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segunda-feira, 26 de outubro de 2026

Bonecas velhas viram presentes, mas irmãs precisam de mais doações

Projeto criado em família restaura brinquedos descartados e leva alegria a crianças de Campo Grande

Bonecas sem cabelo, com o corpo rasgado, riscadas ou prestes a ir para o lixo ganham uma segunda chance nas mãos de 6 irmãs de Campo Grande. O que antes era considerado um brinquedo sem utilidade passa por uma transformação que inclui banhos, novos cabelos, roupas feitas à mão e até a substituição completa do corpo. O trabalho faz parte do projeto Brinquedos que Transformam, criado em 2023 para recuperar bonecas usadas e entregá-las a crianças no Natal.

A iniciativa começou quando Lucineia Rios Ossuna, caçula de 6 irmãos e diretora de uma Emei (Escola Municipal de Educação Infantil) da Capital, percebeu que muitos brinquedos eram descartados mesmo podendo ser recuperados.

Bonecas velhas viram presentes, mas irmãs precisam de mais doações
Bonecas que seriam descartadas ganham roupas novas e uma segunda chance nas mãos das voluntárias (. Foto: Amanda Ferreira)

A necessidade de presentear crianças da unidade escolar onde trabalha deu o impulso que faltava. "O projeto surgiu da gente perceber que havia muitos brinquedos que iam para o lixo e também da necessidade de presentear algumas crianças no Natal", conta.

A ideia ganhou forma quando as irmãs Norma Aparecida Ossuna e Madalena Rios Ossuna começaram a conversar sobre a possibilidade de restaurar as bonecas. Lucineia assumiu inicialmente os custos dos materiais e ajudou a buscar brinquedos, tecidos e outros produtos necessários para a recuperação.

"A gente já tinha um monte de bonecas que não serviam para nada, que a gente iria dar outro destino, e a Norma e a Madalena sentaram e conversaram pensando sobre a possibilidade de criar esse projeto", relembra.

Bonecas velhas viram presentes, mas irmãs precisam de mais doações
Algumas bonecas precisam ter praticamente todo o corpo reconstruído antes da entrega (. Foto: Amanda Ferreira)

O trabalho exige paciência e cuidado. Algumas bonecas chegam tão deterioradas que precisam ser praticamente reconstruídas. Primeiro, passam por várias lavagens para retirar sujeira e marcas de caneta. Depois, recebem tratamento nos cabelos, reparos no corpo e roupas novas.

"As bonecas chegam para nós bem deterioradas. Chegam de todas as formas. Inclusive, as pessoas que nos contactam mandam até por correio. Quando é aqui na Capital, a gente vai buscar na casa", explica Lucineia.

Nas bonecas de pano, a recuperação pode ser ainda mais trabalhosa. Muitas vezes, é necessário retirar todo o enchimento, desmontar a estrutura e costurar um corpo novo. Em alguns casos, apenas o rosto original é aproveitado.

Bonecas velhas viram presentes, mas irmãs precisam de mais doações
Vestidos feitos à mão dão uma nova aparência às bonecas recuperadas pelas irmãs (. Foto: Amanda Ferreira)

"Quando as bonecas são de pano, existe a necessidade de trocar todo o enchimento, toda a parte da costura. Então, é desmontado, é feito um novo corpinho", detalha. Quando o cabelo não pode ser recuperado, as irmãs improvisam toucas e outros acessórios para completar o visual.

Talento de família – A costura também tem uma ligação com a história das irmãs. A mãe delas era costureira, mas Norma e Madalena não dominavam a atividade quando começaram o projeto. Com vontade de aprender, passaram a buscar moldes na internet e desenvolveram habilidades para confeccionar vestidos e reconstruir os brinquedos. Hoje, Norma cuida principalmente da limpeza, desmontagem e recuperação das bonecas, enquanto Madalena se dedica à produção das roupas.

Bonecas velhas viram presentes, mas irmãs precisam de mais doações
Madalena é responsável pela costura e reconstrução dos corpos das bonecas (. Foto: Amanda Ferreira)
Bonecas velhas viram presentes, mas irmãs precisam de mais doações
Cada brinquedo passa por limpeza, restauração e acabamento antes de ser entregue às crianças (. Foto: Amanda Ferreira)
Bonecas velhas viram presentes, mas irmãs precisam de mais doações
Irmãs aprenderam técnicas de costura para transformar brinquedos danificados em presentes (. Foto: Amanda Ferreira)

A equipe também conta com Maria Neuza Ossuna, Nilza Maria Ossuna e Noilza Ossuna, que ajudam nas diferentes etapas da recuperação. Uma das tarefas mais delicadas é unir os corpos de tecido às partes de plástico, trabalho que exige costura manual e atenção aos detalhes.

"Nós temos que perfurar a borracha e costurar a roupinha para não sair, porque a perninha não agrega a cola no tecido", explica uma das participantes durante a demonstração do processo. Ana Cláudia também auxilia na divulgação e organização das atividades.

O cuidado vai até os últimos detalhes, com fitas, meias, cabelos e vestidos preparados para que os brinquedos cheguem às crianças em boas condições. Para Lucineia, não basta apenas recuperar a aparência das peças. A intenção é entregar algo que faça a criança se sentir valorizada. "Corpinho, tudo costurado, tudo lavado, tudo higienizado, com cheirinho gostoso para as crianças se sentirem felizes mesmo, sentir todo tipo de apreço pela boneca", afirma.

Bonecas velhas viram presentes, mas irmãs precisam de mais doações
Projeto também recebe brinquedos pelos Correios e busca doações em casas de Campo Grande (. Foto: Amanda Ferreira)

Madalena Rios Ossuna é responsável pela costura, restauração e acabamento das bonecas. O trabalho começa depois da limpeza, quando ela avalia as condições de cada brinquedo e identifica o que precisa ser recuperado.

“Na costura, eu faço os corpinhos das bonecas. O primeiro processo é a limpeza e depois vem para mim, para sabermos quais serão as medidas, os moldes e o que precisa reparar”, explica. Dependendo do estado da peça, Madalena reconstrói o corpo, os braços e as pernas, além de confeccionar roupas e cuidar dos detalhes finais para deixar as bonecas prontas para doação.

Natal de solidariedade – Na primeira edição do projeto, em 2023, as irmãs conseguiram recuperar quase 190 bonecas, entregues às crianças da Emei Georgina Ramirez, onde Lucineia trabalha.

Bonecas velhas viram presentes, mas irmãs precisam de mais doações
Mesmo com partes danificadas, bonecas podem ser recuperadas e ganhar uma nova história (. Foto: Amanda Ferreira)

A iniciativa cresceu e passou a atender outros públicos. Em 2024, o projeto enviou parte dos brinquedos ao Rio Grande do Sul durante uma campanha de arrecadação para famílias atingidas pelas enchentes. As voluntárias aceleraram a produção para conseguir encaminhar as doações aos pontos de coleta.

O trabalho também chegou a crianças atendidas por uma ONG na Vila Nasser, em Campo Grande, além de instituições como o Instituto Getúlio Vargas e o Centro Espírita Amor e Bem. As entregas são organizadas conforme a quantidade de bonecas recuperadas e a capacidade de produção das voluntárias. Para o Natal de 2026, as irmãs já escolheram uma região que será beneficiada, mas preferem manter o destino em segredo por enquanto.

Com o aumento da procura, surgiu também a necessidade de conseguir mais recursos. Atualmente, as despesas com tecidos, enchimentos, produtos de limpeza e acessórios são um dos principais desafios. Para arrecadar dinheiro, as irmãs chegaram a organizar uma rifa com 3 bonecas restauradas.

"Nós resolvemos fazer uma rifa para a gente comprar os materiais que estavam faltando, tecidos", explica Lucineia. A intenção é formalizar o projeto como uma ONG em 2027, para facilitar a captação de recursos e ampliar o atendimento.

Quem quiser ajudar pode doar bonecas usadas, mesmo que estejam danificadas. As voluntárias recebem brinquedos enviados pelos Correios e também buscam doações em residências de Campo Grande. O contato pode ser feito pelo Instagram @brinquedostransformam.

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