A conscientização sobre o que são construções sustentáveis e sobre a importância de fazê-las cresceu no Brasil e no mundo, apontou a edição 2026 da pesquisa Barômetro da Construção Sustentável, realizada pela empresa Saint-Gobain. O estudo apontou que o principal desafio para uma maior adoção de modelos positivos para o meio ambiente e para enfrentar as mudanças climáticas é demonstrar o retorno sobre o investimento.
O levantamento ouviu 34,8 mil pessoas envolvidas com o mercado de construção, entre arquitetos, empreiteiros, bancos, seguradoras e clientes em 30 países. No total, foram 4,8 mil profissionais do setor e 30 mil cidadãos. Na América Latina, além do Brasil, os participantes foram México, Argentina e Colômbia.
A América Latina se mostra como a região do globo mais atenta às questões climáticas. Entre os respondentes latinos, 76% considera que a sustentabilidade nas construções é uma prioridade. A Europa foi o continente menos incisivo na questão (59% acreditam que é prioridade, uma queda de seis pontos percentuais em relação ao ano anterior).
No Brasil, 76% disseram que utilizar princípios sustentáveis para realizar construções é fundamental, abaixo de México e Colômbia (82%), mas acima da Argentina (65%). Além disso, 64% dos brasileiros que são partes interessadas no mercado da construção afirmaram que sabem exatamente o que é construção sustentável. Entre clientes comuns, 48% consideram saber e 44% relataram já terem ouvido falar sobre o tema, mas não saber do que se trata.
Fundada em 1665 para produzir vidros, a Saint-Gobain, posteriormente, estendeu a atuação para outros materiais de construção. Presente no Brasil desde 1937, é dona de marcas como Brasilit, Quartzolit, Placo, Tek Bond, Telhanorte e Tumelero.
No Brasil, a Saint-Gobain conta com 56 plantas industriais, 66 lojas e o único centro de pesquisa e desenvolvimento da companhia no hemisfério Sul – outros sete estão em outros locais. No mundo todo, a multinacional está presente em mais de 80 países. A pesquisa é parte do trabalho da multinacional em tentar educar e liderar o mercado em prol da evolução sustentável do setor.
“No Brasil, pelo tamanho do mercado e pelos investimentos recentes em sustentabilidade, temos uma liderança notória. Mas há questões que variam de país para país, como cultura, modelos construtivos, clima e vegetação”, destaca Vinícius Araújo, diretor-sênior de Estratégia e Marketing Brasil da Saint-Gobain.
“A construção sustentável brasileira precisa combinar simultaneamente três agendas: inclusão social, qualidade urbana e descarbonização. Essa abordagem é compatível com os compromissos assumidos pelo país na COP-30 e com a visão atualmente defendida de que não existe sustentabilidade sem acesso à moradia adequada, cidades resilientes e desenvolvimento social”, avalia Augusto Rabelo, secretário nacional de Habitação, do Ministério das Cidades.
O ministério relata que tenta incluir critérios sustentáveis em programas como o Minha Casa, Minha Vida (MCMV) e a integrar os atores da cadeia, com principal instrumento sendo o Programa Brasileiro da Qualidade e Produtividade do Habitat (PBQP-H), que reúne empresas, entidades técnicas, universidades, laboratórios, fabricantes e gestores públicos para capacitação e aprimoramento tecnológico, e o RENOVAH, um acordo de cooperação técnica entre o ministério, associações setoriais e uma rede de laboratórios e centros tecnológicos, para pesquisar inovações e soluções de baixo carbono, entre outros temas.
Para Manuel Martins, coordenador executivo da certificação de sustentabilidade na construção civil AQUA-HQE, da Fundação Vanzolini, criada por professores do Departamento de Engenharia de Produção da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo, o estudo mostra que se as pessoas conhecem o conceito, ainda não o aplicam sempre — mas terão que fazê-lo por necessidade.
“A pesquisa mostra que a construção sustentável se consolidou como conceito, mas ainda não está integrada de forma sistemática aos processos de projeto, financiamento, contratação e avaliação de desempenho das obras e da construção em uso, ao longo de todo o seu ciclo de vida. Como os empreendimentos tanto podem causar impactos quanto sofrer as consequências das mudanças climáticas, a necessidade de resiliência cresce como impulsionador, indo além da eficiência energética e da redução de emissões”, avalia.
“Uma tendência que o estudo mostra e que já temos observado por retorno dos empreendedores é o desejo de melhor qualidade de vida, que nos empreendimentos sustentáveis se efetiva, por exemplo com a iluminação e ventilação naturais e artificiais de qualidade, com o melhor isolamento dos ruídos externos, com temperaturas mais agradáveis no interior dos imóveis. Outro ponto, é a importância da resiliência climática, face aos extremos de calor, chuvas, secas e enchentes, cada vez mais frequentes”, analisa Martins.
No Brasil, entre as pessoas do mercado da construção entrevistadas, apenas 35% considera que as construções sustentáveis geram mais valor que as tradicionais, resultado abaixo da média global de 47%. No País, 25% consideram que gera o mesmo valor e 31% que gera menos valor. Por isso, os autores da pesquisa sugerem que as principais ações para popularizar a sustentabilidade são:
– Tornar os benefícios tangíveis; – Garantir um bom desempenho para os usuários; – Tornar a competitividade econômica das soluções algo objetivo; – Tornar o desempenho sustentável das construções mais visível e transparente; – Tornar mais competitivos materiais, produtos e soluções sustentáveis. De acordo com o relatório, os custos de tornar uma construção sustentável são imediatos, visíveis e concentrados nas fases iniciais das obras, enquanto os benefícios (redução de perdas futuras, continuidade dos negócios ao resistir a eventos climáticos, preservação do valor) virão apenas depois de algum tempo, como anos ou décadas, e podem ser indiretos. Por isso, é mais difícil calcular a adaptação e a resiliência em modelos financeiros, análises de crédito ou decisões de investimento.
“Podemos relacionar algumas características favoráveis no Brasil, como: matriz elétrica mais renovável; clima favorável para soluções bioclimáticas; experiência crescente com certificações de construções e planejamento urbano sustentáveis, avaliações de desempenho com foco em economia de energia e na etiquetagem de eficiência energética”, menciona Martins.
Quem vai bancar?
O estudo reforça o papel de seguradoras e bancos, já que as instituições financeiras podem utilizar critérios sustentáveis na análise de crédito, como forma de obrigar o mercado a levar esse fator em conta.
Entre as possíveis ações dessas partes, aparecem uma melhor precificação dos riscos físicos trazidos pelo aquecimento global e de eventos extremos, o desenvolvimento de referências e padrões mais operacionais, estruturação de instrumentos financeiros adaptados e uma integração da resiliência nas avaliações de projetos e portfólios.
“No Brasil, temos um trabalho muito forte em normais técnicas mas precisamos pensar em passos diferentes em financiamento. Estamos na direção correta, construindo em padrões que atendem a normas, e a partir daí tem pontos positivos para que a seguradora vá se apropriando disso e trazendo pacotes de benefícios diferenciados”, cita Araújo, da Saint-Gobain.
Entre os cidadãos comuns, a ação vista como mais prioritária para levar a um crescimento na sustentabilidade nas construções é tornar o desempenho sustentável delas mais visível e transparente (41%) e sensibilizar o público para os desafios (34%).
Entre as partes diretamente interessadas no mercado, “sensibilizar os stakeholders e fortalecer a união entre eles” é visto como mais importante (41%) e tornar o desempenho sustentável mais aparente está em segundo lugar (38%).
“Na Secretaria Nacional de Habitação, estamos realizando estudos com o intuito de consolidar as diretrizes de responsabilidade socioambiental e climática, já observadas nas diversas linhas de atendimento do MCMV”, menciona Rabelo, do ministério.
Entre possíveis ações ainda a realizar, o secretário menciona ampliar a assistência técnica e a capacitação de estados e municípios, incentivar a inovação tecnológica e a industrialização da construção e integrar políticas habitacionais, urbanas, climáticas e de desenvolvimento econômico. Outro ponto seria consolidar indicadores que permitam mensurar resultados ambientais, sociais e econômicos das soluções adotadas.

