Aos 71 anos, Juan Luiz Soto já tinha encerrado uma longa carreira como engenheiro civil quando percebeu que a aposentadoria não estava fazendo tão bem quanto imaginava. Acostumado com uma rotina de trabalho, ele passou a ficar mais quieto e ligeiramente mais triste em casa. Vendo a situação, a filha, Déborah Soto, de 40 anos, teve a ideia de transformar uma tradição da família em uma nova atividade para o pai.
“Eu andava meio deprimido. Porque você interrompe uma carreira de muitos anos e aí depois, para começar a ter um tipo de atividade, você tem que pensar muito”, conta Juan.
Filho de paraguaios e nascido em Ponta Porã, ele cresceu em meio à mistura cultural da fronteira. A culinária paraguaia sempre esteve nas reuniões familiares, especialmente nos dias frios, quando parentes e amigos se juntavam em torno da mesa.
Foi nesse ambiente que Juan aprendeu a preparar pratos como a chipa e a sopa paraguaia. “Era uma rotina a gente reunir a família para fazer comida e todo mundo ficar em volta. Era uma reunião com os irmãos, os pais, os parentes e amigos”, pontua.

Décadas depois, o conhecimento que fazia parte da memória familiar acabou se transformando em trabalho. “Fui engenheiro muito tempo e agora sou sopeiro e chipeiro”, brinca.
A mudança começou quando Déborah percebeu que o pai precisava voltar a ter uma rotina. Dentista de profissão, ela também sempre gostou de cozinhar e carregava na memória as férias passadas em Ponta Porã, na casa da “abuela” Susana. “Minha avó gostava muito de cozinhar e sempre recebia a gente com comida. O jeito dela agradar a gente era fazendo comida”, lembra.
A ideia de criar alguma coisa com o pai já rondava os pensamentos de Débora havia algum tempo. Quando ele se aposentou, ela decidiu colocar o plano em prática e a escolha pela culinária veio quase naturalmente.
Depois de convencer seu Juan, pai e filha começaram a produção na época da Páscoa, época em que a sopa paraguaia e a chipa fazem parte da tradição da Sexta-Feira Santa em muitas famílias da fronteira.
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“Inicialmente a ideia era ser uma atividade pequena para manter meu pai ativo, mas com o tempo fomos ganhando clientes e recebendo pedidos de pessoas de fora”, detalha a filha.
A mãe de Débora, dona Nancy Soto, também entrou na produção e o negócio recém-inaugurado também virou um momento de convivência familiar.
“O motivo principal da gente ter aberto esse negócio foi familiar. Foi para eu ver meu pai de novo alegre, contente. Isso reflete no núcleo inteiro, reflete em mim, reflete no meu irmão, reflete na minha mãe”, diz Débora.
Hoje, duas vezes por semana, a cozinha da casa vira ponto de encontro da família. A produção é organizada para manter o padrão das receitas, com ingredientes pesados e medidas definidas para que a sopa e a chipa mantenham sempre o mesmo sabor.


A sopa paraguaia é vendida congelada ou assada sob encomenda. Já a chipa, que dá um pouco mais de trabalho, é produzida principalmente quando há pedidos antecipados.
E tem um detalhe que chama atenção. A chipa da família é quadrada, remetendo às lembranças da infância. “Quando a gente decidiu fazer, eu falei: ‘Não, vamos fazer do jeito que a gente comia, do jeito que eu conheço. É a nossa receita da família’”, explica Débora.
A memória aparece também nos comentários dos clientes. “A gente escuta muito cliente falar que se lembrou da sopa da mãe ou da chipa que a avó fazia. Isso é muito legal”, conta Débora.
O negócio, que começou de maneira artesanal e familiar, já chegou até a outros estados. Vendidas por aqui, as sopas já foram levadas para cidades como Rio de Janeiro, Natal, Fortaleza e para o Estado de Goiás. Clientes do interior também sempre aproveitam as viagens para levar os produtos.

Apesar disso, para Seu Juan, o principal resultado não está apenas nas vendas, mas em ter novamente uma rotina e fazer isso ao lado da família. Enquanto trabalham, Juan conta para os filhos e netos lembranças de Ponta Porã, da época em que a fronteira era mais tranquila e do tempo em que a família se reunia para cozinhar. “É uma atividade onde a gente fica junto. A gente conversa de tudo”, resume Débora.
A sopa paraguaia custa R$ 48 e pode ser encomendada congelada ou assada. Já a versão individual, com 170 gramas, sai por R$ 12. A chipa custa R$ 36 o pacote com 10 unidades, que pesa cerca de 700 gramas.
Para informações e encomendas, o contato da Família Paraguaya é o (67) 999283-0054.

