O sangue que aparece durante a escovação pode ser tratado como um detalhe da rotina. Mas, quando o sangramento se repete, ignorá-lo significa deixar passar um dos primeiros sinais de inflamação na gengiva. Sem tratamento, o problema pode evoluir para a periodontite, doença que compromete os tecidos de sustentação dos dentes e pode provocar a perda dentária.
O alerta ganha espaço com a proximidade do Dia Nacional da Saúde Bucal, celebrado em 25 de outubro. Em Campo Grande, a chefe da Unidade de Cabeça e Pescoço do Hospital Universitário Maria Aparecida Pedrossian (Humap-UFMS), Rejane Cristina Leite da Fonseca Cerutti, orienta a população a não esperar sentir dor para procurar um dentista.
Segundo a especialista, o sangramento gengival geralmente está relacionado ao acúmulo de placa bacteriana, uma camada de microrganismos que se forma sobre os dentes. A higiene inadequada favorece a permanência desse material, principalmente na linha da gengiva e nos espaços entre os dentes.
Na fase inicial, a inflamação é chamada de gengivite. Quando há progressão para a periodontite, o comprometimento alcança estruturas mais profundas, incluindo o osso que ajuda a manter os dentes firmes. O avanço pode ocorrer sem dor nas primeiras fases, o que torna o acompanhamento odontológico importante mesmo para quem não sente incômodo.
“É importante entender que a boca não está isolada do restante do corpo. Cuidar da gengiva é também cuidar da saúde geral”, afirma Rejane.
Essa relação exige atenção especial de quem tem diabetes. A glicemia descontrolada aumenta o risco de problemas gengivais e dificulta o controle de infecções. No sentido inverso, a doença periodontal pode tornar mais difícil manter o açúcar no sangue nos níveis adequados.
Segundo Rejane, o tratamento envolve a remoção do biofilme bacteriano e do cálculo dental, conhecido como tártaro, para controlar a inflamação. Esse cuidado pode contribuir para melhorar o controle glicêmico, mas não substitui medicamentos, alimentação adequada nem acompanhamento médico.
Também existem associações entre periodontite e doenças cardiovasculares. Isso, porém, não permite afirmar que uma inflamação na gengiva, isoladamente, cause um infarto. A relação de causa e efeito ainda não foi estabelecida, e fatores como tabagismo e alimentação inadequada podem estar presentes nas duas condições.
Cuidado deve fazer parte do pré-natal
Durante a gravidez, as alterações hormonais podem aumentar a resposta inflamatória da gengiva, deixando-a mais sensível, inchada e propensa a sangrar. Por isso, a avaliação odontológica deve integrar os cuidados do pré-natal.
O receio de prejudicar o bebê não deve levar a gestante a adiar um atendimento necessário. Tratamentos odontológicos podem ser realizados durante a gravidez, com avaliação profissional e os cuidados adequados a cada caso.
Estudos associam a doença periodontal a parto prematuro e baixo peso ao nascer, mas essa associação não comprova que a inflamação seja a causa desses desfechos. Também não há evidências consistentes de que tratar a periodontite durante a gestação previna essas complicações. O benefício para a saúde bucal da mulher, entretanto, justifica o cuidado.
Força na escova não significa limpeza melhor
Na rotina de higiene, um dos erros mais comuns é deixar de limpar os espaços entre os dentes. A escova nem sempre alcança essas regiões adequadamente, o que favorece o acúmulo de placa bacteriana.
Outro equívoco é pressionar a escova com força. Segundo Rejane, o excesso pode machucar a gengiva e contribuir para o desgaste dos tecidos dentários. A orientação é usar escova de cerdas macias, fazer movimentos suaves e alcançar todas as superfícies dos dentes.
A escovação deve ocorrer pelo menos duas vezes ao dia, acompanhada da limpeza diária entre os dentes com fio dental ou outro recurso indicado pelo dentista. Enxaguantes bucais não substituem essas etapas.
Mesmo quem mantém bons hábitos precisa de avaliação profissional. A frequência das consultas deve considerar as condições de saúde, os fatores de risco e a necessidade de cada paciente.
Quando procurar atendimento
Além do sangramento frequente, gengiva avermelhada ou inchada, mau hálito persistente, retração gengival, sensibilidade e dentes com mobilidade justificam uma consulta. Pus, dor ou inchaço importante também precisam de atendimento.
Pessoas com diabetes e fumantes devem redobrar a atenção, pois essas condições podem aumentar o risco de doença periodontal ou dificultar seu controle. Feridas que não cicatrizam em aproximadamente duas semanas, manchas persistentes e outras alterações na boca também devem ser examinadas.
Preservar a saúde bucal significa proteger a capacidade de mastigar, falar e se alimentar, além de evitar perdas que afetam a autoestima e a convivência social. O primeiro passo pode estar diante do espelho: perceber o sangramento e procurar orientação antes que a doença avance.

