A venda de ativos da ABCG (Associação Beneficente de Campo Grande) é uma das alternativas previstas para que o maior hospital de Mato Grosso do Sul consiga diminuir a dívida, que hoje chega a R$ 800 milhões. O Campo Grande News acompanha a situação e, entre as diversas opções para que a unidade de saúde continue atendendo a população, também está a decretação de recuperação judicial, como a reportagem mostrou aqui.
Nas últimas semanas, outra possibilidade aventada é que imóveis pertencentes à associação sejam vendidos, como o prédio do antigo Colégio Oswaldo Cruz, onde o hospital pretende abrir a faculdade da Escola de Saúde da Santa Casa. O local é tombado como patrimônio de Campo Grande.
Por falta de recursos, as obras no imóvel ocorrem há pelo menos dez anos sem nunca terem sido finalizadas. O caso é acompanhado em ação judicial ajuizada pelo MPMS (Ministério Público de Mato Grosso do Sul) e, em maio deste ano, o então diretor da Escola de Saúde, Fábio Edir dos Santos Costa, chegou a afirmar que o espaço começaria a funcionar este ano. Ele saiu do cargo em setembro deste ano.
Responsável por processos cíveis que acompanham a situação financeira do hospital, o juiz Eduardo Trevisan, da 2ª Vara de Direitos Difusos, Coletivos e Individuais Homogêneos, afirma que a possibilidade de venda de ativos foi levantada como uma das ideias para tentar pagar as dívidas do hospital, mas não há nada confirmado.
“Estamos em uma fase de hipóteses e muitas são aventadas, mas ainda não há nada de concreto, é uma possibilidade a ser discutida”, comentou.
Na semana passada, em entrevista ao Campo Grande News, ele destacou que outra opção é decretar a recuperação judicial da Santa Casa, o que depende também de outras definições. Conforme Trevisan, o hospital poderia recorrer ao mecanismo para renegociar o passivo e alongar os pagamentos por até 20 anos.
A gestão do hospital é marcada pelo agravamento contínuo de passivos milionários, intervenções judiciais, impasses contratuais e paralisação gradual de serviços essenciais à população sul-mato-grossense.
Em setembro deste ano, a Operação Antidotum prendeu dirigentes, entre eles a ex-presidente, Alir Terra Lima. Por decisão judicial, o médico Luiz Alberto Kanamura assumiu a administração do hospital, que ainda espera a assinatura de um novo contrato de contratualização no valor de R$ 39 milhões mensais.
Apesar desse incremento, o Ministério Público de Mato Grosso do Sul alertou que o valor ainda não é suficiente para zerar o déficit operacional contínuo, estimando que a instituição continuará operando no vermelho devido ao montante de débitos acumulados.
Em meados de outubro, Kanamura anunciou mais reduções de leitos e suspensão de especialidades, que já alcançou os atendimentos a crianças com problemas cardíacos. O setor de cirurgia de coração pediátrica encerrou as atividades tanto para casos eletivos quanto de urgência e emergência. Outras cirurgias eletivas também estão suspensas.
Médicos e fornecedores – Com débitos que superam R$ 40 milhões em honorários médicos e atrasos recorrentes no pagamento de prestadores, serviços cruciais correm risco diário de interrupção. A categoria de anestesistas, que acumulava meses de atrasos nos recebimentos, manteve o atendimento sob constantes negociações para conter a paralisação total das cirurgias.
Para assegurar o cumprimento de metas e a sobrevivência do hospital, o juiz Eduardo Trevisan expandiu as atribuições do administrador judicial nomeado, o doutor Kanamura, concedendo autonomia de gestão para renegociar contratos, enxugar despesas de pessoal e reestruturar o patrimônio da ABCG.
Uma perícia contábil aprofundada, conduzida pela consultoria GRC Vista, analisa débitos acumulados desde junho de 2021 e a destinação de empréstimos bancários que superam R$ 200 milhões, passo considerado decisivo para fundamentar os próximos rumos judiciais da instituição.

