Por Robson Júnior
Um homem desperta de um coma em uma nave espacial, acompanhado pelos corpos de seus companheiros e sem qualquer lembrança do que ocorreu ou de como foi parar ali. Trata-se do professor de ciências Ryland Grace (Ryan Gosling), que, à medida que sua mente se reorganiza, passa a reconstruir, pouco a pouco, o propósito de sua missão: resolver o enigma da misteriosa substância que está causando o desaparecimento do Sol, ao mesmo tempo em que percebe que talvez não esteja tão sozinho quanto imaginava.
Produzido pela dupla de cineastas Phil Lord e Christopher Miller, conhecidos pelo sucesso de filmes como Tá Chovendo Hambúrguer (2009), Anjos da Lei (2012) e Homem-Aranha: No Aranhaverso (2018), o longa aposta no live-action do best-seller Project Hail Mary (2021), que figurou as listas de mais vendidos do The New York Times, Los Angeles Times e The Wall Street Journal. Mas, funciona?
Não é novidade que Ryan Gosling, de Barbie (2023), Drive (2011) e o premiado La La Land (2016), esbanja carisma e tem facilidade em inserir humor quando a cena pede. Em Blade Runner 2049 (2017), no entanto, já havia demonstrado um lado mais contido e dramático que nem sempre é plenamente explorado. No longa em questão, traduzido para O Devorador de Estrelas (2026), o ator transita entre esses dois registros: assume o tom leve em diversos momentos, sendo responsável por boa parte das risadas, mas também sustenta cenas de tensão, angústia e tristeza. É justamente nesse equilíbrio que o filme consegue envolver quem assiste, alternando sensações e criando momentos que realmente emocionam. Mais do que humor ou drama, a narrativa se aproxima de uma representação da vida como ela é.
Embora o personagem seja inseguro, solitário e, muitas vezes, pareça desanimado com o rumo que sua vida toma, há um contraste evidente em sua postura: ele também se mostra esperançoso, determinado e, acima de tudo, empático. Grace não é obrigado a se sacrificar, nem deveria carregar sozinho a responsabilidade pela salvação da humanidade, já que não possui filhos, esposa ou vínculos que pesem diretamente em suas decisões. Ainda assim, escolhe lutar por pessoas que não conhece, transformando essa decisão em um dos aspectos mais humanos do filme.

Pensando nos aspectos estéticos do filme, a obra custou 200 milhões de dólares para ser produzida. Lord e Miller construíram toda a espaçonave Hail Mary como um cenário funcional. Com centenas de botões físicos, telas reais e, até mesmo, uma escotilha modelada a partir dos projetos da Estação Espacial Internacional (ISS). Ao contrário de Avatar: Fogo e Cinzas (2025), que aposta massivamente em ambientes digitais para criar um mundo verossímil, o longa de O Devorador de Estrelas (2026) prioriza a materialidade dos cenários, utilizando efeitos visuais principalmente para ajustes pontuais, como esconder fios, remover manipuladores e complementar elementos. Trata-se de uma escolha que vai na contramão das grandes produções recentes de Hollywood.
São milhões de dólares que vão contra a lógica de produção de Hollywood dos últimos 15 anos. A obra não contém telas verdes. Greig Fraser, diretor de fotografia de Duna (2021), iluminou algumas cenas do filme com luzes práticas, para que a câmera pudesse se mover livremente pelos corredores reais. As cenas de flutuação foram feitas com cabos, sem simulação alguma. Até mesmo a interação com os painéis ocorre de forma concreta, em cenários físicos. A movimentação de câmera acompanha essa proposta: em vez de buscar estabilidade artificial, assume oscilações e rotações que aproximam o espectador da experiência do próprio personagem, provocando, em certos momentos, uma sensação de desorientação. Em outras palavras, é uma experiência transcendental! A beleza do filme hipnotiza, proporcionando uma das melhores experiências visuais dos últimos anos.
Não é possível falar sobre a obra sem mencionar a trilha sonora. Semelhantemente a Interestelar (2014), em que a música funciona como um elemento narrativo, focado em transmitir a imensidão do espaço, a trilha de Daniel Pemberton assume papel fundamental na construção da atmosfera. Caracterizada por texturas orgânicas, ela incorpora palmas e batidas percussivas, instrumentos de vidro, tambores de aço e vozes humanas manipuladas, em coro.
Da mesma forma, canções como Wind Of Change, da banda Scorpions, Two of Us, de The Beatles, Gracias A La Vida, de Mercedes Sosa, e Sign of the Times, de Harry Styles, se fazem presentes em momentos que, como em Guardiões da Galáxia (2014) e A Vida Secreta de Walter Mitty (2013) funcionam como complemento narrativo, criando associações tão fortes que o espectador passa a não dissociar determinadas cenas de suas respectivas músicas, reforçando o impacto emocional e contribuindo para que a experiência do filme permaneça mesmo após o término.

Em suma, em um mundo cada vez mais dividido e diante da possibilidade de conflitos em escala global, O Devorador de Estrelas (2026) surge como uma obra que resgata a ideia de coletividade. Ao fazê-lo, o filme propõe uma reflexão sobre o que nos torna humanos. Nesse sentido, mais do que funcionar, a obra demonstra que ainda há espaço, no cinema e fora dele, para narrativas que apostam na esperança e no amor pelo próximo.
Para quem quiser conferir essa experiência nas telonas, O Devorador de Estrelas (2026) está em cartaz nos cinemas de todo o Brasil.

