26 C
Dourados
quarta-feira, 21 de outubro de 2026

Castrar ou não castrar o gato? O que a ciência já sabe sobre os benefícios e riscos da castração em felinos?

Embora ajude a prevenir a reprodução indesejada e algumas doenças, a cirurgia também provoca mudanças hormonais e metabólicas que podem afetar a saúde dos felinos. Especialistas explicam o que considerar antes de tomar a decisão e por que a idade do procedimento merece atenção.

Durante muito tempo, a castração de cães e gatos foi apresentada quase como uma regra: castrar é um ato de amor, faz bem para a saúde e ainda resolve alguns problemas de comportamento. Mas será que a história é tão simples assim?

Quando falamos de gatos, a resposta é não. Embora a castração tenha benefícios importantes, especialmente para o controle reprodutivo e a prevenção de determinadas doenças, retirar os testículos ou os ovários de um animal também significa interferir em um sistema hormonal que participa de diferentes funções do organismo. E as consequências podem ir muito além da reprodução.

A médica-veterinária Liege Garcia, especialista em reprodução animal, chama a atenção para um detalhe importante: ainda sabemos menos sobre os efeitos da castração em gatos do que gostaríamos.

Diferentemente do que acontece com os cães, para os quais existem pesquisas envolvendo grandes populações, os estudos sobre castração em felinos ainda são relativamente escassos, muitas vezes realizados com um número limitado de animais e nem sempre apresentam resultados concordantes.

Isso não significa que a castração seja ruim ou que deva ser evitada. Significa que precisamos abandonar a ideia de que existe uma única resposta para todos os gatos.

Afinal, qual é a melhor idade para castrar um gato?

Essa talvez seja uma das questões mais interessantes, e controversas, quando falamos de castração.

Tradicionalmente, muitos gatos são castrados ainda filhotes, frequentemente antes dos seis meses de idade, especialmente para evitar a reprodução indesejada. Em abrigos e programas de controle populacional, a castração precoce também pode ser uma estratégia importante para impedir novas ninhadas. Mas, quando o assunto é o desenvolvimento físico e metabólico do animal, a idade pode fazer diferença.

Segundo Liege, estudos indicam que gatos castrados a partir dos sete meses tendem a apresentar menor ganho de peso após a cirurgia e a ser mais leves na idade adulta do que aqueles castrados antes dos seis meses. "Pensando no ganho de peso e no risco de obesidade, essa nota de corte de sete meses é o ideal", explica a veterinária.

Ela acrescenta que, quando as condições de vida do animal permitem, esperar até aproximadamente 10 a 12 meses pode ser interessante para favorecer o desenvolvimento geral, especialmente o osteoarticular e muscular, algo que merece atenção em gatos de raças de grande porte.

Isso não quer dizer, entretanto, que todos os gatos devam obrigatoriamente esperar até completar um ano para serem castrados. A possibilidade de reprodução, o acesso à rua, a convivência com outros animais, o sexo e as condições individuais precisam entrar nessa conta.

Há ainda uma questão importante: a idade que pode ser interessante do ponto de vista metabólico não é necessariamente aquela que oferece a maior proteção contra determinadas doenças.

E é justamente aí que a decisão começa a ficar mais complexa.

Castração e câncer de mama: quanto mais cedo, melhor?

Ainda estamos no outubro rosa e precisamos falar sobre esse tema. Nas gatas, a prevenção de tumores mamários é um dos argumentos mais importantes a favor da castração precoce.

E não é para menos. Diferentemente do que ocorre nas cadelas, nas quais aproximadamente metade dos tumores mamários é maligna, nas gatas essa proporção é muito maior. Estimativas apontam que cerca de 85% a 95% dos tumores mamários felinos são malignos.

Um estudo publicado em 2005 no Journal of Veterinary Internal Medicine, que avaliou 404 gatas, encontrou uma redução de 91% no risco de carcinoma mamário entre aquelas castradas antes dos seis meses e de 86% entre as castradas antes de um ano, em comparação com gatas não castradas.

Esses números ajudam a explicar por que a castração precoce é frequentemente recomendada para fêmeas.

Segundo a médica-veterinária Mayara Andrade, da Biofresh, marca Super Premium Natural da MBRF Pet, a explicação está relacionada à exposição aos hormônios sexuais.

"A castração reduz a exposição aos hormônios ovarianos, que estão envolvidos no desenvolvimento do tecido mamário. Estudos indicam que o procedimento pode diminuir significativamente o risco de tumores mamários, especialmente quando realizado precocemente. Contudo, a decisão sobre o melhor momento deve ser individualizada, considerando a saúde e o desenvolvimento de cada gata", explica.

Mas é preciso interpretar esses resultados com cuidado.

Uma revisão publicada em 2025 apontou limitações nas evidências disponíveis e reforçou que ainda não é possível estabelecer uma idade universalmente ideal para a castração com base exclusivamente na prevenção do câncer mamário.

Portanto, temos dois aspectos que precisam ser ponderados: por um lado, a proteção contra tumores mamários parece ser maior quando a castração é realizada precocemente; por outro, existem possíveis benefícios metabólicos em esperar um pouco mais.

É por isso que a decisão deve ser individualizada, especialmente no caso das fêmeas.

E vale lembrar: castrar não elimina completamente o risco de câncer de mama. Mesmo gatas castradas precisam de acompanhamento veterinário, e qualquer nódulo ou alteração nas mamas deve ser investigado.

O que acontece com os hormônios depois da castração?

Para entender os possíveis efeitos da castração, precisamos lembrar que os hormônios sexuais não servem apenas para a reprodução. Testosterona, estrógenos e progesterona participam de diferentes processos fisiológicos, incluindo a regulação do metabolismo e do comportamento.

Quando os testículos ou os ovários são removidos, ocorre uma mudança importante no equilíbrio hormonal do organismo.

Liege explica que, além da redução dos hormônios produzidos pelas gônadas, a castração também provoca alterações em outros hormônios, como o LH, ou hormônio luteinizante, cujas concentrações podem permanecer acima dos níveis fisiológicos.

Em cães, algumas associações entre essas alterações e determinadas doenças já foram estudadas. Nos gatos, entretanto, ainda faltam pesquisas para compreender suas possíveis consequências clínicas.

O que sabemos com mais segurança é que a castração pode alterar o apetite, a ingestão alimentar e as necessidades energéticas dos felinos. E esse é um assunto que merece bastante atenção.

Por que tantos gatos engordam depois da castração?

Quem convive com gatos provavelmente conhece pelo menos um que ganhou alguns quilinhos depois de ser castrado. Eu conheço um bem de perto: o Doritos, meu gato.

Castrar ou não castrar o gato? O que a ciência já sabe sobre os benefícios e riscos da castração em felinos?
Doritos, meu gato obeso em dieta. Foto: Luiza Cervenka

Doritos foi castrado aos 12 meses, quando estava dentro do peso considerado adequado. Depois da cirurgia, entretanto, começou a ganhar peso e acabou desenvolvendo obesidade.

Hoje, aos 10 anos, ele precisa de uma alimentação específica para emagrecimento e já sente as consequências do excesso de peso na própria saúde.

A história dele é um bom exemplo de como a castração pode representar um ponto de mudança no metabolismo do animal, mesmo quando o procedimento não é realizado tão precocemente. É claro que não podemos atribuir toda a obesidade de um gato exclusivamente à cirurgia: alimentação, atividade física, ambiente e características individuais também têm um papel fundamental.

Mas as alterações metabólicas após a castração são reais e precisam ser consideradas.

Segundo Liege, poucos dias depois da cirurgia já podem ocorrer mudanças em hormônios envolvidos na regulação do apetite, como a leptina. Nas semanas seguintes, muitos animais passam a demonstrar maior interesse pela comida e podem ganhar peso com mais facilidade.

A redução dos hormônios sexuais também pode influenciar esse processo. Nos machos, por exemplo, a diminuição do estradiol, um tipo de estrógeno que também participa da regulação do apetite, parece contribuir para o aumento da ingestão alimentar.

O problema é que o gato pode passar a sentir mais fome justamente quando suas necessidades energéticas estão diminuindo.

"Com a castração, ocorre uma redução dos hormônios sexuais, o que pode diminuir a necessidade energética do animal e alterar os mecanismos hormonais que regulam o apetite. Na prática, isso significa que o pet pode precisar de menos calorias para manter o peso, mas, ao mesmo tempo, apresentar maior interesse pela comida e consumir mais alimento", explica Mayara Andrade.

Se o responsável continua oferecendo exatamente a mesma quantidade de alimento, ou aumenta as porções porque o gato parece estar sempre com fome, o resultado pode ser um consumo de calorias superior ao necessário.

E os quilos extras começam a aparecer.

Machos e fêmeas engordam da mesma maneira?

Não necessariamente.

Segundo Liege, alguns estudos sugerem que as alterações metabólicas após a castração podem ser mais pronunciadas nas fêmeas.

Em uma das pesquisas mencionadas pela especialista, as gatas precisaram de uma redução de quase 20% na ingestão calórica para manter o peso nos primeiros quatro meses após a cirurgia. Nos machos avaliados, a mesma necessidade de redução não foi observada.

Também foram identificadas alterações transitórias na sensibilidade à insulina em fêmeas, algo que não apareceu da mesma maneira nos machos.

Isso não significa que todas as gatas castradas precisarão comer 20% menos, nem que os machos estejam protegidos contra a obesidade. Os resultados ainda vêm de um número limitado de pesquisas e não permitem estabelecer regras universais. Mas reforçam que o acompanhamento nutricional após a castração deve considerar as particularidades de cada animal.

A obesidade, afinal, não é apenas uma questão estética. É uma doença que pode comprometer a mobilidade, favorecer alterações metabólicas e aumentar o risco de outros problemas de saúde.

Em gatos, o excesso de peso também é um importante fator de risco para diabetes mellitus. Embora a relação direta entre castração e diabetes ainda não esteja bem estabelecida, prevenir a obesidade é uma medida importante para reduzir riscos à saúde.

A alimentação precisa mudar depois da cirurgia?

Não necessariamente o tipo de alimento, mas as necessidades nutricionais e a quantidade oferecida precisam ser reavaliadas.

Jéssica Yoshida, médica-veterinária e coordenadora da área de Credibilidade na Mars Pet Nutrition Brasil, explica que o cuidado deve ir além de simplesmente diminuir a comida.

"Depois da castração, não é só a quantidade de alimento que merece atenção. É importante observar o conjunto: o comportamento do gato, o nível de atividade, a condição corporal e até a forma como o alimento é oferecido ao longo do dia. Pequenos ajustes na rotina podem fazer diferença para que o animal mantenha uma condição corporal saudável", afirma.

Uma pesquisa publicada em 2025 no periódico Veterinary Record também destacou a importância de monitorar o peso e a condição corporal de gatos castrados em diferentes idades, permitindo ajustes na alimentação conforme a evolução de cada animal.

Existem alimentos formulados especificamente para gatos castrados, com composição nutricional adaptada às necessidades dessa fase.

Algumas linhas apresentam maior teor de proteínas, menor teor de gordura e mais fibras em comparação com as formulações da marca para adultos não castrados. Essa combinação busca favorecer a manutenção da massa muscular, a saciedade e o controle do peso.

Mayara Andrade também destaca que alimentos desenvolvidos para gatos castrados podem apresentar densidade energética reduzida e nutrientes ajustados para ajudar na manutenção da condição corporal.

Mas existe uma diferença importante entre um alimento para gatos castrados e uma dieta terapêutica para obesidade.

Um gato que já desenvolveu obesidade, como o Doritos, pode precisar de uma estratégia nutricional específica para perda de peso, com acompanhamento veterinário. Não basta simplesmente trocar a ração por uma versão para castrados ou reduzir drasticamente a quantidade de alimento.

Aliás, dietas muito restritivas ou períodos prolongados sem comer podem ser perigosos para gatos, especialmente os obesos, devido ao risco de lipidose hepática.

Castrar deixa o gato mais calmo?

Essa é outra afirmação que merece uma boa dose de cautela.

A castração pode reduzir comportamentos diretamente relacionados à reprodução, como a procura por parceiros sexuais, algumas formas de marcação urinária, vocalizações associadas ao cio e determinados comportamentos de disputa.

Nos machos, a redução da motivação sexual pode diminuir a tendência de sair à procura de fêmeas, o que também pode reduzir a exposição a brigas, atropelamentos e outros riscos associados ao acesso à rua. Mas isso é muito diferente de dizer que a castração transforma um gato agitado em um animal tranquilo ou resolve problemas de comportamento.

Lá vou eu falar de novo do Doritos. Hoje, obeso, velho, segue achando que é filhote, com energia para dar e vender…

Liege lembra que os hormônios sexuais atuam em diferentes regiões do cérebro e estão envolvidos em processos que vão além da reprodução. "Existem receptores para andrógenos em áreas relacionadas ao ciclo de sono e vigília e a sistemas neuroquímicos que participam da motivação e da recompensa, por exemplo" cita.

O que ainda não sabemos é exatamente como a retirada desses hormônios influencia o comportamento geral dos gatos a longo prazo.

Portanto, castrar um gato esperando que ele deixe de arranhar os móveis, brincar durante a madrugada, demonstrar medo ou apresentar agressividade não é uma estratégia de tratamento comportamental.

Esses comportamentos podem ter inúmeras causas, e a castração não substitui uma avaliação adequada.

Também não devemos confundir a diminuição da atividade com melhora do bem-estar. Um gato que se movimenta menos não está necessariamente mais feliz ou emocionalmente equilibrado.

E quais são os riscos de não castrar?

A decisão de manter um gato inteiro, ou seja, sem castração, também envolve responsabilidades e riscos.

Nos machos, a manutenção do comportamento sexual pode aumentar a motivação para procurar fêmeas, especialmente quando existe acesso à rua. Isso pode favorecer fugas, disputas territoriais, brigas e exposição a doenças infecciosas.

Nas fêmeas, a situação exige atenção especial tanto pela possibilidade de gestação quanto pela exposição prolongada aos hormônios ovarianos e sua associação com determinadas doenças, incluindo tumores mamários.

Outro problema é a piometra, uma infecção uterina potencialmente grave. Liege explica que, nas gatas, essa condição está especialmente associada ao uso de contraceptivos hormonais à base de progestágenos. Por isso, utilizar anticoncepcionais para impedir o cio ou a gestação não deve ser tratado como uma alternativa simples e inofensiva à castração.

A especialista também destaca que, em machos saudáveis, ainda não existem evidências robustas de que a manutenção dos testículos, por si só, represente um risco elevado de determinadas doenças.

Isso reforça a importância de avaliar cada caso em vez de considerar a cirurgia automaticamente obrigatória para todos os animais.

Os cuidados não terminam quando os pontos são retirados

Independentemente da idade escolhida, a castração é um procedimento cirúrgico e envolve riscos anestésicos e operatórios que precisam ser avaliados.

Nas fêmeas, a cirurgia abdominal costuma exigir cuidados pós-operatórios mais intensos. Como os gatos gostam de subir, saltar e explorar o ambiente, restringir temporariamente determinados movimentos pode ser necessário para evitar complicações, como a abertura da sutura.

Nos machos, a recuperação geralmente é mais simples, mas também exige atenção à ferida cirúrgica, prevenção de lambeduras e controle da dor.

A médio e longo prazo, porém, um dos cuidados mais importantes é acompanhar o peso.

E aqui entra uma recomendação que vale para todos os gatos, castrados ou não: estimular a atividade física e oferecer oportunidades para que expressem seus comportamentos naturais! Prateleiras, arranhadores, brinquedos que simulam a caça, brincadeiras interativas e diferentes formas de enriquecimento ambiental ajudam a manter os animais física e mentalmente ativos.

Mais do que simplesmente gastar calorias, essas atividades contribuem para o bem-estar e para uma rotina mais interessante.

Então, devemos ou não castrar os gatos?

A resposta depende de uma avaliação que considere o animal e o contexto em que ele vive.

A castração pode trazer benefícios importantes. Mas não é um procedimento biologicamente neutro.

O que sabemos é que a decisão precisa considerar riscos reprodutivos, desenvolvimento físico, possíveis benefícios na prevenção de doenças, condições de saúde e a capacidade do responsável de oferecer um ambiente seguro.

E, tão importante quanto decidir quando castrar, é pensar no que fazer depois.

O caso do Doritos me lembra diariamente que uma cirurgia realizada com a intenção de cuidar da saúde não elimina a necessidade de acompanhar as consequências que podem aparecer ao longo da vida.

A castração não deve ser encarada nem como uma solução mágica para todos os problemas, nem como uma vilã.

O mais importante é que a decisão seja informada, individualizada e acompanhada de cuidados que continuem muito depois da cirurgia.

Leia também

Últimas Notícias