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terça-feira, 6 de outubro de 2026

Do exame ao tratamento, Zuleide percorreu 2 redes até começar quimioterapia

A etapa inicial ocorreu em 14 de novembro de 2025, 78 dias após a investigação diagnóstica

Quando percebeu um nódulo na mama, a corretora de imóveis Zuleide Lima Pereira, de 48 anos, imaginou que fosse um furúnculo. Mas um ultrassom feito em 28 de agosto de 2025 mostrou outra situação: um quadro avançado de câncer de mama. Neste Outubro Rosa, o exemplo dela mostra que esperar, nesses casos, não é uma opção.

Moradora de Coxim, Zuleide iniciou então uma corrida para conseguir investigar o caroço. Procurou atendimento pelo SUS (Sistema Único de Saúde) por meio da Secretaria Municipal de Saúde de Coxim e, ao mesmo tempo, contou com a ajuda de uma amiga para conseguir encaminhamento pela rede de Alcinópolis, ligada ao fluxo de atendimento do Hospital do Amor.

“Também consegui com uma amiga para dar entrada por Alcinópolis, pela Secretaria de Saúde de Alcinópolis, que era vinculada ao Hospital do Amor”, relata.

Em vez de aguardar apenas um dos caminhos, ela também deu entrada no Hospital de Câncer Alfredo Abrão, em Campo Grande. A estratégia era simples: seguir pelo serviço que conseguisse avançar primeiro com seu caso. “O que me chamasse primeiro, eu iria”, resume.

O encaminhamento por Alcinópolis avançou antes e, em setembro, Zuleide realizou exames no Hospital do Amor. A biópsia também foi feita na unidade. Segundo ela, foram 45 dias entre o primeiro exame que apontou a suspeita e a realização da biópsia.

Com o diagnóstico confirmado em outubro, Zuleide levou os resultados ao Hospital Alfredo Abrão. Ela conta que, a partir desse momento, o atendimento avançou rapidamente. Com o ultrassom e o resultado da biópsia em mãos, a equipe médica definiu o tratamento e programou as sessões de quimioterapia.

A primeira foi realizada em 14 de novembro de 2025, dois dias antes do aniversário da corretora. Entre o ultrassom de 28 de agosto e o início do tratamento transcorreram 78 dias, o mesmo que dois meses e 17 dias.

Mais de 1,4 mil mamografias – O percurso de Zuleide ajuda a colocar rosto em uma etapa do atendimento que o próprio poder público admite ter dificuldade para medir. Dados da SES (Secretaria de Estado de Saúde) mostram que Mato Grosso do Sul registrou, em 2025, 705 mamografias classificadas como BI-RADS 4 e 137 como BI-RADS 5, categorias que indicam achados suspeitos que precisam ser investigados. Em 2026, considerando as competências disponíveis até o levantamento, foram outros 474 resultados BI-RADS 4 e 89 BI-RADS 5.

Somados, são 1.405 exames classificados nessas duas categorias nos dois períodos. O número, porém, não significa que todas essas pacientes precisassem necessariamente de biópsia. A própria SES ressalta que a investigação seguinte depende da avaliação clínica, de exames complementares e da conduta adotada em cada caso.

Do exame ao tratamento, Zuleide percorreu 2 redes até começar quimioterapia
Sala de radioterapia em foto tirada por Zuleide e postada nas redes sociais. "Mais uma etapa da minha caminhada", diz a legenda. (. Foto: Reprodução)

O SISCAN (Sistema de Informação do Câncer) permite identificar mulheres conforme o resultado da mamografia, inclusive aquelas classificadas como mais graves, e possui ferramentas para gerenciamento do seguimento. Entretanto, não existe no sistema um alerta automático que sinalize individualmente quando uma paciente está sem continuidade registrada.

Segundo a SES, cabe às equipes municipais responsáveis pelo atendimento fazer o acompanhamento individual, a busca ativa e os encaminhamentos necessários para que a investigação continue. As coordenações municipais do SISCAN também participam desse processo.

Mesmo com as informações disponíveis no sistema, o Estado afirma que a consulta utilizada pela SES não permite saber diretamente quantas mulheres com BI-RADS 4 e 5 fizeram posteriormente biópsia ou outro procedimento de investigação. A SES também admite não possuir um indicador estadual consolidado que meça sistematicamente quanto tempo passa entre uma mamografia suspeita e a etapa seguinte da investigação diagnóstica.

Filas – Em Campo Grande, o caminho percorrido pelas pacientes já é objeto de investigação do MPMS (Ministério Público de Mato Grosso do Sul). Um Inquérito Civil apura a eficiência da rede pública na oferta de consultas especializadas e exames destinados ao rastreamento e ao diagnóstico precoce do câncer de mama.

Os documentos mostram que, em diferentes momentos, a rede municipal acumulou pacientes esperando justamente por etapas posteriores ao exame inicial.

Em fevereiro de 2025, a Sesau (Secretaria Municipal de Saúde) informou que 146 pacientes aguardavam ultrassonografia bilateral das mamas, embora afirmasse não haver demanda reprimida para mamografia de rastreamento.

Dois meses depois, em 8 de abril, a fila para ultrassonografia havia aumentado para 266 solicitações, com previsão de aproximadamente dois meses para atendimento. Na ocasião, também havia 126 pacientes esperando consulta com mastologista.

Mais tarde, o próprio inquérito registrou 413 pacientes aguardando ultrassonografia das mamas. A solicitação mais antiga era de 20 de dezembro de 2023. Entre elas, 91 estavam classificadas como risco “amarelo”. Outras 105 pessoas aguardavam consulta com mastologista, das quais 12 tinham classificação amarela.

Do exame ao tratamento, Zuleide percorreu 2 redes até começar quimioterapia
Zuleide durante a primeira sessão de quimioterapia em novembro do ano passado. (. Foto: Arquivo pessoal)

Os números levaram o Ministério Público a aprofundar a investigação. Em maio deste ano, a 32ª Promotoria de Justiça cobrou da Sesau a relação atualizada das filas para mamografia, ultrassonografia, biópsia, exames anatomopatológicos e imuno-histoquímicos e consultas em mastologia.

A Promotoria foi além dos números e pediu que a prefeitura apresentasse todo o caminho percorrido pela paciente, desde a solicitação e realização do exame, passando pela emissão do laudo e encaminhamento ao mastologista, até o diagnóstico definitivo. Também determinou que fossem apontados eventuais “pontos de descontinuidade” nesse percurso.

O MP ainda questionou o tempo médio para realização dos exames e emissão dos laudos, as medidas tomadas para pacientes que esperavam havia mais de um ano e a forma de priorização dos casos classificados como amarelos.

A Sesau apresentou uma lista de espera para consulta em mastologia, mas informou que naquele momento não havia demanda reprimida para mamografia bilateral, ultrassonografia bilateral das mamas, PAAF (Punção Aspirativa por Agulha Fina), punção por agulha grossa e imuno-histoquímica. A Secretaria afirmou ainda realizar monitoramento das filas, análise do tempo de espera e classificação dos pacientes conforme o risco.

Zuleide – Se a suspeita de câncer de mama exigiu que Zuleide procurasse mais de um caminho, a experiência relatada por ela mudou depois que o câncer foi confirmado.

No Hospital Alfredo Abrão, ela fez 16 sessões de quimioterapia, sendo 12 semanais e quatro a cada 21 dias. Em 9 de junho deste ano, passou por cirurgia no quadrante da mama esquerda e nos linfonodos axilares. Depois, realizou 15 sessões de radioterapia, entre 8 e 29 de setembro.

“O atendimento no Alfredo Abrão para mim foi a melhor coisa que aconteceu”, afirma. Além da assistência médica, Zuleide destaca o acompanhamento de profissionais como nutricionista e psicóloga.

Do exame ao tratamento, Zuleide percorreu 2 redes até começar quimioterapia
A paciente na sala de quimioterapia acompanhada por mais pacientes. (. Foto: Arquivo pessoal)

“Eu fiquei angustiada por não saber como seria. Eu tinha medo do tratamento em si ser dolorido, sofrido. A incerteza do futuro é o que mais assusta”, lembra. “A partir do momento que comecei o tratamento, percebi que o monstro não era tão assustador.”

Hoje, ela permanece em acompanhamento. Antes mesmo de terminar as sessões de radioterapia, prestou concurso para a Prefeitura de Rio Verde de Mato Grosso. “Hoje eu tenho uma perspectiva maior do que antes sobre mim. Hoje busco sabedoria para seguir a vida.”

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