A LaLiga alterou para a temporada 2026/2027 o limite de gastos de cada clube. Na primeira divisão, as equipes poderão gastar em média 15% a mais do que na temporada passada, enquanto na segunda divisão esse teto subiu em 25%.
Os custos incluídos nessa métrica são salários e encargos sociais, pagamentos variáveis a atletas e comissão técnica, e custos relacionados a transações de atletas, como comissões de intermediários e a amortização de investimentos.
A liga espanhola organizou na quinta-feira (10) um encontro com jornalistas especializados em negócios do mundo inteiro — o Sport Insider participou como representante do Brasil. Javier Tebas, presidente da LaLiga, e Javier Gómez, diretor-geral corporativo, apresentaram os dados e responderam perguntas.
Os dirigentes defenderam o modelo espanhol — com limites de gastos variáveis de acordo com a realidade financeira de cada clube — que variam de 62% a 73% da receita —, em vez de um teto fixo, como faz a Premier League na Inglaterra.
Recentemente, a Premier League fixou em 85% da receita o custo com salários e aquisições de direitos de atletas. Tebas e Gómez dizem que esse percentual é inadequado para estimular a responsabilidade financeira, pois 15% são pouco para arcar com todos os outros custos: estrutura, funcionários, estádio, juros.
Além disso, na visão dos espanhóis, como a Inglaterra libera gastos maiores para quem tem lucro com transferências de atletas, existe um incentivo para que os clubes ingleses conduzam negociações por valores crescentes; ou seja, inflação.
O sistema espanhol
No encontro, a LaLiga apresentou os tetos de gastos individuais de todos os 40 clubes da primeira e da segunda divisões. Por causa da disparidade nas receitas, há desigualdade nos gastos: a diferença entre maior e menor na elite é de 41 vezes.
O Limite de Custo de Plantel Esportivo (LCPD, na sigla em espanhol) mostra que o Real Madrid tem o maior teto de gastos com o elenco, em 833 milhões de euros. O Barcelona vem em segundo lugar, com 583 milhões de euros, com aumento em relação aos 432 milhões da temporada passada. O Atlético de Madrid é o terceiro.
A disparidade entre receitas e custos é o que torna o campeonato nacional mais previsível, com a dupla de gigantes ameaçada, quando muito, pelo Atlético.
“Cada um gasta o que pode. A diferença entre alguns times e o resto me preocupa? Sim. Mas eu venho dizendo isso há um tempo: o novo formato das competições europeias canibaliza os direitos audiovisuais. A Champions League teve aumento de receita audiovisual. Se isso já preocupa você, imagine os suíços”, justificou Tebas.
“Quem disputa a Champions fatura 35 e quem não disputa fatura 5. Ou os belgas, ou outros. Está se criando um futebol de duas velocidades: quem disputa competição europeia e quem não disputa”, complementou o presidente de LaLiga.
O controle da LaLiga funciona de forma preventiva. A liga se baseia na receita projetada de cada clube e calcula, antes do início da temporada, o limite do que ele pode gastar em futebol. Foi por causa desse mecanismo que o Barcelona teve dificuldade para inscrever reforços nas últimas janelas de transferência.
“Competitividade não é tanto ter dois ou três times que possam vencer, e sim quantos pontos eles fazem. Se passarem de 90 pontos, é motivo de preocupação. Quando não passam de 90, isso se reparte e fica muito competitivo”, disse Tebas.
Questionado sobre o próprio critério, Tebas reconheceu que o Barcelona ultrapassou 90 pontos na temporada mais recente — com a ressalva de que a observação “precisaria ser qualificada”, sem detalhar por quê. Na temporada 2025/2026, o Barcelona foi campeão com 94 pontos, contra 86 do vice-campeão Real Madrid.
Clubes apoiam a rigidez?
O controle financeiro espanhol é rígido, mas conta com apoio dos clubes, segundo Tebas. Perguntado se há resistência em relação ao modelo, o dirigente afirmou que não há e ressaltou que LaLiga é, junto com a Bundesliga, exemplo para a Europa.
“Não há reticências, não há mesmo. O que os clubes querem é que o regulamento do controle econômico seja cumprido; ele se adapta a cada ano, é um processo vivo, e não existem queixas gerais. Os proprietários estão confortáveis com as normas que existem. Eu não vi nenhuma reclamação nessa linha”, afirmou.
O mecanismo tem 14 anos de existência e conta com comissão de acompanhamento formada por seis clubes, cada um representado por um vice-presidente — o tipo de coparticipação institucional que, segundo Tebas, explica a ausência de queixas, porque há envolvimento direto dos próprios clubes na governança do sistema.
O Barcelona foi um dos mais citados durante o evento, porque havia dúvidas sobre como o clube se recuperou de uma situação muito pior na temporada passada. A liga alega que a receita catalã, hoje em cerca de 1 bilhão de euros, tem aumentado graças a transferências de atletas, o que tem viabilizado o pagamento da dívida.
O Sevilla foi usado como exemplo do efeito negativo de um clube que deixa de participar de competições europeias depois de anos contando com aquela receita.
Javier Gómez contou que o clube soma 140 milhões de euros em perdas nas temporadas recentes e atribui isso à perda de receita da Liga dos Campeões. Tebas comparou deixar de jogar o torneio a um rebaixamento para a segunda divisão.
Tebas complementou que este é um problema estrutural do futebol europeu. Clubes em situações similares à do Sevilla costumam entrar em dificuldades econômicas.
Mesmo assim, ele disse, o Sevilla tem feito esforços para equilibrar as contas — o clube reduziu o patamar de gastos de 265 milhões para 135 milhões em dois anos, segundo a LaLiga, e deve terminar a temporada 2026/2027 próximo do equilíbrio.
“Somos o exemplo, junto com a Bundesliga, que se coloca para toda a Europa; até o regulador inglês nos usa como referência. O que temos que fazer é impedir que o que é ruim, como na Premier, se espalhe para os demais”, argumentou Tebas.
“O caminho não é abrir a torneira, e já estamos abrindo: há 15% a mais de massa salarial do que na temporada passada. Há certas normas que vamos flexibilizando; outras vezes, como quando chegou a Covid, é preciso fechar”, concluiu.

