24.8 C
Dourados
quinta-feira, 8 de outubro de 2026

Cerrado de MS perde mais da metade das áreas alagadas desde 1985

Perda atinge 539,6 mil hectares; pesquisadora explica a importância desses ambientes para nascentes e os rios

Os campos alagados e áreas pantanosas do Cerrado de Mato Grosso do Sul perderam aproximadamente 539,6 mil hectares entre 1985 e 2025, uma redução de 53%. Esses ambientes passaram de 1.013,8 mil para 474,2 mil hectares, segundo a Coleção 11 do MapBiomas. O dado torna-se mais relevante porque a conservação dessas áreas ajuda a reter água e sustentar o funcionamento dos sistemas hídricos.

Os números se referem à classe “campo alagado e área pantanosa” dentro da porção estadual do Cerrado. O levantamento coloca Mato Grosso do Sul entre os estados com as maiores reduções proporcionais dessa classe, ao lado de Paraná e São Paulo. No Cerrado inteiro, a redução foi de 18%.

Bárbara Costa, analista de pesquisa do IPAM (Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia) e pesquisadora da equipe Cerrado do MapBiomas, explica que esses ambientes abrigam vegetação sujeita a alagamentos sazonais ou permanentes. Brejos, várzeas e veredas têm funções importantes na retenção da água da chuva e na infiltração no solo.

Segundo a pesquisadora, a conservação dessas áreas contribui para a segurança hídrica. Sua redução pode estar associada à drenagem, à conversão para outros usos e a eventos climáticos extremos. A participação de cada processo, porém, precisa ser investigada em cada região.

Circulação da água – Bárbara explica que a água retida nesses ambientes pode se infiltrar gradualmente e contribuir para o abastecimento dos aquíferos e dos rios. As áreas também ajudam a absorver o excesso de água da chuva.

A conversão para outros usos, dependendo das condições e do manejo, pode envolver drenagem e compactação do solo, reduzindo sua capacidade de absorver água. A pesquisadora descreve esse processo como uma sequência de efeitos que pode comprometer a segurança hídrica.

No Cerrado inteiro, 76,2% da conversão de campos alagados e áreas pantanosas para usos antrópicos ocorreu para pastagem e agricultura. Esse percentual não foi apresentado separadamente para Mato Grosso do Sul.

Cerrado de MS perde mais da metade das áreas alagadas desde 1985

Alto Paraguai – O levantamento também analisou a cobertura vegetal na faixa de até 500 metros dos rios e outros cursos d’água. Na porção da Bacia do Alto Paraguai inserida no Cerrado, a vegetação nativa passou de aproximadamente 2,6 milhões para 1,8 milhão de hectares entre 1985 e 2025.

Bárbara apresenta essa diferença como uma redução aproximada de 800 mil hectares. O recorte inclui áreas de Mato Grosso e Mato Grosso do Sul e não corresponde à bacia inteira nem a um resultado exclusivo de MS.

A pesquisadora destaca que as mudanças no Cerrado podem repercutir em outros biomas. A conexão entre as cabeceiras no planalto e a planície pantaneira torna a conservação dessas áreas relevante para o Pantanal.

O mapeamento de cobertura e uso da terra, entretanto, não demonstra isoladamente quanto dessa perda alterou a vazão dos rios ou contribuiu para uma seca específica. Esses efeitos exigem análises adicionais.

Perda perto dos rios – Em todo o bioma, a redução de vegetação nativa na faixa de até 500 metros dos cursos d’água foi de 13,9 milhões de hectares. Isso representa 26,9% da perda total de cobertura nativa do Cerrado entre 1985 e 2025.

Na faixa de até 30 metros, a vegetação nativa diminuiu 13,9%. Em 2025, pastagem e agricultura ocupavam juntas 18,2% dessa faixa.

As distâncias utilizadas no estudo não equivalem automaticamente aos limites legais das áreas de preservação permanente. Os resultados também não permitem concluir, por si só, que as ocupações sejam irregulares.

Para Bárbara, a conservação deve combinar proteção das nascentes, recuperação de áreas degradadas e conexão entre os remanescentes. Ela aponta o planalto como um possível ponto de partida para proteger as fontes de água, mas ressalta que a restauração da paisagem é necessária em todo o Estado.

Leia também

Últimas Notícias