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segunda-feira, 12 de outubro de 2026

Mulheres descobrem liberdade de viver sem medo após escaparem da violência

Em Campo Grande, acolhimento e orientação ajudam a recuperar autoestima e buscar autonomia financeira

Olhar no espelho foi uma conquista para Maria, de 59 anos, que, após uma vida marcada por humilhações e violência, conta ter aprendido a reconhecer o próprio valor e a se enxergar com um respeito que por muito tempo lhe foi negado.

Com a identidade preservada, ela encontra acolhimento no Instituto Aciesp (Instituto de Apoio, Capacitação, Instrução e Economia Solidária do Povo), em Campo Grande, onde diz ter recuperado a disposição de olhar para si e afirmar “Epa, eu existo. Eu existo”.

Sem emprego formal, ela trabalha quando aparece uma diária e recebe doações de conhecidos para atravessar os períodos sem serviço e renda fixa. Ainda assim, quando perguntada sobre a vida atual, responde sem hesitar que “é a melhor fase da minha vida agora.”

Ao receber um elogio pelo vestido, compara o presente com os anos em que vivia com o marido. “Quando que eu andava assim? Quando? Nunca”, afirma.

A tranquilidade que descreve está relacionada ao fato de estar morando sozinha. Em seu último relacionamento, afirma que era humilhada e, quando o marido estava alcoolizado, ela precisava procurar uma vizinha e pedir um lugar para dormir, quando voltava do trabalho, pois era impedida de entrar em casa.

Hoje, as contas continuam chegando, o trabalho é incerto, mas ela diz ter recuperado o sossego. Ao contar sobre os anos de violência, ela faz um alerta.

“Ela não tem carteira assinada, ela não tem um canto para morar, ela não tem nada para chamar dela”. Em seguida, reconhece: “Esse é o meu caso”.

Mulheres descobrem liberdade de viver sem medo após escaparem da violência
Ceureci Fátima Santiago Ramos, fundadora e presidente do Instituto Aciesp (. Foto: Inara Silva)

Uma história que leva a outras – Enquanto a reportagem estava no Instituto Aciesp, outra mulher recebia acompanhamento. Aos 42 anos, ela enfrenta as consequências de uma relação marcada por violência e isolamento, que resultou numa significativa perda de patrimônio.

Conforme Ceureci Fátima Santiago Ramos, fundadora e presidente da instituição, a organização auxilia na busca por apoio e no acompanhamento do caso que está em andamento na Justiça.

Ceureci conhece bem os desafios das vítimas. Foram 19 anos no ciclo da violência até compreender que precisava se afastar do agressor para não morrer. Ela própria afirma que sobreviveu a uma tentativa de feminicídio que o primeiro marido cometeu, diante dos 3 filhos. Durante sua internação, a principal preocupação era voltar para casa e poder criá-los.

Segundo ela, foi a fé que sustentou sua recuperação e resultou na promessa de ajudar outras mulheres vítimas de violência. Conforme a fundadora, a Aciesp começou a nascer quando ela retornou ao trabalho. “A ONG não foi planejada. Ela foi acontecendo.”

Entre 2008 e 2009, passou a organizar cursos e atendimentos psicológicos e jurídicos na própria casa, com apoio de parceiros. A procura cresceu, assim como a necessidade de oferecer condições para que as mulheres pudessem se sustentar após o trauma. Por isso, a qualificação profissional e o encaminhamento ao mercado de trabalho passaram a integrar o apoio.

Sua experiência também influenciou a escolha do nome da organização. Ceureci afirma que não queria que o local identificasse imediatamente as frequentadoras como vítimas de violência, pois, segundo ela, a vergonha e o receio de ser julgada podem dificultar a busca por ajuda, sobretudo quando o companheiro mantém, diante de amigos e familiares, uma imagem diferente daquela que apresenta dentro de casa.

“Quando a gente fala o que está passando, as pessoas acham que a gente está mentindo”, afirma.

Escuta e caminhos possíveis – A assistente social Rosilene dos Santos explica que o atendimento no local começa pela escuta. Ela trabalha na acolhida às mulheres, identifica suas necessidades e faz encaminhamentos para a rede de apoio, que inclui serviços de assistência social, Ministério Público, delegacias e Defensoria.

A instituição também oferece orientação jurídica e atendimento psicológico. Segundo Rosilene, as mulheres saem do acolhimento com consulta marcada ou, quando necessário e possível, são atendidas imediatamente pela psicóloga. Há ainda encaminhamento ao mercado de trabalho para aquelas que desejam e precisam.

Segundo Ceureci, o Instituto atende também filhos, mães e outras pessoas próximas das vítimas que também podem precisar de acompanhamento diante da violência vivida. Atualmente, a instituição atende 65 pessoas com 60 anos ou mais, nove entre 17 e 59 anos e 60 crianças, incluindo as participantes das aulas de balé. Também mantém atendimento a 40 mulheres e seus familiares.

O Instituto Aciesp está localizado na Rua Inocência M. dos Santos, 45, no bairro Aero Rancho, na Capital. Os serviços podem ser conferidos também pelo perfil no Instagram ou pelo telefone (67) 99220-2525.

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