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sexta-feira, 25 de setembro de 2026

Da indústria às bets: como a economia mudou os patrocinadores do futebol brasileiro

Medida provisória do governo federal pode promover mais uma de várias mudanças de tendência nas camisas dos clubes brasileiros

saiba maisProibidas por uma medida provisória do governo federal, as bets dominam os patrocínios no futebol brasileiro. Quando a MP assinada pelo presidente Lula nesta sexta-feira ainda era uma ideia, os clubes chegaram a dizer que o veto (à época apenas aos cassinos online) seria o “fim do futebol brasileiro”.

O mercado de patrocínios do futebol no Brasil caminha junto da economia do País, acompanhando contextos de desindustrialização e consumo da população. As marcas apareceram em uniformes inicialmente para “salvar” os clubes diante da crise econômica na década de 1980.

Da indústria às bets: como a economia mudou os patrocinadores do futebol brasileiro

A autorização para ter patrocínios nos uniformes esportivos foi concedida por meio de uma portaria do Conselho Nacional de Desportos (CND), em 1982. O contexto era de alta inflação em uma das crises mais graves do Brasil.

Na época, a ideia era apresentada como “projeto que poderá salvar financeiramente o futebol brasileiro”, conforme noticiou o Estadão em 26 de março de 1982. A aprovação autorizou o uso de marcas no tamanho de 250cm² na frente e nas costas das camisas. Eram vetadas publicidade de cigarros e bebidas alcoólicas.

Ainda antes de virar decreto presidencial, foi vetada a publicidade nos uniformes do Brasil. “Seleção brasileira é uma expressão de sentimento do povo e não ficaria bem servir como veículo de propaganda”, cravou o então presidente da CBF, Giulite Coutinho, ao Estadão, em maio de 1982.

Entre os clubes grandes, alguns acordos foram feitos com empresas brasileiras, mas isso se tornou cada vez mais raro. A substituição de importações, desde a década de 1930, fez com que o Brasil implementasse uma indústria diversificada. Entretanto, nenhuma empresa brasileira era líder no seu setor, e os negócios eram caracterizados por pouca inovação. Quando houve uma abertura ao mercado externo, os estrangeiros tiveram vantagem.

Para Paulo César Morceiro, doutor em Economia pela FEA-USP e pesquisador em Desenvolvimento Regional na Universidade de Utrecht, da Holanda, a presença de empresas de fora no mercado de patrocínios no futebol, a partir de meados da década de 1980 e durante a década de 1990, se deve a isso.

“Está ligado ao nosso processo de desindustrialização. O Brasil cresceu muito com a indústria de São Paulo, depois passou a descentralizar”, explica. Paralelamente, porém, acontecia a Terceira Revolução Industrial, com desenvolvimento eletrônico. “Isso permitia plantas (de fábricas) menores. Há deslocamento da indústria para o Leste Asiático”, diz o pesquisador.

Uma situação que exemplifica o período aconteceu em 1987, quando a CBF abriu mão da organização do Campeonato Brasileiro por questões financeiras. O Clube dos 13 organizou a Copa União, com patrocínio da Coca-Cola a todos os clubes participantes. As exceções eram Corinthians (com Kalunga) e Flamengo (com Lubrax).

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Anúncio da Coca-Cola com times da Copa União, em 1987. Foto: Reprodução

Plano Real controla inflação, e competitividade nacional diminui ainda mais

Uma das mudanças globais da virada para os anos 1990 foi o aumento das reformas liberais. “É uma forte reconfiguração do mundo, que muda muito em relação a décadas anteriores. Esse é um efeito dominó, observado no Brasil, e coincide com a transição de Sarney para Collor, com discurso modernizante”, explica o professor do Insper e especialista em História Econômica do Brasil, Heleno Piazentini Vieira.

Paulo César Morceiro define os efeitos do Plano Real como um “choque” para a indústria nacional, que não conseguiu se preparar para competir. Além do câmbio, a Constituição Federal de 1988 definiu uma alta cobrança de impostos para a indústria. “A carga tributária continua muito alta. Isso não foi resolvido, por exemplo, com redução de tributação em consumo e mais em renda”, reflete.

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Ronaldinho Gaúcho foi revelado em Grêmio que ostentava marca da Chevrolet, enquanto Portuguesa era raro exemplo de uma empresa nacional como patrocínio máster, com a rede de postos Salemco. Foto: Paulo Pinto/AE

O impacto disso nas camisas de futebol foi uma diversificação de marcas. O caso mais emblemático é a parceria da italiana Parmalat com o Palmeiras, entre 1992 e 2000.

A empresa, que também teve relativo sucesso com Juventude e Paulista de Jundiaí, viu as vendas crescerem. O clube paulista viveu uma das épocas mais vitoriosas da história, após anos de jejum, com 11 títulos. Outras companhias do setor alimentício também fizeram suas investidas: Batavo (Corinthians), Cirio (São Paulo), Bauducco (Coritiba) e Mabel (Goiás), por exemplo.

Na mesma toada, o final da década ainda teve participação da indústria automobilística. A sul-coreana Hyundai apareceu no Fluminense. Com fábrica em Betim (MG), a Fiat fechou parcerias com Atlético Mineiro e Cruzeiro. Já a Chevrolet apareceu nos gaúchos Grêmio e Internacional.

Anos 2000 têm aumento do consumo de eletrônicos e resistência à crise mundial

O Brasil não só tinha estabilidade, como passava a crescer. A partir dos governos de Fernando Henrique Cardoso e Lula, há incentivo ao consumo, o que aumenta a demanda do mercado interno por produtos importados.

“O Plano Real arrumou a casa e fez partir para outro momento econômico. Muito mais próspero, olhando para outros momentos da nossa história. Mais próspero pelo crescimento mais robusto e que não gera inflação, como nos anos 1970. Mais bem fundamentado”, avalia Heleno Piazentini Vieira.

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Clássico entre Corinthians e Santos colocava em campo Samsung e Panasonic em 2005. Foto: Evelson de Freitas/AE

O movimento de privatização do setor de telefonia, ainda no primeiro governo de FHC, fez com que essa fosse a área buscada por empresas estrangeiras. Foi praticamente o início do celular no País, além da popularização de outros eletrônicos, como televisores. Corinthians (Samsung), São Paulo (LG) e Santos (Semp Toshiba e Panasonic) foram alguns dos clubes que estamparam marcas do ramo.

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Choque-Rei de 2008 tinha marcas dos setores de eletrônicos e automobilístico nos uniformes. Foto: Paulo Pinto/AE

Década de 2010 vai ‘do céu ao inferno’ e vê começo da transição de bancos para bets

A euforia econômica entra na década de 2010, com baixo desemprego e consumo ainda em alta. Alguns sinais de mudanças, porém, já são vistos – inclusive nas camisas de futebol. Os uniformes perderam as marcas ligadas à construção civil e eletrônicos. Os raros, mas existentes, patrocínios públicos, como Liquigás (Botafogo) e Eletrobrás (Vasco), não têm continuidade.

Ainda embalado, o mercado de crédito toma conta do “vácuo” deixado. O Banco BMG chegou a ter sua marca em 11 times a partir de 2011, como uma estratégia para fortalecer seus produtos de crédito consignado (empréstimos a juros altos, com desconto na folha de pagamento).

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Quando Rogério Ceni marcou o 100º gol na carreira, a marca do BMG estava presente na camisa do São Paulo. Foto: Alex Silva/AE

O investimento público também teve destaque na década de 2010. A Caixa Econômica Federal substituiu empresas privadas e chegou a ter sua marca em uniformes de 25 clubes.

“Os braços públicos que aumentam seus gastos são de uma mentalidade política mais intervencionista, o que se esvazia com Guedes”, menciona Vieira, ao citar o corte do banco estatal. Em 2018, o então ministro da Economia, Paulo Guedes, justificou que havia outras prioridades para investir o dinheiro público.

Bancos digitais privados retornaram. Por vezes, até mesmo com aplicativos personalizados para torcedores dos clubes que patrocinavam. Em 2018, contudo, as apostas de quota fixa de eventos esportivos foram legalizadas no Brasil, abrindo um novo mercado.

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Flamengo e Corinthians, clubes de maior torcida no Brasil, foram patrocinados pela Caixa. Foto: Fabio Motta/Estadão

O número de equipes com bets como patrocínio máster já é menor este ano em relação a 2025, mas os clubes defendem que o setor é relevante tanto para as agremiações quanto para competições, naming rights de estádios e publicidade na TV e placas na beira do campo.

Considerando os patrocínios de 2025, os aportes somaram R$ 1,14 bilhão. Isso corresponde a 7,9% das receitas totais dos clubes no ano passado. Os 20 bateram R$ 14,9 bilhões em faturamento, com endividamento chegando a R$ 14,3 bilhões.

Apenas quatro clubes pertencentes à Série A na última temporada tiveram bets como fonte direta de mais de 10% das suas receitas em 2025: Corinthians (17,3%), Flamengo (12,71%), Sport (12,64%) e Juventude (10,49%).

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