26.1 C
Dourados
quinta-feira, 5 de novembro de 2026

Empresas seguem fechadas após investigação de tráfico humano em MS

Justiça Federal mantém suspensão de transportadora e confecção ligadas à Operação Libertad

Empresas de São Paulo (SP) investigadas por suspeita de participação em uma rede de tráfico de migrantes bolivianos estão com as atividades suspensas por determinação da Justiça Federal. A medida atinge uma transportadora e uma confecção ligadas à Operação Libertad, deflagrada pela PF (Polícia Federal) em setembro de 2024.

As investigações identificaram aproximadamente R$ 2,4 milhões em movimentações financeiras envolvendo transporte de passageiros e o setor de confecções. Duas outras empresas conseguiram autorização judicial para retomar as atividades.

As decisões são da 1ª Vara Federal de Corumbá e fazem parte da investigação sobre uma suposta organização criminosa que promovia a entrada irregular de bolivianos no Brasil, pela fronteira de Corumbá, com destino a São Paulo. Segundo a PF, parte dos migrantes era encaminhada para oficinas de costura onde eram submetidos a trabalho em condições análogas à escravidão.

A Justiça mantém a suspensão da Cooperativa de Transporte e Turismo La Tortuga Veloz e da MRM Confecções e Comércio de Roupas. Em contrapartida, autorizou a retomada das atividades da Confecções CR Anderson e da Tatiana Modas, por considerar insuficientes os elementos que vinculavam essas empresas aos crimes investigados.

Dinheiro – Uma das movimentações financeiras que chamaram a atenção dos investigadores envolve uma sócia da MRM Confecções e Comércio de Roupas, que é de nacionalidade boliviana. Segundo relatórios de inteligência financeira mencionados na decisão judicial, ela movimentou R$ 953.155,00 entre agosto e outubro de 2022. Desse total, R$ 468.454,00 correspondem a valores recebidos e R$ 484.701,00 a transferências e outras saídas de recursos.

A Polícia Federal identificou uma incompatibilidade entre a movimentação financeira e a capacidade econômica aparente da investigada. Conforme os documentos, a boliviana não possuía registro profissional ou participação formal em sociedades identificados nas apurações.

Os investigadores também constataram que os valores recebidos eram rapidamente transferidos, em operações fracionadas, para pessoas físicas e jurídicas sem relação comercial aparente. Parte dos destinatários apresentava capacidade financeira considerada incompatível com as quantias movimentadas.

A defesa pediu a revogação da suspensão, alegando prejuízos financeiros e ausência de elementos concretos que vinculassem a empresa ao tráfico de pessoas e à exploração de trabalhadores. O MPF (Ministério Público Federal) não se opôs à retomada das atividades. Mesmo assim, a Justiça manteve a restrição.

Na decisão, o magistrado destacou que a ausência de diligências específicas no endereço da confecção não afastava os indícios financeiros identificados pela investigação.

Segundo o entendimento judicial, a movimentação expressiva em curto período, a fragmentação das operações e a circulação rápida de recursos entre pessoas do setor de confecções justificavam a manutenção da medida para evitar a possível continuidade dos crimes.

Transportadora – Outra frente da investigação envolve a Cooperativa de Transporte e Turismo La Tortuga Veloz, que anunciava viagens entre Porto Quijarro, na Bolívia, e São Paulo, passando pela fronteira de Corumbá. Ela não possuía autorização da ANTT (Agência Nacional de Transportes Terrestres) para realizar transporte coletivo rodoviário.

A análise financeira identificou conexões entre o responsável pela transportadora e outras pessoas e empresas investigadas. Uma delas era a Kadu Turismo, sediada em Corumbá, que recebeu R$ 1.459.505,00 em créditos durante 192 dias, período equivalente a pouco mais de seis meses. Desse montante, R$ 93.334,00 foram enviados pelo responsável pela La Tortuga Veloz, segundo o relatório policial citado na decisão.

Os documentos também apontam outras operações financeiras que alcançam R$ 558.404,00.

Para o MPF, o conjunto dessas operações indica uma circulação contínua e elevada de recursos entre pessoas e empresas investigadas, e não apenas transações comerciais isoladas.

A investigação também identificou anúncios publicados em redes sociais e em um canal de comunicação voltado à comunidade boliviana. Nas publicações, o responsável pela empresa oferecia transporte entre Porto Quijarro e São Paulo e afirmava que garantia a entrada dos passageiros no território brasileiro.

Apesar da manutenção das restrições contra parte das empresas, a Justiça autorizou a retomada das atividades da Confecções CR Anderson e da Tatiana Modas. As provas de possível trabalho análogo ao escravo ou tráfico de pessoas eram frágeis. Entretanto, as investigações em relação a elas continuam.

Operação Libertad – Deflagrada em 24 de setembro de 2024, a operação investigou uma suposta rede de promoção de migração ilegal e tráfico de pessoas que utilizava a fronteira entre Corumbá e Porto Quijarro como ponto de entrada de bolivianos no Brasil.

Na ocasião, a Polícia Federal anunciou 36 mandados de busca e apreensão, 16 medidas cautelares de proibição de deixar o país e a suspensão de atividades econômicas de 26 empresas.

A suspeita era de que os investigados organizavam o transporte de migrantes até São Paulo, onde parte deles poderia ser submetida a condições degradantes de trabalho em oficinas de costura. O caso segue sob sigilo judicial e todas as informações desta reportagem foram publicadas em diário oficial.

Leia também

Últimas Notícias