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domingo, 4 de outubro de 2026

Cannabis entra na roda para falar de cuidados e arte na Casa de Cultura

Evento reuniu saúde, informação e relatos de famílias para discutir acesso ao tratamento

A 2ª edição do projeto “Plantando as Sementes da Mudança”, realizada na sexta-feira (2), na Casa de Cultura, em Campo Grande, discutiu o uso medicinal da cannabis, o acesso ao tratamento e o preconceito que ainda cerca a planta. Com o tema “Cultura Canábica, Direitos e Acesso à Cannabis Medicinal”, o encontro reuniu profissionais, pacientes, familiares e artistas para discutir os diferentes usos da planta e os obstáculos enfrentados por quem busca tratamento.

Farmacêutica e psicóloga, Vanessa Reis, de 47 anos, participou como palestrante e concentrou sua fala no uso racional e seguro do óleo. Segundo ela, o tratamento deve partir de indicação médica e ser acompanhado por profissionais capacitados. “O papel do farmacêutico é no uso seguro, no uso racional e no seguimento do monitoramento”, explicou. Ela também destacou a necessidade de avaliar indicações clínicas e acompanhar a resposta de cada paciente.

Além das questões de saúde, Vanessa abordou o preconceito que ainda influencia a decisão de algumas famílias. Segundo a profissional, há casos em que mães de crianças com epilepsia e transtorno do espectro autista querem buscar o tratamento, mas enfrentam resistência dentro de casa.

“Às vezes, a mãe quer tentar e o pai não aceita porque acha que é uma droga”, relatou. Para ela, o estigma social em torno da cannabis continua sendo uma barreira para o debate sobre seu uso medicinal.

Outro problema apontado durante o encontro foi o custo. Vanessa explicou que produtos industrializados ainda podem ter preços elevados, o que dificulta o acesso principalmente de famílias com menos recursos, incluindo mães atípicas que procuram alternativas para o tratamento dos filhos. Segundo ela, associações também enfrentam dificuldades relacionadas a financiamento e obtenção de insumos. A defesa é de que pacientes com indicação clínica consigam ter acesso acompanhado por uma equipe técnica especializada.

Cannabis entra na roda para falar de cuidados e arte na Casa de Cultura
Evento abriu espaço para informação, palestras do grupo Flor do Cerrado (. Foto: Reprodução)

A experiência pessoal da farmacêutica também apareceu durante a conversa com os participantes. Vanessa contou que uma de suas filhas chegou a apresentar cerca de 20 crises convulsivas e passou a usar óleo de cannabis quando tinha aproximadamente 2 anos.

Segundo ela, após o início do tratamento, houve períodos em que o número de crises caiu para 8, 10 ou 6. A filha morreu posteriormente em decorrência de outros fatores, conforme relatou Vanessa. O caso despertou perguntas do público após a palestra.

A programação não ficou restrita às discussões sobre saúde. Um antropólogo chamado Saulo abordou a trajetória histórica da cannabis, sua chegada ao Brasil, a relação com populações africanas escravizadas e os processos políticos e sociais ligados à criminalização da planta. A atividade também contou com DJ e músicas relacionadas às raízes e à história afro-brasileira.

Duas artistas produziram ainda um painel de pintura durante o evento, com participação das crianças presentes. A programação terminou com uma roda de capoeira e interação com o público. “Eu achei que foi muito lindo, muito interativo”, resumiu Vanessa, que destacou também o ambiente da Casa de Cultura onde as atividades ocorreram.

Depois das apresentações, a discussão continuou de maneira informal. Vanessa conversou com acadêmicos de psicologia e com mães de crianças com diferentes condições neurodivergentes, que aproveitaram o encontro para tirar dúvidas. Para ela, além de discutir a cannabis medicinal, o evento abriu espaço para informação e acolhimento em um tema que ainda esbarra tanto no custo do tratamento quanto na desinformação e no preconceito.

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