Por trás da fachada rosada e recém-restaurada do Hotel Virgínia, no Centro de Corumbá, existe um jardim de 72 metros de comprimento que parece um pequeno refúgio em meio à cidade. Com bananeiras, amoreiras, goiabeiras, limoeiros e plantas medicinais, o espaço surpreende quem entra no hotel e descobre que, além dos quartos, há um cantinho verde onde os hóspedes podem tomar café da manhã ao som dos pássaros.
O lugar, que também tem piscina e churrasqueira, é resultado de quase 3 décadas de dedicação da família da proprietária, Clara Lito, que decidiu transformar e preservar o imóvel. Assumido em 1998, o hotel construído na década de 1980 passou por várias mudanças ao longo dos anos, desde a recuperação dos pisos e corredores até a restauração de móveis antigos e a revitalização da fachada.
Localizado na Rua Dom Aquino, o estabelecimento tem 34 quartos e uma história que começou antes mesmo da família de Clara assumir a administração. A proprietária conta que, inicialmente, o casal comprou uma casa que fazia parte do hotel, enquanto o empreendimento estava arrendado para outra pessoa. Dois anos depois, a antiga proprietária entrou em contato e ofereceu a administração do negócio.
" A gente nem tinha noção de como ele era por dentro. A gente só via a fachada. Quando entramos, pensamos: meu Deus, nem parece que é assim", relembra.
A surpresa veio justamente com a dimensão do espaço interno, especialmente o jardim, que se tornou um dos grandes destaques do hotel. Ao longo dos anos, a família fez questão de preservar a área verde, acrescentando apenas um caminho de lajotas pintadas em tons que combinam com a fachada e uma iluminação especial.
O jardim também abriga árvores frutíferas e plantas que fazem parte do cotidiano dos hóspedes. Durante o café da manhã, é possível observar os pássaros e até colher frutas diretamente do pomar. A proposta é oferecer um ambiente acolhedor, que valoriza a natureza mesmo em uma região de temperaturas elevadas.
A transformação no prédio foi demorada. Foram necessários anos de reformas para recuperar as estruturas e adaptar o hotel às necessidades de quem se hospeda. Entre as mudanças, estão a substituição de pisos externos, a melhoria dos corredores e a instalação de janelas que favorecem a ventilação dos ambientes.
A fachada também ganhou uma nova identidade. Antes azul-clara, a construção passou a ter um tom rosado desenvolvido especialmente para o projeto, com a ajuda de uma arquiteta. A cor ficou tão associada ao estabelecimento que, segundo a proprietária, algumas pessoas passaram a procurar a tonalidade pelo nome de "Hotel Virgínia" nas lojas de tintas.
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A família está à frente do hotel há 28 anos e, durante esse período, cada cantinho recebeu atenção especial. “A gente nunca quis transformar o espaço em um algo padronizado, mas manter características antigas e valorizar a história do imóvel”, detalha.
Por isso, os quartos têm móveis restaurados e decoração personalizada. Em vez de conjuntos iguais, cada ambiente conta com peças diferentes, como guarda-roupas antigos, mesinhas de escrita e sofás. Alguns móveis foram recuperados pela própria família, que procurou preservar a identidade do lugar.
“Aqui, a gente recebe famílias, visitantes bolivianos e trabalhadores que ficam na cidade por períodos mais longos. Tenho até hóspede que já mora aqui há 3 anos”, explica. Clara conta que as diárias variam de R$ 280 a R$ 380, dependendo da acomodação, que pode receber até quatro pessoas.
Além do jardim e dos móveis antigos, o hotel guarda um acervo que ajuda a contar a história da cidade e da região. Em um dos corredores que conectam as alas, a família montou uma espécie de pequeno museu, com fotografias antigas, peças de artesanato, conchas, pedras do Pantanal e até um peixe fossilizado.

O espaço também apresenta referências ao processo de mineração e à produção de minério, além de obras de artistas sul-mato-grossenses e peças de artesanato de outras regiões brasileiras. Parte do acervo veio de uma escola frequentada pelos filhos da proprietária, que encerrou as atividades e doou pedras e conchas à família.
“A intenção é que os visitantes tenham contato com diferentes aspectos da cultura e da história local, sem que seja preciso sair do hotel”, comenta a dona.
Para a proprietária, investir no hotel é também uma maneira de demonstrar carinho por Corumbá. Mesmo diante de questionamentos sobre a decisão de aplicar tantos recursos em uma cidade do interior, ela afirma que a escolha tem relação com o vínculo afetivo construído ao longo dos anos.
"Às vezes, as pessoas falam: 'Você vai investir isso numa cidade do interior?'. Mas é porque aqui é nossa casa. Eu amo Corumbá", destaca.
Para ela, a imponência dos casarões, a arquitetura e as memórias de Corumbá nem sempre são reconhecidas por quem vive ou visita. “São elementos que merecem ser valorizados”, finaliza.

