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quinta-feira, 22 de outubro de 2026

No bar da Rose, 50 centavos valem uma dose e uma ótima conversa

Há 14 anos, boteco conquista clientes com doses baratas, atendimento acolhedor e histórias inusitadas

Imagine um bar onde qualquer moeda esquecida no bolso pode render uma dose de bebida e uma boa conversa. No Bar da Rose, localizado na Rua Santa Quitéria, 1279, no Parque Residencial Iracy Coelho Netto, em Campo Grande, quem aparece com apenas 50 centavos pode pedir um pouquinho de pinga ou vodca e receber o mesmo atendimento de quem gasta R$ 50.

Há 14 anos, o estabelecimento reúne clientes que encontram no pequeno comércio mais do que um lugar para beber. Por ali, o que vale não é o dinheiro que cada um carrega, mas a conversa e a relação construída com os donos. No balcão está Rosângela Aparecida Ferrari, que abriu o estabelecimento em 2012, movida pela vontade de ter o próprio negócio.

Na época, ela trabalhava fora e buscava uma alternativa para melhorar a renda da família. O bar começou com o nome de Bar do Paraná, mas passou a ser conhecido como Bar da Rose quando ela assumiu sozinha a propriedade. Hoje, divide a rotina com o filho, Duan Marcos Pedreira, de 25 anos, que também é professor. Durante a semana, enquanto ele dá aulas, Rosângela cuida do atendimento. Às quartas-feiras e nos fins de semana, mãe e filho trabalham juntos.

No bar da Rose, 50 centavos valem uma dose e uma ótima conversa
Com atendimento acolhedor, o estabelecimento virou ponto de encontro de moradores do bairro Iracy Coelho Netto (. Foto: Amanda Ferreira)

O diferencial do lugar está justamente na maneira como a casa recebe os clientes. Ali, não existe um valor mínimo fixo para quem deseja tomar uma pequena dose. Se alguém aparece com uma moeda de 25 ou 50 centavos, Rosângela serve a quantidade correspondente ao dinheiro disponível.

“A gente trata a pessoa que vem tomar uma dose de 50 centavos do mesmo jeito que trata a pessoa que gasta R$ 50. Às vezes, a pessoa passa com 50 centavos e fala para mim, e eu coloco só um pouquinho. Ele toma e sai todo feliz”, conta a proprietária. Para ela, a satisfação de quem passa pelo balcão vale mais do que o valor recebido. “Só de ver a felicidade da pessoa, você já ganhou o dia.”

O cardápio segue a tradição dos botecos de bairro. São servidas doses de pinga, vodca, conhaque, catuaba e outras bebidas, além de cervejas de diferentes marcas. Mas, apesar das opções, Duan acredita que o atendimento é o principal motivo para a fidelidade da clientela. Quem chega com pouco dinheiro recebe a mesma atenção de quem pede várias bebidas.

No bar da Rose, 50 centavos valem uma dose e uma ótima conversa
O boteco funciona na Rua Santa Quitéria, 1279, e mantém o jeito simples de receber os frequentadores (. Foto: Amanda Ferreira)

A proposta é manter um ambiente simples, onde as pessoas se sintam à vontade para chegar, conversar e encontrar rostos conhecidos. Com o tempo, o bar passou a fazer parte da rotina de moradores e trabalhadores da região, que aparecem não apenas para consumir, mas também para colocar o papo em dia.

A convivência diária criou uma relação de amizade entre Rosângela e os frequentadores. Muitos aparecem praticamente todos os dias, repetem os mesmos pedidos e compartilham acontecimentos da própria vida. A proprietária conta que acabou se acostumando tanto com a presença dessas pessoas que percebe quando alguém deixa de aparecer.

“Você se apega, porque fica tanto tempo junto. Todo dia eu estou aqui, todo dia eles vêm, todo dia tem conversa. No dia em que um deles não vem, você fica se perguntando: nossa, será que está doente? Será que aconteceu alguma coisa?”, relata. Para ela, essa proximidade é uma das partes mais especiais de manter o estabelecimento aberto.

Histórias dos clientes – Ao longo de 14 anos, o Bar da Rose acumulou histórias que vão muito além das conversas de balcão. Duan lembra que, quando o estabelecimento funcionava até de madrugada, as confusões também faziam parte da rotina.

No bar da Rose, 50 centavos valem uma dose e uma ótima conversa
Durante a entrevista, cliente acertou a conta com Rose e aproveitou para experimentar uma dose de vodca com limão (. Foto: Amanda Ferreira)

Uma das mais curiosas envolveu a chegada de 2 mulheres que surpreendeu um cliente. “O cara veio aqui, sentou e começou a tomar cerveja. E aí chegou tanto a mulher dele quanto a outra menina que morava na casa dele”, relembra.

As situações inusitadas não pararam por aí. Em outra ocasião, um frequentador jogou uma garrafa de cerveja no meio da rua e precisou levar uma bronca do proprietário. “Já teve cliente de jogar o casco de cerveja no meio do asfalto. Daí eu pegar e ter que falar sério para ele ir lá buscar”, conta Duan, que garante que o ambiente está mais tranquilo atualmente.

Em outra história marcante, Duan conta que um cliente entrou no banheiro sem que ninguém percebesse e acabou trancado no estabelecimento durante o horário de almoço. “A gente fechou o bar, resolveu ir comprar bebidas e ficou umas duas horas fora, mais ou menos”, relembra.

A surpresa veio quando a família retornou e encontrou cerca de 10 pessoas reunidas em frente ao portão, tentando entender de onde vinham os gritos. “Quando a gente desceu do carro, percebeu que tinha um cliente que foi ao banheiro e ficou preso. Ele começou a gritar e as pessoas passavam na rua, escutavam e foram parando para ajudar. Por sorte, a gente chegou antes que aquilo virasse caso de polícia”, conta Duan.

No bar da Rose, 50 centavos valem uma dose e uma ótima conversa
As doses são servidas com limão a qualquer hora do dia, até pela manhã, antes do trabalho (. Foto: Amanda Ferreira)

Além das conversas, o bar também já virou espaço para encontros animados. Duan conta que alguns frequentadores gostam de dançar flashback aos sábados, transformando o ambiente em uma pequena pista improvisada.

Outro personagem conhecido é um gato que costuma permanecer pelo estabelecimento, acompanhando a movimentação sem se incomodar com a presença dos clientes. Para quem frequenta o local, esses detalhes fazem parte da identidade de um boteco que preserva o jeito simples de receber as pessoas.

Atualmente, Rosângela e Duan preferem manter uma rotina mais tranquila, com horários reduzidos em comparação aos primeiros anos. A mudança também acompanha a vida do filho, que precisa conciliar o trabalho como professor com a administração do bar. Mesmo com as dificuldades de tocar o negócio praticamente em família, os dois continuam atrás do balcão, recebendo clientes antigos e novos.

No bar da Rose, 50 centavos valem uma dose e uma ótima conversa
Rose mantém uma relação de carinho e amizade com os clientes que frequentam o bar há anos (. Foto: Amanda Ferreira)

Para quem quiser conhecer o Bar da Rose, o endereço é Rua Santa Quitéria, 1279, no Parque Residencial Iracy Coelho Netto. O atendimento ocorre de segunda a sexta-feira, das 8h às 19h. Já nos fins de semana, o horário é mais flexível: o bar fica aberto até a última dose de vodca acabar!

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