No vaivém de visitantes no Cemitério São Sebastião, conhecido como Cruzeiro, um grupo todo vestido de branco se destaca. Eles se aproximam do Cruzeiro das Almas, a grande cruz no centro do local e iniciam o ritual de Firmeza das Santas Almas, em homenagem aos espíritos dos antepassados.
Vitória Tavares é filha de santo da Casa de Umbanda Estrela de Aruanda e foi até o cemitério participar do ritual. “A gente oferece pão e água às almas benditas, às assistidas, às que foram esquecidas; a gente está aqui para dar uma força, um apoio e prestar o nosso carinho e a nossa fé”, explicou.
Emocionada, Vitória diz que acredita na missão da Preta-velha, entidade espiritual associada à sabedoria, à ancestralidade africana e ao acolhimento. “Veio ajudar quem precisa, dar uma palavra de conforto, um axé”.

Vitória conta que, durante muito tempo, evitou falar sobre sua religião por medo do preconceito. Agora, afirma que as experiências vividas na Umbanda e a ajuda espiritual que atribui à Preta-velha lhe deram coragem para assumir publicamente sua fé. “Muitas pessoas talvez não saibam que eu sou de Umbanda, e eu tenho muito orgulho e muita fé”, declarou.
Para ela, o respeito deve existir independentemente da crença de cada pessoa. Vitória defende que nenhuma religião deve ser julgada e faz um convite a quem ainda desconhece a Umbanda. “Mesmo você que não acredita, que tem medo, uma hora, se você tiver a oportunidade, vá, e talvez seja o melhor dia da sua vida e de uma grande transformação, assim como foi na minha”.
Do lado de fora, Mãe Adriana Alves, juremeira da Casa de Catimbó Vovó Maria Conga, recebia com abraços quem se aproximava. O título de juremeira identifica sua ligação com a Jurema Sagrada, tradição religiosa brasileira de raízes indígenas e influências africanas, marcada pelo culto aos ancestrais, aos mestres espirituais e às forças da natureza.
Antes de entrar no cemitério, os filhos de santo jogaram moedas na entrada do cemitério. Na Umbanda e em algumas tradições religiosas de matriz afro-brasileira, é um gesto simbólico de respeito, proteção espiritual e pedido de licença às entidades consideradas guardiãs do local.
Depois, o grupo se dirigiu até o Cruzeiro das Almas, onde já estava Vitória e os filhos de santo da outra casa. Eles se uniram no ritual, com cânticos e oferendas de pão e água.
Há seis anos, Mãe Adriana participa da celebração do Dia de Finados no cemitério, onde realiza o ritual conhecido como Firmeza das Santas Almas. A cerimônia reúne tradições da Jurema Sagrada e da Umbanda, com cânticos, orações e oferendas de água, pão e velas. “Respeitar quem já passou por essa terra é recordar com fé a importância que eles tiveram”, explicou. Para ela, o ritual também é uma forma de oferecer carinho e acolhimento às famílias que visitam os túmulos.
A recepção, segundo a juremeira, mudou ao longo dos anos. No início, a presença do grupo causava estranhamento entre os visitantes, pouco acostumados a encontrar praticantes de religiões de matriz afro-indígena no cemitério. Hoje, a aproximação acontece de forma mais natural. “Agora já é mais tranquilo, as pessoas já chegam, nos abraçam, já pedem uma acolhida. Perguntam se pode tomar um passe, se pode participar junto com a gente”, contou.
Mãe Adriana acredita que o contato com os visitantes também ajuda a combater o preconceito e a intolerância religiosa. Para ela, os abraços e as demonstrações de afeto são maneiras de apresentar sua fé a quem ainda a desconhece. “Ainda existe muita intolerância religiosa, racismo religioso. E as pessoas precisam entender e precisam nos ver com amor, com fé, com respeito”, afirmou. “Quando a gente chega no cemitério e abraça, seja o idoso como a criança, a gente quebra essas barreiras.”

