A Feserp-MS (Federação Sindical dos Servidores Públicos Estaduais e Municipais de Mato Grosso do Sul) quer negociar com o Governo do Estado uma alternativa para o pagamento das dívidas de servidores públicos com o Banco Master, por meio de parcelamentos com prazo definido para quitação e cobrança preferencialmente fora da folha salarial. A proposta inclui a criação de um balcão de negociação na sede da entidade, com acompanhamento jurídico individualizado dos contratos, para evitar que os trabalhadores continuem pagando mensalmente sem conseguir encerrar os débitos.
A iniciativa ocorre após a suspensão dos descontos do Credcesta nos contracheques dos servidores estaduais. Segundo a presidente da federação, Lilian Fernandes, a entidade já encaminhou um novo ofício ao Governo solicitando uma reunião com a SAD (Secretaria de Estado de Administração) para discutir como será feita a renegociação.
A principal preocupação é com a modalidade de cobrança adotada nos contratos de cartão consignado. Conforme Lilian, muitos servidores recebiam um valor em dinheiro e passavam a sofrer descontos mensais correspondentes ao pagamento mínimo do cartão. Com isso, afirma, a dívida permanecia ativa por tempo indeterminado, acrescida de juros. "Do jeito que estava, era uma dívida eterna, além dos juros abusivos", afirmou a presidente.
A proposta da federação é substituir esse modelo por um parcelamento que permita ao servidor saber exatamente quanto deve, quantas prestações terá de pagar e quando conseguirá quitar o débito.
"Vamos tentar uma negociação separada, parcelada, mas um parcelamento que acabe, que o servidor vai lá e fala assim: 'Eu vou parcelar em 12 vezes, mas minha dívida vai acabar'", explicou Lilian.
Negociação fora da folha
A Feserp também defende que os pagamentos sejam realizados por boleto bancário ou outro mecanismo que não envolva descontos automáticos nos contracheques. Para a entidade, a medida permitiria maior controle dos valores pagos e facilitaria a conferência da evolução das dívidas.
Segundo Lilian, a intenção não é deixar de pagar os empréstimos, mas garantir condições para que os servidores consigam quitar os contratos sem comprometer indefinidamente parte dos salários. "E de preferência, que seja em boleto, que seja fora da folha, porque a folha faz com que eles sejam reféns", declarou.
A federação pretende disponibilizar sua estrutura física e jurídica para acompanhar as negociações. A proposta é que cada contrato seja analisado individualmente, com identificação do saldo devedor, das taxas cobradas e das possibilidades de parcelamento.
A medida também busca enfrentar outra dificuldade relatada pelos servidores: a falta de canais de atendimento para obter informações sobre os contratos e negociar diretamente com os responsáveis pelas cobranças.
Segundo a presidente, alguns trabalhadores sequer conseguem contato com as instituições para consultar o valor atualizado da dívida. "Na verdade, eles não têm telefone mais para ligar. O servidor não tem nem para quem ligar para dizer: 'Olha, eu quero parcelar minha dívida'", relatou.
Ainda não há definição sobre quem ficará responsável pelas negociações dos créditos vinculados ao Banco Master, instituição que entrou em liquidação extrajudicial em novembro de 2025. A proposta da federação também depende de entendimento com os responsáveis pelos contratos, já que o Governo do Estado atua na administração dos descontos em folha, mas não é o credor das operações.
Descontos seguem suspensos
Os descontos relacionados ao Credcesta deixaram de aparecer na folha dos servidores estaduais referente a agosto. Na ocasião, a SAD informou ao Campo Grande News que a interrupção ocorreu porque a PKL One Participações, responsável pelo registro das consignações vinculadas ao Banco Master, deixou de manter contrato com a empresa terceirizada que opera o sistema estadual de consignados.
A suspensão, entretanto, não significou o cancelamento dos débitos. As obrigações assumidas pelos servidores permanecem existentes, embora os valores tenham deixado de ser descontados automaticamente dos salários.
Agora, conforme Lilian, o Governo sinalizou que as cobranças não serão retomadas antes de uma reunião com a federação para discutir o assunto.
"A gente tem essa garantia do governo que esse desconto não retornará até essa reunião com a SAD que a gente pediu, com o secretário de Administração, para que a gente defina uma forma de parcelamento", afirmou.
A presidente explicou que a federação mantém tratativas administrativas com o Governo desde novembro de 2025, quando ocorreu a liquidação do Banco Master. A entidade questiona se as instituições ligadas à operação ainda cumprem os requisitos exigidos para atuar no sistema de consignações do Estado.
Além das reuniões, a Feserp ingressou com uma ação judicial para tentar suspender os descontos. O processo, no entanto, foi extinto em primeira instância, sem análise do mérito, depois que a Justiça entendeu que a federação não tinha legitimidade para representar judicialmente todos os servidores atingidos. A entidade recorreu da decisão.
A federação pretende ampliar as negociações para contratos vinculados ao BMG e ao Daycoval, instituições que também oferecem modalidades de crédito consignado aos servidores.
Segundo Lilian, o objetivo é buscar mecanismos que impeçam a continuidade de cobranças sem perspectiva clara de quitação e permitam a renegociação dos débitos em condições compatíveis com a renda dos trabalhadores. "Nosso objetivo não é impedir que os servidores cumpram suas obrigações financeiras, mas assegurar que tenham condições reais de pagar suas dívidas, sem comprometer indefinidamente sua renda e sua dignidade", informou a entidade em comunicado.
A situação é diferente na Prefeitura de Campo Grande. Conforme a presidente da Feserp, os servidores municipais continuam sofrendo descontos relacionados ao Credcesta, apesar das tentativas da federação de conseguir a suspensão administrativa e judicial das cobranças.
Em setembro, o Campo Grande News já havia mostrado que o problema dos consignados vinha provocando uma multiplicação de ações judiciais em Mato Grosso do Sul. Levantamento apontou mais de mil processos envolvendo o Banco Master e a PKL One, incluindo pedidos de revisão contratual e questionamentos sobre cobranças consideradas abusivas pelos autores.
Por enquanto, a proposta de parcelamento apresentada pela Feserp ainda não tem data para começar a funcionar. Também não foram divulgadas condições de renegociação, taxas de juros ou prazos que poderão ser oferecidos aos servidores.
A entidade aguarda a reunião com a SAD para avançar na discussão e definir como poderá funcionar o balcão de atendimento aos trabalhadores endividados.

