Manter dois empregos ou conciliar uma ocupação com serviços extras exige organizar os horários para preservar o descanso. O superintendente regional do Trabalho, Alexandre Cantero, alerta que a fadiga pode aumentar o risco de acidentes e comprometer o cumprimento das obrigações profissionais. Em Campo Grande, trabalhadoras relatam como dividem a rotina para complementar a renda.
Segundo Cantero, não há proibição geral de ter mais de um emprego. O cuidado deve envolver tanto as condições de cada contrato quanto o tempo necessário para recuperação entre as atividades.
“Os riscos ocupacionais tendem a aumentar por conta da fadiga, inclusive as doenças ocupacionais ou até acidentes de trabalho que podem causar sequelas ou até serem fatais”, afirma.
O superintendente cita como exemplo um técnico de enfermagem que acumula jornadas ou utiliza as horas de descanso para trabalhar. Nessas condições, explica, o cansaço pode colocar em risco o profissional e os pacientes sob seus cuidados.
Para Viviane Monteiro, 41 anos, a flexibilidade dos horários ajuda a conciliar o trabalho como diarista com a produção de artesanato. Ela mantém serviço fixo em uma casa de família há quase dois anos, faz uma diária por semana em outra residência e aceita encomendas de camisetas personalizadas, canecas estampadas e peças de EVA.
Viviane afirma que não tem carteira assinada nas diárias. Como nem sempre passa o dia inteiro na residência onde mantém o serviço fixo, aproveita parte das tardes para produzir as encomendas. Quando precisa, também consegue combinar uma mudança no horário de entrada.
“Se eu tenho algum trabalho a mais, eu consigo entrar um pouquinho mais tarde”, conta.
Ela reconhece o cansaço em alguns dias, mas afirma que consegue descansar. A combinação das atividades ajuda a organizar as despesas e a concluir a própria casa. “Eu ajudo na parte financeira e eu consigo manter as finanças mais ou menos organizadas e vou conseguindo terminar minha casa”, relata.
Catia Martins, 49 anos, trabalha como servidora municipal temporária há quatro anos e vende produtos de beleza há mais de 20. A atividade complementar já fazia parte da rotina quando ela trabalhava em call center. “Trabalhei muitos anos no call center e sempre via necessidade de ter uma segunda renda”, afirma.
Ela revende produtos de marcas como O Boticário e Natura. A atividade exige receber pedidos e providenciar as compras, mas Catia também valoriza a convivência com as clientes. “Às vezes cansa mesmo, porém é muito bom você ter uma segunda renda”, diz.
“Quando vendo, tenho a oportunidade de conversar com as pessoas, conhecer novas pessoas, ter novas amizades”, completa.

Obrigações nos empregos – Cantero orienta quem pretende acumular ocupações a verificar as condições dos contratos e a compatibilidade dos horários. Segundo ele, o trabalhador precisa cumprir suas obrigações para evitar que uma atividade prejudique a outra.
O superintendente explica que o descumprimento dessas obrigações pode resultar em advertência, suspensão ou até justa causa, conforme as circunstâncias. Também chama a atenção para situações em que o trabalho paralelo representa concorrência ao empregador ou prejudica o serviço.
Ele ressalta que a possibilidade de aumentar a renda não elimina a necessidade de descanso. A avaliação deve considerar o desgaste das atividades e a responsabilidade do profissional pela segurança de outras pessoas.
Descanso e escala 6×1 – Para Alexandre, o fim da escala 6×1, de 6 dias de trabalho para um de folga, também exige discutir a rotina de quem mantém mais de uma ocupação. Na avaliação dele, a ampliação do período de repouso precisa cumprir a finalidade de permitir a recuperação do trabalhador.
“O objetivo é que o trabalhador descanse, que ele se refaça”, afirma.
O Congresso Nacional promulgou em 16 de outubro a emenda que prevê duas folgas semanais e redução gradual da jornada, sem corte salarial. O texto estabelece uma primeira etapa de adaptação em 60 dias, com regras específicas e possibilidades de negociação coletiva.
Superintendente também alerta para a extensão do trabalho por meio de celulares e aplicativos. Segundo ele, mensagens e cobranças fora do expediente podem comprometer o tempo destinado à vida privada, à família e ao descanso.

“Nós não somos máquinas, nós precisamos do descanso, nós precisamos nos refazer, nós precisamos, hoje em dia, inclusive, do direito à desconexão”, afirma.
Para melhorar a remuneração, Alexandre defende sindicatos mais representativos e o fortalecimento das negociações coletivas. Ele também considera necessário discutir os custos da folha de pagamento e medidas que ampliem as condições para os empregadores concederem aumentos salariais.

