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sábado, 3 de outubro de 2026

Tráfico leva filhotes, destrói ninhos e ameaça futuro dos papagaios livres em MS

Projeto monitora cavidades, enfrenta saque das aves recém-nascidas e cria novos abrigos para ajudar a espécie

Antes de ganhar o céu, um filhote de papagaio-verdadeiro depende do abrigo de uma árvore e do cuidado dos pais. É nesse começo da vida que o tráfico de filhotes e, às vezes, até ovos, mais acontece. A ação dos traficantes se concentra nos meses de setembro e outubro, enquanto os pequenos estão frágeis e ainda sem penas dentro dos ninhos. No Cerrado e na Mata Atlântica de Mato Grosso do Sul, traficantes arrombaram 75% das cavidades acompanhadas pelo Projeto Papagaio-verdadeiro, vinculado à Fundação Neotrópica do Brasil, segundo dados apresentados pela idealizadora e coordenadora da iniciativa, doutora Gláucia Seixas.

O saqueador retira as aves e danifica os ninhos onde outras gerações poderiam nascer. O levantamento apresentado pela pesquisadora mostra que, de 1.724 cavidades monitoradas, cerca de 1.292 sofreram arrombamentos por traficantes. Algumas foram invadidas de 1 a 5 vezes. Nestas cavidades monitoradas pelo projeto, estima-se que os traficantes roubaram dos ninhos 1.089 filhotes, com aproximadamente 5 a 50 dias de vida.

Os números foram apresentados por Gláucia durante um evento de ConservAÇÃO MS, realizado em Campo Grande. Eles se referem ao acompanhamento nas regiões do Cerrado e da Mata Atlântica de MS, no período de 2016 a 2024, e não representam todos os ninhos da espécie existentes no Estado. Para a pesquisadora, proteger os filhotes também exige preservar as cavidades que os abrigam.

Segundo os dados, esses ninhos, normalmente em palmeiras, têm vida útil média de seis a sete anos, mas os danos provocados pelo arrombamento reduzem sua duração. A destruição do ninho para retirada dos filhotes de papagaio deixa um prejuízo que pode alcançar outras estações reprodutivas. É para enfrentar essa pressão que o projeto percorre áreas de Batayporã, Glória de Dourados, Ivinhema, Itaquiraí, Jateí, Naviraí, Novo Horizonte do Sul e Taquarussu.

Tráfico leva filhotes, destrói ninhos e ameaça futuro dos papagaios livres em MS
Uma das aves mais carismáticas, papagaio-verdadeiro é fotografado em Jateí (. Foto: Projeto Papagaio-verdadeiro)

No início de cada estação, a equipe verifica cerca de 300 a 400 cavidades naturais cadastradas e procura novos abrigos. Depois, o trabalho se concentra nos ninhos ativos, aqueles onde há adultos, ovos ou filhotes. São aproximadamente 150 a 250 cavidades por estação, em um número que muda conforme as condições encontradas pelas aves.

“Este número varia bastante, de ano para ano”, explica Gláucia.

A disponibilidade de alimento, as chuvas e a existência de cavidades estão entre os fatores que influenciam a reprodução dos papagaios. Esses dados de monitoramento se referem apenas aos oito municípios do Cerrado e Mata Atlântica de MS, e não incluem os ninhos acompanhados pelo projeto no Pantanal.

Gláucia explica que a pressão do tráfico se soma à perda de árvores com cavidades, afetadas pela transformação dos ambientes naturais pela ação humana, como agricultura industrial e limpeza de pastagem, ou pelos incêndios florestais. Para uma ave que precisa desses abrigos para se reproduzir, a falta de árvores também limita a possibilidade de criar filhotes.

Tráfico leva filhotes, destrói ninhos e ameaça futuro dos papagaios livres em MS
Papagaio-verdadeiro no alto de galhos secos em Dourados (. Foto: Thiago Silva/ Projeto Papagaio-verdadeiro)

Novos abrigos – Uma das ferramentas do projeto são os ninhos artificiais. Desde 2019, cerca de 450 ninhos foram confeccionados, instalados e monitorados para oferecer novas oportunidades de reprodução. Os resultados apresentados por Gláucia mostram um sucesso reprodutivo de 44% nos ninhos artificiais do Cerrado e da Mata Atlântica, diante de 21% nos naturais dessas regiões. No Pantanal, o sucesso reprodutivo da espécie em ninhos naturais é de 53%.

Segundo a especialista, 40% dos ninhos artificiais disponíveis são ocupados por papagaios-verdadeiros, enquanto outros 40% abrigam cerca de 20 espécies de aves. E neste caso ela costuma dizer "não é verde, mas é vida", pois o projeto está ajudando inúmeras espécies. Durante o monitoramento de todos os ninhos, Gláucia também marca os filhotes com anilhas numeradas.

Na atual estação reprodutiva, ela informou já ter colocado anilhas em aproximadamente 20 filhotes, sendo a maioria nascida em ninhos artificiais. A identificação ajuda a reconhecer a origem das aves, caso sejam encontradas posteriormente, inclusive em apreensões fora de Mato Grosso do Sul.

Enquanto o projeto procura garantir que esses filhotes de papagaios tenham a oportunidade de crescer e voar livremente na natureza, muitos filhotes morrem durante a captura, o transporte ou as etapas posteriores do comércio ilegal. Outros chegam aos centros de triagem e reabilitação, onde começa uma nova tentativa de recuperação.

Uma vida dedicada à espécie – O Projeto Papagaio-verdadeiro nasceu em 1997, durante a experiência de Gláucia no CRAS em Campo Grande, onde recebiam filhotes vítimas do comércio ilegal. O contato com essas aves se transformou em uma paixão, além de missão de vida. Da especialização ao pós-doutorado em Ecologia e Conservação, Gláucia se dedicou a gerar conhecimentos para dar base à conservação e combate ao tráfico da espécie. Ela idealizou e coordena a iniciativa executada pela Fundação Neotrópica do Brasil, instituição que também ajudou a fundar em 1993.

O panorama sobre a espécie foi retratado em um artigo científico publicado em setembro de 2026 na revista Ambiente & Sociedade, assinado por José Rodolfo Wendt-Oliveira, Carla Letícia Gediel Rivero-Wendt, Alexandre de Matos Martins Pereira e Neiva Guedes. Os pesquisadores analisaram 271 relatórios de apreensão da Polícia Militar, do Ibama (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis) e da Polícia Rodoviária Federal, referentes ao período de 2017 a 2021 em Mato Grosso do Sul.

O papagaio-verdadeiro apareceu em 27% dos registros e foi a espécie com maior frequência e quantidade de indivíduos apreendidos. Em 13 das 20 ocorrências com maior número de animais, foram contabilizados 892 papagaios-verdadeiros. O levantamento também identificou concentração das apreensões da espécie no segundo semestre, período que coincide com a pressão sobre os ninhos descrita por Gláucia.

Os registros mostram a parcela do problema alcançada pela fiscalização. Não permitem calcular quantos animais foram retirados da natureza sem serem encontrados.

Uma vida dedicada à espécie – O Projeto Papagaio-verdadeiro nasceu em 1997, durante a experiência de Gláucia no CRAS em Campo Grande, onde recebiam filhotes vítimas do comércio ilegal. O contato com essas aves se transformou em uma paixão, além de missão de vida. Da especialização ao pós doutorado em Ecologia e Conservação, Gláucia se dedicou a gerar conhecimentos para dar base à conservação e combate ao tráfico da espécie. Ela idealizou e coordena a iniciativa executada pela Fundação Neotrópica do Brasil, instituição que também ajudou a fundar em 1993.

O trabalho reúne pesquisa científica, educação ambiental, apoio às políticas públicas e manejo para conservação, com ninhos artificiais. Gláucia orienta as pessoas a não retirarem ou comprarem papagaios nascidos em vida livre, além de denunciar o saque de ninhos e a venda ilegal.

Como ajudar – Interessados em contribuir com o projeto Papagaio-verdadeiro podem fazer doações por meio do Pix (67) 99252-8866. Informações sobre a Campanha Adote um Ninho e seja Amigo(a) dos Louros, ou outras formas de apoio estão nos perfis @projetopapagaioverdadeiro e @fundacaoneotropicabrasil e pelo telefone (67) 99252-8866.

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