A imagem é familiar para quem viveu a rotina escolar há duas ou três décadas: o dia em que a balança e a fita métrica apareciam no pátio, os dados anotados na ficha de cada aluno e a medição periódica do Índice de Massa Corporal (IMC) funcionando como um termômetro indispensável da saúde e do crescimento infantil. Essa avaliação não era um mero detalhe burocrático, mas uma ferramenta contínua de acompanhamento gradativo do desenvolvimento físico das nossas crianças, permitindo a detecção precoce de desvios e o direcionamento de ações preventivas. Infelizmente, o IMC deixou de fazer parte das diretrizes curriculares e da rotina contínua tanto nas escolas públicas quanto nas privadas. Sem esse monitoramento sistemático ao longo dos anos escolares, criou-se um ponto cego no diagnóstico do desenvolvimento infantil. Essa lacuna, somada às reformas curriculares que reduziram o espaço e o número de aulas de Educação Física, fragilizou o papel da escola enquanto polo de promoção da saúde. As consequências dessa retração são visíveis e alarmantes. Em Mato Grosso do Sul, dados do Sistema de Vigilância Alimentar e Nutricional (Sisvan) mostram que cerca de 33% das crianças acompanhadas no estado apresentam excesso de peso, somando dezenas de milhares de meninos e meninas que já enfrentam do sobrepeso à obesidade grave sem um acompanhamento preventivo contínuo na vida escolar. Ao afastar o jovem do movimento corporal e da vivência esportiva, não se acumulam apenas quilos a mais na balança. Acumula-se também um sofrimento psíquico sem precedentes. O isolamento, o sedentarismo e o uso excessivo de telas preencheram o espaço antes ocupado pelo gasto energético e pelo esporte coletivo. O avanço no consumo de psicotrópicos por jovens é um alerta claro: as prescrições de medicamentos para ansiedade e depressão entre adolescentes vêm crescendo de forma preocupante. Sem a oportunidade de movimentar o corpo e canalizar tensões na quadra ou no pátio, a juventude passa a buscar na farmácia o equilíbrio que o movimento e o convívio social deveriam proporcionar. A Educação Física Escolar e o acompanhamento do desenvolvimento físico não são meros complementos; são pilares de saúde pública primária. Resgatar a obrigatoriedade efetiva da disciplina, assegurar carga horária adequada e retomar o acompanhamento gradativo do crescimento corporal de nossos estudantes, na rede pública e na privada, são medidas inadiáveis para combater a obesidade e proteger a saúde mental das futuras gerações.
Mais que educação, é saúde: O Resgate do acompanhamento físico nas escolas.

