mesmo assim, naquele momento não perceberam os sinais”, afirmou Andreza ao Dourados News.
Segundo a advogada, os criminosos conseguem construir uma situação suficientemente plausível para fazer com que a vítima deixe de lado cuidados que normalmente adotaria.
“Eles criam uma situação convincente, usam informações verdadeiras do processo, geram urgência e mantêm a vítima sob pressão. Com isso, ela pode agir no automático e só perceber o que aconteceu depois”, explica.
“Mais do que falsificar uma identidade, o golpe do falso advogado explora uma relação de confiança construída ao longo de um processo judicial. A vítima acredita estar conversando com alguém que conhece sua história, sabe detalhes da ação e está justamente trabalhando para defender seus interesses”, afirmou Andreza.
R$ 20 mil enviados mesmo depois do processo encerrado
Em um dos casos relatados pela advogada, um cliente havia ingressado com uma ação relacionada a um acidente de trânsito, buscando que a seguradora cobrisse os danos.
A demanda já havia sido resolvida. A seguradora tinha feito o pagamento dos danos e dos honorários. Mesmo assim, o cliente recebeu uma nova abordagem.
A mensagem criou a impressão de que havia ocorrido algum problema com a cobertura securitária. Convencido de que precisava resolver a situação, ele realizou um Pix correspondente ao valor do dano do veículo.
O prejuízo chegou a R$ 20 mil.
Para Andreza, casos como esse ajudam a explicar por que o golpe consegue funcionar mesmo quando a vítima tem conhecimento prévio sobre esse tipo de crime.
A pessoa não necessariamente acredita em uma história absurda. Ela pode ser levada a acreditar que existe um problema específico no processo que já conhece.
O maior prejuízo: R$ 110 mil
O caso de maior prejuízo relatado pela advogada envolve um aposentado que discutia judicialmente uma diferença tributária.
Segundo Andreza, a vítima não tinha expectativa de receber dinheiro naquele momento. Ainda assim, recebeu a informação de que teria valores a receber.
A partir daí, o criminoso passou a orientar transferências. A vítima chegou inclusive a procurar presencialmente o banco durante a movimentação.
No total, o prejuízo chegou a R$ 110 mil.
A cifra ajuda a dimensionar o potencial do golpe, mas também chama atenção para um mecanismo psicológico recorrente: a vítima acredita estar diante de uma oportunidade de receber um valor que considera legítimo, e não diante de uma tentativa de roubo.
A voz também virou ferramenta do golpe
Se antes uma das principais recomendações era desconfiar de mensagens escritas por números desconhecidos, agora a própria voz pode ser utilizada para aumentar a sensação de autenticidade.
Andreza relata que outros clientes já receberam áudios e mensagens atribuídos supostamente ao advogado. Um detalhe, porém, costuma aparecer: o contato parte de um número diferente daquele utilizado anteriormente pelo profissional.
O problema é que, no momento da abordagem, muitas vítimas não interrompem a conversa para confirmar a informação diretamente com o advogado.
A constatação costuma vir depois.
“Pós-ocorrido, sempre relatam que já sabiam da existência de golpe, só que na hora ficam empolgados em receber e não percebem o ocorrido”, conta a advogada.
"É justamente nessa combinação que o golpe encontra espaço: informação verdadeira, expectativa de dinheiro e pressão para tomar uma decisão rapidamente", explicou Andreza.

Arte/Dourados News
O processo é verdadeiro. A conversa, não
Uma das características que tornam o falso advogado particularmente perigoso é que o criminoso pode apresentar informações que realmente existem.
Nome das partes, número do processo, tipo da ação e outras informações podem ser utilizados para dar aparência de legitimidade à abordagem.
Isso cria uma situação diferente daquela em que a vítima recebe uma mensagem genérica dizendo que ganhou um processo do qual nunca ouviu falar.
No golpe mais sofisticado, o criminoso pode falar justamente sobre o processo que a pessoa acompanha há meses ou anos.
A partir daí, uma informação verdadeira é utilizada para sustentar uma conclusão falsa: a de que determinado pagamento precisa ser realizado, uma taxa precisa ser quitada ou um valor está disponível para saque.
O que fazer diante de uma mensagem suspeita?
A advogada Andreza Miranda orienta as pessoas a desconfiarem principalmente de contatos novos, mesmo quando utilizam o nome e a fotografia do advogado.
"Uma das medidas mais importantes é voltar à conversa antiga e procurar o profissional pelo número que já era utilizado anteriormente.Também é fundamental não considerar foto, nome ou voz como prova de identidade. Esses elementos podem ser copiados ou manipulados", explicou.
Ainda conforme as orientações, antes de qualquer Pix ou transferência, o cliente deve confirmar diretamente com o advogado ou escritório e conferir o nome do titular da chave antes de concluir a operação.
Outro cuidado essencial é nunca compartilhar a tela do celular enquanto estiver acessando aplicativo bancário.
Senhas, códigos recebidos por SMS e códigos de autenticação também não devem ser informados a terceiros.
Mensagens como “você ganhou o processo”, “o dinheiro foi liberado” ou “é preciso pagar uma taxa para receber” devem ser confirmadas diretamente com o advogado, utilizando um canal de comunicação que já era conhecido antes da abordagem.

