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quinta-feira, 8 de outubro de 2026

Com madeira e couro, mestre japonês fez história em MS

Técnicas de fabricação de taiko e sanshin atravessaram gerações e hoje chegam a novos músicos

Antes de ser conhecido como mestre na fabricação de instrumentos tradicionais de Okinawa, o japonês Sensei Hanshin Oshiro construiu a vida como marceneiro em Campo Grande. Foi trabalhando com madeira que ele descobriu um novo caminho e passou a fabricar taikos e sanshin, instrumentos que levaram o nome dele para todo o País.

A história do artesão foi resgatada nesta terça-feira (7), durante um workshop sobre música e cultura de Okinawa realizado em Campo Grande. A atividade integra o projeto “Taiko, despertar da música do Sol Nascente em Campo Grande”.

Filho de Hanshin, Aldo Hanshin Oshiro conta que o pai chegou ao Brasil em 1937 para trabalhar na lavoura de café. Depois, seguiu para Campo Grande, onde começou a trabalhar como marceneiro.

Com madeira e couro, mestre japonês fez história em MS
Hnashin chegou ao Brasil em 1937 para trabalhar na lavoura de café. (. Foto: Arquivo Pessoal)

Foi nessa profissão que ele desenvolveu uma habilidade que, anos mais tarde, faria dele uma referência na fabricação de instrumentos. “Meu pai desenvolveu principalmente aqui. Por causa da matéria-prima”, lembra Aldo.

O nome de nascimento do artesão era Shigenobu Oshiro. Durante o processo de entrada e naturalização no Brasil, passou a ser chamado de Hanshin Oshiro, nome pelo qual ficou conhecido anos depois.

Aldo lembra que o pai não reproduzia simplesmente os instrumentos que conhecia. Ele observava materiais disponíveis no Brasil e criava suas próprias soluções.

Para construir o taiko, descobriu que a madeira caxeta, leve e resistente, poderia ser utilizada. As peças eram cortadas em formato de gomos e depois encaixadas até formar o corpo do tambor.

Com madeira e couro, mestre japonês fez história em MS
Projeto “Taiko, despertar da música do Sol Nascente" aconteceu na noite desta quarta-feira. (. Foto: Clayton Neves)

A pele também precisava de um cuidado especial. O couro de vaca cru era colocado na água e moldado diretamente sobre o instrumento para ganhar o formato adequado. E até as tachinhas tinham segredo.

“Ele descobriu que o pino não poderia ser liso. Precisava ser áspero para ficar preso ao tambor e resistir à vibração produzida durante a execução. Ele teve muitas técnicas”, conta o filho.

Os instrumentos fabricados em Campo Grande passaram a ser enviados para outros estados, como São Paulo (SP), Paraná e Brasília (DF). O trabalho de Hanshin também ganhou reconhecimento em Okinawa.

A relação de Hanshin com a música não ficou restrita à fabricação. Ele também ensinou pessoas que até hoje mantêm contato com o taiko e a cultura okinawana.

Um desses alunos é Crystian Proença, embaixador da boa vontade de Okinawa e responsável pelo workshop. Crystian conta que foi o último aluno do Sensei Hanshin.

“Quando eu comecei a aprender com ele, ele me explicava muita coisa em português. Então hoje, transmitindo o legado dele, eu tento transmitir também em português as músicas”, explica.

Para Crystian , levar o workshop para fora da comunidade japonesa é justamente uma maneira de fazer a tradição alcançar quem nunca teve contato com ela. “O intuito é trazer para fora da associação, para fora da comunidade okinawana e direcionar para a comunidade campo-grandense a cultura”, afirma.

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Crystian Proença, embaixador da boa vontade de Okinawa e responsável pelo workshop. (. Foto: Clayton Neves)

O próprio Crystian não é descendente de japoneses. Para se aproximar da tradição, estudou a língua japonesa e passou a trabalhar com as músicas de Okinawa.

Hanshin morreu há nove anos, aos 92 anos. Mas, segundo o filho, a lembrança dele continua muito presente entre quem aprendeu com o mestre. Aldo diz que basta mencionar o nome do pai para perceber a reação dos antigos alunos. “Quando fala meu pai, os olhos brilham”, conta.

A família agora tenta registrar a trajetória do artesão. Aldo e a esposa chegaram a viajar ao Japão para pesquisar informações e reunir material para uma futura biografia. A preocupação é que o conhecimento acumulado ao longo de décadas não desapareça. “Tem que renovar, tem que registrar essa história, porque nossos velhos estão partindo e a história está indo junto”, afirma.

A história de Hanshin também está ligada à família de Odon Inacasato, organizador do projeto ao lado da esposa, Denize vicintin. Neto de japoneses, ele cresceu ouvindo o pai tocar o sanshin, em uma tradição que passou de geração para geração.

Com madeira e couro, mestre japonês fez história em MS
Aldo, filho de Hanshin, ao lado da esposa. (. Foto: Clayton Neves)

Quando ainda era criança, Odon ganhou um instrumento fabricado pelo próprio Hanshin e aprendeu a tocar acompanhando o pai. “Eu acompanhava, de ouvido mesmo”, lembra.

Foi essa memória familiar que ajudou a transformar a homenagem em um projeto maior. A ideia inicial era homenagear Hanshin por meio de uma música. Depois, os organizadores decidiram ampliar a proposta para apresentar a cultura de Okinawa à população de Campo Grande.

No workshop, o passado e o presente se encontraram. De um lado, a memória de quem ajudou a construir instrumentos à mão. Do outro, músicos e alunos que continuam tocando e ensinando.

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Hanshin morreu há nove anos, aos 92 anos. (. Foto: Arquivo Pessoal)

“A tradição passou de avô para pai, de pai para filho. Hoje, a gente quer que ela continue chegando a outras pessoas, para que essa história não fique só dentro da família, mas faça parte também da história de Campo Grande”, finaliza.

Confira a galeria de imagens:

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