"Era uma expectativa muito grande. Primeiro porque era muita coisa nova e teve uma coisa que nenhum outro governo fez: todas as obras foram objeto de concurso de arquitetos, por isso teve visibilidade nacional. Tipo Juscelino (Kubitschek) com Brasília. Foi um acontecimento."
O comentário é do arquiteto Osvaldo Abrão, de 72 anos, sobre a construção do Parque dos Poderes, em Campo Grande. Como o próprio nome diz, a área foi criada para abrigar os instrumentos públicos do novo Estado criado, Mato Grosso do Sul. Foram seis anos de espera, entre 1977 e 1983, para a troca dos espaços improvisados para a sede definitiva. Abrão é campo-grandense e participou da estruturação administrativa de MS.
O prédio mais emblemático quando se fala em sede do governo é onde hoje fica a Fundação de Cultura, na Avenida Fernando Corrêa da Costa, 559. O local foi erguido durante o regime militar em 1976 para realizar atendimentos à população de Campo Grande, que reivindicava o acesso aos serviços públicos sem ter que recorrer à capital do estado na época, Cuiabá.

O chamado Erpe (Edifício das Repartições Públicas Estaduais) tornou-se sede do Governo do novo Estado, mas com a construção do Parque dos Poderes, houve a transferência dos gabinetes para lá e o Poder Judiciário, com o Fórum, se instalou lá até o ano de 2001. Até 2006, o prédio ficou inativo, quando após uma reforma tornou-se o Memorial da Cultura e Cidadania Apolônio de Carvalho.
Abrão lembra que não atuou muito por lá, porque desempenhava suas funções no DOP (Departamento de Obras Públicas), na esquina da Rua Joaquim Cripa com a Barão de Melgaço, onde hoje está instalada a Funasa (Fundação Nacional de Saúde). Ele conta que o imóvel tinha características de uma residência, mas abrigava os profissionais envolvidos na construção da nova estrutura estadual, entre elas, as 25 primeiras creches de MS.
"Fiz muitos projetos ali mesmo em uma área de serviço no segundo andar. Minha prancheta adaptada em cima do tanque de lavar roupas(ri). Produzimos muita coisa que ainda está aí, mesmo com essas condições", relembra.
Osvaldo lembra que a criação do Estado trouxe oportunidades de trabalho e expectativas para os profissionais que participaram daquele período. "Havia dinamismo e euforia em função do futuro que se vislumbrava", recorda, conforme suas anotações sobre a época.

Antes de trabalhar para o governo de Mato Grosso do Sul, ele já atuava no serviço público como diretor do Departamento de Urbanismo de Ponta Porã. Com a instalação do novo Estado, passou a integrar a equipe estadual responsável pelos projetos de obras públicas.
Segundo o arquiteto, o volume de trabalho era grande. Ele estima que aproximadamente 600 obras tenham sido realizadas em dois anos, período em que a administração precisava criar estruturas para atender às demandas do Estado.
A movimentação também atraiu arquitetos de outras regiões do país. Um estudo sobre a difusão da arquitetura moderna em Campo Grande, publicado na revista Ensaios e Ciência em 2000, registra que profissionais formados em cidades como Rio de Janeiro, São Paulo e Curitiba passaram a atuar na Capital, impulsionados, entre outros fatores, pelos concursos públicos de projetos arquitetônicos.

Demais poderes – Outro espaço que já foi sede do Fórum é o Centro Cultural José Octávio Guizzo, na Rua 26 de Agosto. Na área onde hoje fica o Teatro Aracy Balabanian, no piso superior do prédio, funcionava o Tribunal do Júri. O Poder Judiciário então saiu de lá após a inauguração do Parque dos Poderes e se mudou para o antigo Erpe.
O Judiciário eleitoral também utilizou outras instalações na região central. A trajetória do TRE-MS (Tribunal Regional Eleitoral de Mato Grosso do Sul) mostra como a instalação das instituições exigiu mudanças sucessivas de endereço.
De acordo com uma publicação histórica do tribunal, sua primeira sede foi instalada em 1979, na Rua da Liberdade, na Vila Santa Dorotheia. O órgão passou depois por imóveis na Avenida Calógeras (onde hoje está o Mercado do Produtor), na Rua 13 de Maio e na Rua Barão do Rio Branco.

As fotografias preservadas pelo TRE-MS registram parte desse percurso. Em janeiro de 1983, o tribunal funcionava na Avenida Calógeras, 616. Em fevereiro de 1985, ocupava um prédio na Rua 13 de Maio, 1250. Já em outubro de 1986, estava instalado na Rua Barão do Rio Branco, 1843, endereço que também havia abrigado a Assembleia Constituinte.
O tribunal só passou a ocupar sua sede própria em agosto de 1988, na então Avenida Rio Turvo, no Parque dos Poderes, atualmente Rua Desembargador Leão Neto do Carmo, no Jardim Veraneio.
A sucessão de endereços mostra que a transferência dos órgãos para instalações definitivas não ocorreu ao mesmo tempo. Enquanto parte do governo já ocupava o Parque dos Poderes, outras instituições continuavam utilizando imóveis em diferentes regiões de Campo Grande.
Legislativo – Mato Grosso do Sul foi instalado oficialmente em 1º de janeiro de 1979, durante uma solenidade no Teatro Glauce Rocha, na UFMS (Universidade Federal de Mato Grosso do Sul). A cerimônia contou com a presença do presidente Ernesto Geisel e marcou a posse do governador Harry Amorim, de quatro desembargadores e dos 18 deputados constituintes.
Naquele mesmo dia, os parlamentares realizaram a sessão de instalação da Assembleia Constituinte. Rudel Trindade (partido), o deputado mais velho, com 53 anos, presidiu inicialmente a reunião. Na ocasião, os deputados aprovaram a resolução que estabeleceu o funcionamento provisório da Assembleia nas dependências da Missão Salesiana, na Rua Barão do Rio Branco, 1843.

A estrutura da Assembleia não estava concentrada em um único edifício. Os servidores trabalhavam em diferentes imóveis no quarteirão da Missão Salesiana, situação que só seria superada com a transferência para a sede definitiva, ainda em 1983, no Parque dos Poderes.
Projetos – Os projetos do Parque dos Poderes foram desenvolvidos por diferentes equipes. Conforme o estudo publicado na revista Ensaios e Ciência, os blocos das secretarias estaduais foram projetados por Alex Maymone da Silva e Jesus Edmir Escalante Ribeiro. Já os projetos da Assembleia Legislativa e do Tribunal de Justiça tiveram participação dos arquitetos Jurandir Nogueira, Ângelo Marcos Arruda e Aldo Matsuda.

O estudo registra a construção de edifícios do conjunto em 1982, com características da arquitetura moderna, como o uso de concreto aparente e a integração das construções com o ambiente natural.
A escolha da área também envolveu preocupações ambientais. Osvaldo recorda que a região já possuía áreas preservadas e nascentes, que deveriam ser protegidas durante a implantação dos projetos. Ele associa esse trabalho à concepção do Parque do Prosa, posteriormente destinado à conservação ambiental.

