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sexta-feira, 9 de outubro de 2026

Da padaria ao lazer, onde dá para resolver tudo a pé no bairro?

Moradores aproveitam o comércio de bairro para encurtar rotina, mas ainda apontam falta de infraestrutura

A expansão do comércio e dos serviços para os bairros de Campo Grande mudou a rotina de quem vive longe do Centro. Em algumas regiões, mercados, escolas e opções de lazer ficam a poucos minutos de casa; em outras, ainda faltam serviços e estrutura.

A diferença entre essas realidades ajuda a entender por que alguns moradores conseguem resolver boa parte do dia a dia a pé, enquanto outros ainda dependem de deslocamentos.

Para Letícia Evellen Oliveira, de 31 anos, a resposta é quase sempre sim. Dona de um salão de beleza na Rua Cachoeira do Campo, no Portal Caiobá, e moradora da região do Jardim Pênfigo, ela conta que há tempos não precisa ir ao Centro fazer compras. “Hoje em dia, cada bairro virou um centro. A gente consegue encontrar praticamente tudo perto de casa”, afirma.

O preço também é um atrativo. Letícia cita como exemplo os materiais que usa no salão. “Eu preciso comprar cílios para fazer as extensões. Nas lojinhas de R$ 10 aqui da região, encontro produtos de boa qualidade e por preços bem mais baixos”, relata.

Nas proximidades, ela também tem acesso a lojas de roupas, calçados e outros estabelecimentos, muitos deles a uma curta caminhada. Os três filhos, de 16, 12 e 10 anos, estudam perto de casa e praticamente não frequentam o Centro. Até as visitas ao shopping diminuíram. “Eles conhecem o shopping, já foram, mas hoje compram muito pelo TikTok Shop, Shopee e Mercado Livre. Até as crianças se adaptaram a essa nova maneira de comprar”, diz.

Da padaria ao lazer, onde dá para resolver tudo a pé no bairro?
Letícia Evellen conta que encontra tudo o que precisa perto de casa (. Foto: Victória Costacurta)

Para o lazer, a família aproveita praças, campos de futebol, feiras e atividades gratuitas. Segundo Letícia, há alternativas para crianças, adultos e idosos, sem a necessidade de percorrer grandes distâncias.

Essa concentração de atividades nos bairros também influencia a escolha de onde morar. Segundo o presidente do Secovi-MS (Sindicato da Habitação de Mato Grosso do Sul), Geraldo Paiva, a população tem buscado regiões que permitam resolver as necessidades cotidianas com menos deslocamentos. “Nas cidades modernas, a população tem se concentrado em bairros ou regiões que oferecem serviços, comércio e, se possível, lazer e emprego, reduzindo a necessidade de deslocamento”, explica.

De acordo com Paiva, aproximar moradia, comércio e serviços foi uma das diretrizes consideradas na elaboração do atual Plano Diretor de Campo Grande. Ele também aponta que essa oferta contribui para atrair moradores e valorizar os imóveis.

Da padaria ao lazer, onde dá para resolver tudo a pé no bairro?
Paulo Cézar afirma que dá para resolver quase tudo a pé no bairro onde mora (. Foto: Victória Costacurta)

Dono de uma padaria no Portal Caiobá e morador do Jardim Leblon, o comerciante Paulo Cézar Amaral Schwerz, de 70 anos, percebe essa diferença entre as regiões. Ele estima que consegue resolver cerca de 90% das necessidades na área onde mora. Já no Caiobá, onde trabalha, esse percentual cai para 70%. “No Leblon, na região do Imbirussu, resolvo praticamente tudo. Tem unidade de saúde, atacadista, mercado, lotérica e posto de combustível. Só preciso sair para algum serviço específico, como cartório”, conta.

No Portal Caiobá, porém, ainda faltam algumas estruturas. Entre as principais reclamações dos clientes está a ausência de uma casa lotérica e de um posto de combustível, além da falta de pavimentação e espaços de lazer. “A maior reclamação que ouço é sobre a lotérica, principalmente dos idosos que têm dificuldade com a internet. Recebi a informação de que uma unidade deve ser instalada na Rua Francisco, mas ainda sentimos falta de alguns serviços”, relata.

A poeira nas ruas sem asfalto também incomoda. Segundo Paulo, alguns moradores procuram praças em bairros vizinhos devido à falta de estrutura. “Esses dias, dois moradores comentaram comigo que precisam ir até o Santa Emília porque as praças de lá são melhores. Aqui ainda temos poucas opções de lazer, mas acredito que o bairro vai melhorar”, afirma.

O relato do comerciante mostra que, apesar do avanço do comércio e dos serviços nos bairros, ainda há melhorias necessárias. Segundo Geraldo Paiva, do Secovi-MS, a infraestrutura também influencia a escolha de onde morar e a valorização dos imóveis.

Entre os serviços mais procurados estão escolas, unidades de saúde, mercados e farmácias. Entre os fatores considerados importantes estão abastecimento de água, energia elétrica, rede de esgoto, coleta de lixo, pavimentação, drenagem e acesso ao transporte coletivo.

Apesar das limitações do Caiobá, Paulo diz que é possível fazer boa parte das atividades a pé ou de bicicleta, tanto no bairro onde trabalha quanto no Leblon. O carro, segundo ele, acaba sendo utilizado mais por hábito do que por necessidade. “Dá para fazer a maioria das coisas a pé. A gente sai de carro porque está acostumado”, admite.

Para o comerciante, a expansão dos bairros é um caminho sem volta. “Acredito que o Centro nunca mais vai ser o mesmo, porque o comércio se espalhou e se diversificou. Cada região vai ter seus bairros-polo”, avalia.

A internet também facilita sua rotina, permitindo abastecer a padaria sem precisar sair para comprar mercadorias. “Hoje, o que não encontramos na região, compramos pela internet e recebemos na porta”, completa.

Da padaria ao lazer, onde dá para resolver tudo a pé no bairro?
Marli e o marido preferem frequentar o comércio do próprio bairro e das redondezas (. Foto: Victória Costacurta)

Na padaria de Paulo, a comerciante Marli Alves, de 47 anos, tomava café com o marido, Antônio Severino da Silva, de 59, na manhã desta sexta-feira (9). Moradores do Portal Caiobá há mais de 20 anos, eles costumam dar preferência aos estabelecimentos da vizinhança, seja para tomar café, almoçar fora ou sair à noite. Quase todos esses trajetos são feitos a pé.

“A maioria das coisas que a gente faz é aqui no bairro mesmo. Viemos tomar café na padaria, temos um ótimo restaurante ali na Vila Fernanda e, quando queremos sair à noite, procuramos uma pizzaria por aqui. O bairro supre muito as nossas necessidades”, afirma.

Marli também faz questão de valorizar os comerciantes da região. “Tem que ser assim, um ajudando o outro”, comenta. Apesar da praticidade, ela reconhece que ainda faltam espaços de lazer para adultos e crianças. Algumas alternativas ficam no vizinho Santa Emília, onde a família também consegue chegar caminhando.

Sobre a falta de asfalto apontada pelo comerciante Paulo Cézar, algumas ruas do Portal Caiobá já estão incluídas no cronograma de pavimentação.

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