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sexta-feira, 16 de outubro de 2026

Pesquisador de MS ajuda a recuperar milho sagrado preto dos Avá Guarani no PR

A partir de uma única espiga da semente tradicional, comunidade indígena produziu 60 e retomou cultivo

Uma única espiga de milho preto deu origem a outras 60 e ajudou a recuperar uma tradição agrícola e espiritual dos povos Avá Guarani, no oeste do Paraná. O trabalho, desenvolvido com a participação do pesquisador Alberto Feiden, da Embrapa Pantanal, em Corumbá (MS), permitiu a reintrodução de variedades tradicionais consideradas sagradas, que haviam sido perdidas por comunidades indígenas de Guaíra e Terra Roxa.

As variedades Saboró Branco e Saboró Preto fazem parte do patrimônio alimentar, religioso e cultural dos Avá Guarani. Sua recuperação envolve uma parceria entre comunidades indígenas, pesquisadores e instituições de apoio à agroecologia, com a participação da Embrapa Pantanal e do banco de sementes da escola indígena Jaguapiru, em Dourados (MS).

O trabalho começou a partir de um diagnóstico realizado entre os dias 13 e 15 de setembro de 2023, em 9 aldeias de retomada Avá Guarani no Paraná. A atividade reuniu professores e estudantes do doutorado em Desenvolvimento Rural Sustentável da Unioeste (Universidade Estadual do Oeste do Paraná), entre eles Feiden, que também atua como professor do programa por meio de convênio.

“Essa ação foi uma demanda do Centro de Apoio e Promoção da Agroecologia de Marechal Cândido Rondon, instituição que atua em projetos junto às comunidades indígenas. Durante o diagnóstico, identificamos que as comunidades haviam perdido muitas de suas variedades tradicionais, inclusive milhos de caráter sagrado”, explicou o pesquisador.

A partir dessa constatação, foi iniciado um processo de recuperação e multiplicação das sementes. No caso do Saboró Preto, uma única espiga permitiu a produção de outras 60, posteriormente compartilhadas com mais três agricultores indígenas. Na próxima safra, eles deverão reproduzir a variedade em diferentes períodos e áreas isoladas, reduzindo os riscos de perdas climáticas e de cruzamento com variedades transgênicas.

Para Feiden, o resultado ultrapassa a recuperação de uma cultura agrícola. “Mais do que retomar uma cultura agrícola, o processo representa uma tentativa de reconstruir vínculos entre território, alimentação, espiritualidade e identidade. O cultivo das variedades tradicionais tem apresentado resultados positivos e reforça a importância das sementes para a autonomia das comunidades”, afirmou.

Alimento sagrado

Para os Avá Guarani, o milho tradicional não representa apenas uma fonte de alimentação. As sementes estão associadas a conhecimentos transmitidos entre gerações, cerimônias religiosas e formas ancestrais de preparo dos alimentos.

O Saboró Preto é utilizado no preparo de milho assado, pamonha, rorá, milho cozido, canjica e chicha, alimentos que possuem valor cultural e também fazem parte de práticas espirituais das comunidades.

A perda dessas variedades está relacionada, entre outros fatores, ao deslocamento territorial e às transformações das áreas tradicionalmente ocupadas pelos povos indígenas, que comprometeram a continuidade de práticas agrícolas ancestrais.

“A recuperação das sementes ultrapassa os limites da agricultura. O retorno do Saboró Branco e do Saboró Preto às áreas de cultivo contribui para a retomada de práticas que foram fragilizadas pelo deslocamento das comunidades e pela transformação de seus territórios”, destacou Feiden.

O pesquisador explica que a iniciativa também contribui para a reconstrução do Ñande Reko, expressão guarani que pode ser traduzida como “nosso modo de viver”. O conceito reúne elementos da espiritualidade, da organização comunitária, da relação com a terra e da transmissão de conhecimentos tradicionais.

Cultivo protegido

Uma das principais preocupações do projeto é garantir a preservação das características genéticas das sementes, evitando o cruzamento com variedades comerciais e reduzindo a exposição das lavouras aos agrotóxicos utilizados em propriedades vizinhas.

Para isso, os agricultores escolheram áreas mais baixas das aldeias, onde há maior disponibilidade de umidade e distância das lavouras convencionais.

Segundo Feiden, nenhuma das instituições públicas envolvidas ficou com as sementes. O trabalho foi realizado por meio da articulação entre as próprias comunidades indígenas, responsáveis pela multiplicação e conservação das variedades.

“Nenhuma das instituições públicas teve acesso às sementes, apenas serviram de intermediárias entre as comunidades. A medida busca garantir que as variedades tradicionais mantenham suas características e possam continuar sendo multiplicadas pelos próprios agricultores indígenas”, explicou.

Durante o desenvolvimento da lavoura, não foram observados ataques de pragas. As plantas atingiram entre 1,80 metro e 2 metros de altura, e as espigas colhidas foram armazenadas sem palha, penduradas sobre o fogão, onde a fumaça ajuda na conservação dos grãos.

A técnica faz parte dos conhecimentos tradicionais utilizados pelas comunidades para preservar as sementes entre uma safra e outra.

A próxima etapa prevê a ampliação da produção, com dois plantios em períodos diferentes, no início de setembro e outubro, ambos durante a lua minguante.

Em cada período, serão utilizadas sementes de dez espigas, enquanto outras dez serão mantidas como reserva para reduzir o risco de perda de toda a variedade.

De acordo com o conhecimento tradicional relatado pelos agricultores, o plantio e a colheita durante a lua minguante contribuem para evitar ataques de carunchos durante o armazenamento.

O milho também é cultivado em consórcio com outras espécies, como feijão-de-corda e mandioca. No caso do feijão, as plantas utilizam os pés de milho como suporte, mantendo as vagens afastadas do solo.

Sementes compartilhadas

Além da conservação das variedades, a iniciativa busca fortalecer a autonomia alimentar e a circulação de sementes entre as famílias indígenas.

Segundo o cacique Raúl Medina, da aldeia Tokoha Yvy Raty Porã, a recuperação do milho tradicional também representa a retomada de uma concepção de agricultura baseada na suficiência e na partilha, em vez da produção voltada exclusivamente ao mercado.

“A cultura guarani valoriza a suficiência e a partilha. O milho é cultivado para alimentar a comunidade, não para gerar lucro. Como diz o Caderno Mapa Guarani Continental: nós não vivemos para comprar terra, nós vivemos apenas para usá-la de acordo com nossos costumes”, afirmou a liderança indígena.

A distribuição das espigas entre os agricultores permite que a variedade seja multiplicada em diferentes áreas e, futuramente, compartilhada com outras famílias, formando uma rede comunitária de conservação.

“Ao recuperar uma espiga e transformá-la em dezenas de novas sementes, o agricultor não apenas aumenta a produção. Ele amplia uma rede de compartilhamento. As espigas são distribuídas a outros agricultores, que passam a reproduzir a variedade e poderão repassá-la a novas famílias”, explicou Feiden.

Para o cacique, a importância do trabalho não pode ser medida apenas pela quantidade de milho produzida. As variedades tradicionais carregam significados espirituais e rituais fundamentais para a continuidade da cultura Avá Guarani.

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