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domingo, 18 de outubro de 2026

Mostra 2026: ‘Minotauro’, o labirinto do poder e notas sobre outros filmes

Mostra 2026: 'Minotauro' e o labirinto do poder

Quem assiste a Minotauro, novo opus de Andrey Zvyagintsev, torna-se mais exigente. O sarrafo sobe a alturas estratosféricas com este drama conjugal e político inspirado em A Mulher Infiel, thriller de 1969 de um dos grandes nomes da nouvelle vague francesa, o gourmet Claude Chabrol.

Diferentemente da província francesa de Chabrol, em Minotauro estamos na Rússia capitalista de 2022, chefiada pelo eterno presidente Vladimir Putin.

Numa dacha cinematográfica, próxima a uma cidade indefinida, mora uma família privilegiada. Gleb (Dmitri Mazourov) é o próspero dono de uma empresa de transportes. Vive com sua linda mulher, Galina (Iris Lebedeva) e seu filho Serioja (Boris Koudrine).

Uma vida de sonho, não fossem algumas dissonâncias. Galina é uma mulher insatisfeita, e, à maneira de uma Bovary russa, o tédio a leva a ter um amante. No plano coletivo, Putin precisa de "voluntários" para sua invasão da Ucrânia e os recruta em empresas particulares – como as de Gleb.

Ao ver ruir sua vida pessoal, Gleb decide agir e conhecer o amante de sua mulher. No plano social, sua decisão é fazer uma espécie de recrutamento fantasma de mão-de-obra, com o único fim de fornecer carne de canhão para as ações do seu belicoso presidente. A decomposição moral de Gleb, portanto, age por dois caminhos diferentes e complementares.

Minotauro é um desses raros filmes que conseguem fazer a síntese entre o pessoal e o político num todo sem costuras expostas. Uma coisa leva à outra e vidas humanas não se dividem em compartimentos, como às vezes indicam filmes menores.

Uma mise-en-scène perfeita, fria em seu registro fotográfico, intensa nas ações dos personagens principais, faz desse filme ambicioso um dos melhores que bateram nas telas ultimamente.

No rigor da direção de Zvyagintsev, a própria casa de luxo do empresário, toda envidraçada, com seus personagens refletidos e duplicados, sugere o labirinto e seu Minotauro. O ser da mitologia grega, meio homem meio touro, vive em seu labirinto, nutrido por oferendas de carne humana. Como ele, também é o Minotauro do poder, com sua rede de pressões e cumplicidades que garantem a quantidade de carne humana para alimentar a fera do poder. O monstro mitológico é uma metáfora perfeita para os poderes que estruturam a sociedade – do poder local de um empresário rico, acostumado a subordinar os outros às suas vontades, ao poder central e suas razões de Estado, que podem incluir uma guerra cruenta como estratégia de sobrevivência.

Dado como vencedor moral em Cannes, Minotauro recebeu, de consolação, o Grande Prêmio do Júri. E agora, apesar de diretor, elenco, idioma e temática serem russos, foi escolhido pela França para representá-la na corrida pelo Oscar de filme internacional. As regras permitem, já que a produção é em grande parte francesa, mas ainda assim a escolha parece meio bizarra.

Horários

21/10

18:00

CULTURA ARTÍSTICA

24/10

21:15

CINE BELAS ARTES SL 1 LEON CAKOFF

25/10

21:10

RESERVA CULTURAL – SALA 2

classificação indicativa

16 anos

Notas sobre outros filmes

Uma DR com a guerra batendo à porta

Também tendo a guerra na Ucrânia como pano de fundo, há a boa comédia Como se Divorciar Durante a Guerra, da Lituânia. Dirigida por Andrius Blazevicius, põe em cena um casal em vias de separação justo no clima de paranoia no país instaurado pela invasão da Rússia à Ucrânia.

O marido, Vytas, é um cineasta fracassado que, sem fonte de renda, ocupa-se dos trabalhos domésticos. Quem traz dinheiro para a casa é Marija, uma executiva de sucesso que está tendo um caso com uma colega de trabalho.

A história evolui por meio de episódios, uns mais interessantes que outros. Expulso de casa, Vytas vai morar com os pais, que, ao contrário dele, são russófilos de carteirinha. Conflitos à vista.

Vytas encontra alternativas como a do ativismo contra a guerra. Enquanto isso, Marija decide acolher refugiados ucraniamos em sua casa, o que provoca não poucos conflitos com ela, sua filha e sua nova companheira.

Atento a temas contemporâneos, queer e de gênero, além da questão política de uma guerra que bate às portas do país, o filme é uma diversão moderada, crítica e bem conduzida. Nada além disso e nem aquém.

horários de exibição

17/10

15:45

ESPAÇO PETROBRAS DE CINEMA SALA 3

20/10

21:45

RESERVA CULTURAL – SALA 1

24/10

14:30

SOLAR SALA PETROBRAS

27/10

19:40

CINESYSTEM BELAS ARTES FREI CANECA 2

Nino e o bálsamo da música num mundo louco

Para aliviar esse clima de guerra, nada como as quase duas horas de encantamento de Nino – um filme sobre Nino Rota, de Walter Fasano, que acompanha a trajetória desse que foi um nome indissociável do de Federico Fellini e responsável por trilhas sonoras de filmes inesquecíveis, como os do próprio Fellini, Luchino Visconti, Franco Zefirelli e Francis Ford Coppola, entre outros.

Narrado por Sting e com comentários de gente como a mitológica roteirista Suso Cecchi d'Amico, o doc trata da longa trajetória desse músico nascido em Milão e durante muitos anos radicado no sul da Itália. Compôs as trilhas de todos os filmes de Fellini, de Abismo de um Sonho (1952) a Ensaio de Orquestra (1979). Essa parceria foi desfeita apenas com a morte de Nino, em 1979.

O filme tem o mérito de trazer à luz a obra não cinematográfica de Nino, que compreende música sinfônica, óperas e outras peças orquestrais. Aliás, ele declara que de toda a sua extensa obra, a preferida é uma ópera de 1968, Aladim e a Lâmpada Maravilhosa.

Alguns perrengues da vida de Rota são trazidos à luz. Um deles, quando o Oscar pela trilha sonora de O Poderoso Chefão foi revogado, pelo motivo de a música já ter sido utilizada em outro filme – Fortunella, de 1958, estrelado por ninguém menos que Giulietta Masina, mulher de Fellini. No entanto, a mesmíssima música recebeu o Oscar em 1974 pela segunda parte de O Chefão, quando Nino dividiu a estatueta com Carmine Coppola, pai do diretor.

Quem também dá um pungente depoimento é Nina, filha norte-americana de Nino Rota, que a conheceu já adulta.

Questões pessoais à parte, fica do filme a celebração do enorme talento de Rota, compositor de músicas aparentemente fáceis, que seduziam o público, apesar de sua estrutura musical muito sofisticada. Como seu amigo Fellini, Nino sabia fazer o profundo soar como simples. Por isso foram parceiros ideais.

Horários

Out 17 (Sáb) – 13:30

CINESYSTEM FREI CANECA 3

Out 18 (Dom) – 21:15

CINESYSTEM FREI CANECA 4

Out 22 (Qui) – 16:30

ESPAÇO PETROBRAS DE CINEMA SALA 1

Out 24 (Sáb) – 12:00

SOLAR SALA PETROBRAS

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