Ao visitar uma casa para pedir que o morador tapasse a fossa aberta, a agente de combate a endemias Crystielaine Coelho Castro se deparou com uma situação que dificultava até mesmo a orientação: o imóvel não tinha nem porta. Um tecido pendurado na entrada era usado para fechar a casa.
Na antiga ocupação Homex, hoje Varandas do Campo, em Campo Grande, esse tipo de situação fazia parte da rotina. Antes de cobrar medidas para evitar doenças, os agentes precisavam lidar com problemas básicos, como a falta de água encanada e de condições para manter os imóveis adequados. “Como vou cobrar desse morador que tampe a fossa se ele não tem uma porta para a casa dele?”, lembra Crystielaine.
Há 12 anos trabalhando na região, ela acompanhou as dificuldades dos moradores para conseguir água e as mudanças depois da chegada das redes de abastecimento e esgoto, entregues em junho de 2024. “Com o tempo, a situação melhorou bastante. Hoje está muito diferente do que era”, afirma.
A mudança também aparece no combate ao mosquito Aedes aegypti, transmissor da dengue. Com água encanada nas casas, diminuiu a necessidade de guardar água em caixas, tambores e outros recipientes espalhados pelos quintais. Para os agentes, isso significa menos locais que podem servir de criadouro para o mosquito.
“No início da ocupação, não tinha saneamento nem água encanada. Eles puxavam uma mangueira das casas dos bairros próximos, ali do lado do Paulo Coelho, e ela passava pelo meio da comunidade inteira. O pessoal ia tirando água e enchendo uma caixa-d'água aqui, outra ali, um tambor, uma máquina de lavar”, conta.

A água armazenada precisava atender a todas as necessidades da família, inclusive para beber e tomar banho. “Quem tinha mais condições levava uma água mais saudável para casa. Outros usavam aquela água armazenada nas caixas do lado de fora da casa para beber, tomar banho, para tudo.”
Fossas sem tampa ou cobertas de forma improvisada eram apenas um dos vários problemas encontrados nas visitas. Com a implantação da rede de esgoto e a ligação dos imóveis, segundo a agente, essa dificuldade acabou.
Dados da Sesau (Secretaria Municipal de Saúde) entregues ao Campo Grande News mostram que a área atendida pela USF (Unidade de Saúde da Família) Paulo Coelho teve três depósitos positivos para larvas do mosquito em janeiro de 2024, antes da entrega das redes de saneamento. Na vistoria mais recente, em agosto de 2026, nenhum foi encontrado.
O resultado, no entanto, variou ao longo do período. Em outubro e novembro de 2025, também não foram encontrados depósitos positivos. Já em janeiro de 2026, na alta temporada de chuva deste ano, foram registrados dois, mas que já foram zerados em agosto.
Para Crystielaine, a melhora das condições de abastecimento não elimina a necessidade de orientar os moradores. Mesmo com água na torneira, algumas famílias continuam guardando água por medo de enfrentar novamente períodos sem abastecimento.
Essas visitas ocorrem a cada dois meses, mas os agentes podem retornar em intervalos menores, dependendo da situação encontrada. Durante as inspeções, precisam explicar por que recipientes abertos oferecem risco, mesmo quando o morador afirma que a água foi colocada recentemente ou que usou água sanitária.


“Muitas pessoas, graças a Deus, retiraram esses recipientes. Conseguimos eliminar bastante água armazenada. Nos casos em que ainda não conseguimos, continuamos tentando. Vem da cultura, do costume, da época de escassez. Na maioria das vezes, é isso que a gente percebe.”
Chefe do serviço de controle do Aedes aegypti, leishmaniose e doença de Chagas em Campo Grande, Toni Carlos também aponta o saneamento como um fator que ajuda a reduzir possíveis criadouros do mosquito na região do Paulo Coelho.
“Quando chega o saneamento, o número de possíveis criadouros reduz bastante. Com certeza, isso ajuda muito na redução desses números, especificamente aqui na região do Paulo Coelho”, avalia.
Ele compara a situação com a de locais onde a falta de abastecimento obriga os moradores a guardar água em baldes e galões. Nesses casos, a orientação é manter os recipientes bem fechados. “Se os moradores armazenarem a água corretamente, tampando os galões, não haverá esse problema.”

Toni ressalta, porém, que a redução dos indicadores em Campo Grande não depende de uma única medida. Segundo ele, o município também mudou a forma de organizar o trabalho das equipes, que passaram a usar dados de monitoramento para identificar as áreas que precisam de mais atenção.
Atualmente, o planejamento considera informações das ovitrampas, armadilhas usadas para monitorar a postura de ovos do mosquito, do LIRAa (Levantamento Rápido de Índices para Aedes aegypti) e das notificações de doenças. “Com o monitoramento por ovitrampas, o LIRAa e os dados epidemiológicos, conseguimos direcionar nossas atividades para onde está o problema. Isso facilitou muito.”
Outra estratégia citada por Toni é a Wolbachia, cuja implantação, segundo ele, foi concluída no fim de 2023 e se consolidou a partir de meados de 2024. O saneamento, portanto, faz parte de um conjunto de ações que, na avaliação do chefe do serviço, contribuíram para a redução dos casos. O trabalho preventivo também precisa começar antes do período de chuvas, quando as condições favorecem a proliferação do mosquito e dificultam as atividades de campo.
“Os números de hoje não são reflexo apenas do trabalho de agora, mas do trabalho preventivo. Fazemos a orientação e, quando retornamos, alguns casos melhoram e outros permanecem. Esse é o nosso maior desafio”, completa.
Ainda conforme dados da Sesau, também houve queda nas notificações de doenças no bairro Centro Oeste, do qual o Paulo Coelho Machado é um parcelamento. Foram 249 ocorrências em 2023, 22 em 2024 e 10 em 2025, redução de aproximadamente 96% entre o primeiro e o último ano. Em 2026, havia uma notificação até a atualização fornecida pela secretaria.

Pequenas conquistas – Para a dona de casa Nadja Ribeiro de Jesus, de 46 anos, a diferença aparece nas tarefas mais simples. Ela vive com quatro filhos e quatro netos e lembra que, antes da chegada da água encanada, até lavar roupa dependia da disponibilidade de abastecimento. “A gente lava roupa no dia que quiser”, resume.
Segundo Nadja, havia semanas em que a família passava três ou quatro dias sem água. Quando o abastecimento voltava, era preciso economizar para que a reserva durasse o máximo possível.
“Uma caixa não chegava a durar o dia todo, então a gente controlava. Separava o que era para beber, cozinhar e fazer as coisas de casa. Quando as coisas ficavam difíceis, o jeito era ficar na casa dos parentes, dava um jeito. Brasileiro dá jeito para tudo.”
Hoje, a velha caixa-d'água continua no imóvel, mas já não tem a mesma função. Agora, virou motivo de brincadeira entre os filhos e netos. “Naquela época, ela servia para guardar água. Agora é só para piscina”, termina.


A regularização das residências começou em 2023, por meio de projetos da Emha (Agência Municipal de Habitação e Assuntos Fundiários). As redes de água e esgoto foram entregues em 3 de junho de 2024. Conforme a Águas Guariroba, foram entregues 14 quilômetros de rede de esgoto e 15 quilômetros de rede de água, implantados em 80 dias para atender aproximadamente 1,4 mil famílias.
Segundo o diretor-presidente da Águas Guariroba, Gabriel Buim, em entrevista ao Campo Grande News, muitos moradores nunca haviam recebido uma conta de água e, por isso. a concessionária concedeu três meses sem cobrança, período em que eles recebiam as faturas para acompanhar o consumo. Depois, passaram a pagar com o benefício da tarifa social, que oferece desconto de 50%..
“Como ele não tinham acesso regular, às vezes consumia demais ou a estrutura da casa dele não estava adequada, então tinha muito vazamento, porque ele não pagava essa água. A partir do momento que ele ia pagar pelo bem, a gente entendeu que ele precisava de uma educação”, explica.
Para o diretor-presidente, os efeitos da obra vão além da instalação das tubulações. Ele relaciona o acesso à água e à coleta de esgoto à prevenção de doenças e às condições de vida das famílias. “Para a gente, significa que estamos levando saúde através da tubulação”, afirma.
Gabriel lembra que quem sempre teve água encanada nem sempre consegue dimensionar o que significa viver sem esse serviço.
“Quem já tem o serviço há muito tempo acha que é fácil você abrir a torneira, escovar seu dente de manhã, tomar banho. Na hora que você escuta de uma pessoa que ela não podia lavar roupa a qualquer hora, você imagina, as outras questões mais básicas? Escovar o dente, tomar um banho, ir ao banheiro. Isso é básico. Pensa, eu quero ir ao banheiro, mas não posso ir porque eu não vou ter água na minha bacia sanitária. Como que essa pessoa vivia?”

Ele considera que o acesso ao saneamento representa uma mudança nas condições de vida de quem passou anos sem abastecimento regular. “Qual é a situação de vulnerabilidade, de exposição a doenças que uma pessoa dessa tinha e agora não tem mais? Isso é uma baita de uma conquista para uma pessoa dessa”, afirma.
O diretor-presidente diz que ouvir esses relatos dá sentido ao trabalho da concessionária. “Essa é a realização, essa dignidade que a gente leva para as pessoas, que nos movimenta a trabalhar cada vez mais pela nossa cidade", termina.

