Para quem cresceu vendo carros de outras décadas circulando pelas ruas, a placa preta é quase tão marcante quanto o próprio veículo. Hoje, ela continua associada aos modelos preservados por colecionadores e ajuda a compor o visual de máquinas que marcaram gerações e seguem despertando atenção por onde passam.
Mas quantos desses veículos existem em Mato Grosso do Sul? O Lado B foi atrás dos números e descobriu que 1.033 veículos estão atualmente registrados no Estado na categoria coleção. O Detran-MS (Departamento Estadual de Trânsito de Mato Grosso do Sul) informou os dados a pedido da reportagem.
Campo Grande concentra mais da metade desse universo. São 604 veículos de coleção registrados na Capital, quantidade que corresponde a cerca de 58,5% de todos os registros existentes em Mato Grosso do Sul. Ou seja, de cada 10 veículos enquadrados nessa categoria no Estado, aproximadamente 6 estão na cidade.
Os automóveis dominam com folga a lista. São 785 em Mato Grosso do Sul, dos quais 470 ficam em Campo Grande. Depois aparecem as caminhonetes, com 110 registros no Estado e 60 na Capital, e os motociclos, com 92 e 54, respectivamente. A relação ainda inclui camionetas, caminhões, utilitários, ônibus, motonetas, caminhões-tratores, um ciclomotor e até um motor-casa registrado como veículo de coleção.
A maior parte dos veículos que atualmente aparece no cadastro do Detran-MS (Departamento Estadual de Trânsito de Mato Grosso do Sul) como de coleção recebeu essa classificação recentemente. Dos 1.033 registros existentes na base estadual, 706 foram cadastrados em 2026, o equivalente a 68,3% do total.
Outros 225 veículos tiveram o cadastramento realizado em 2025, enquanto 102 foram incluídos até 2024. Somados, os registros feitos em 2025 e 2026 chegam a 931 veículos, representando cerca de 90,1% de toda a frota que atualmente consta na categoria coleção em Mato Grosso do Sul.

Presença constante – Entre os veículos de coleção espalhados pelo Estado, parte deles passa pelas mãos do mecânico Cristiano Silva, proprietário da oficina CHS Vintage Car e organizador do Retrocar. Há cinco anos trabalhando com Fuscas, ele recebe diferentes modelos antigos para manutenção, embora o clássico da Volkswagen seja presença constante na oficina.
Os veículos com placa preta estão longe de ser raridade dentro da oficina. Entre os carros antigos que recebe para manutenção, ele estima que, a cada 10, 3 ou 4 tenham o registro de coleção. Os proprietários também têm perfis diferentes: enquanto alguns mantêm 4 ou 5 exemplares guardados e os retiram apenas para passeios ocasionais, outros usam o antigo no dia a dia, inclusive para trabalhar e viajar.
As placas também variam e não se limitam às pretas. No dia em que a equipe do Lado B esteve no local, 4 veículos que carregavam a identificação destinada aos modelos de coleção estavam na mecânica.

Segundo Cristiano, a procura de proprietários desses veículos faz parte da rotina do estabelecimento, que trabalha principalmente com carros antigos e não atende motos, caminhões ou caminhonetes. E, apesar do cuidado que normalmente cerca exemplares preservados por décadas, ter placa preta não significa que o veículo precise passar a vida parado na garagem.
“Muitos pensam que depois que coloca a placa preta não pode ficar rodando com o carro, que o carro tem que ficar guardado em casa. Negativo. O carro é seu, você anda a hora que quiser”, explica.
O mecânico conta que a dúvida aparece principalmente entre quem associa a certificação à obrigação de manter o automóvel apenas para exposição. “Muitos falam: ‘você vai colocar e não vai poder andar mais com o carro, senão perde a placa preta’. Negativo. Pode viajar, pode sair para fora, dentro do Brasil você pode rodar normal”, afirma Cristiano. A placa, portanto, não transforma o veículo em peça de museu e não impede sua circulação pelas vias.
Para conseguir o registro como veículo de coleção, porém, existem critérios específicos. Conforme o Detran-MS (Departamento Estadual de Trânsito de Mato Grosso do Sul), as exigências seguem a Resolução nº 957/2022 do Contran (Conselho Nacional de Trânsito).
O veículo precisa ter mais de 30 anos de fabricação, possuir valor histórico próprio, apresentar condições de circular e contar com o CVCOL (Certificado de Veículo de Coleção), emitido por entidade credenciada pela Senatran (Secretaria Nacional de Trânsito).

A legislação permite exemplares originais ou modificados. Para os originais, a avaliação exige ao menos 80 pontos de um total de 100 e considera itens como mecânica, carroceria, suspensão, aparência, conservação e características compatíveis com a época em que o modelo foi produzido.
O Abacatinho – Na garagem da família de Mariana Oliveira Mônaco, quem chama a atenção é um Fusca 1500, ano 1973, carinhosamente apelidado de Abacatinho por causa da cor. Comprado há cerca de sete anos, o veículo já estava bem conservado quando chegou à família. Antes de receber a certificação de coleção, passou por revisão elétrica e mecânica e, depois, pela vistoria que analisou suas características de originalidade.

Para conseguir a certificação, Mariana conta que procurou um profissional ligado a um clube responsável pela avaliação de veículos de coleção. O Fusca passou pela vistoria e alcançou uma pontuação que deixou a família confortável em relação ao nível de preservação.
“Ele tem que ter 30 anos de fabricação, tem que ter 80% de originalidade. No caso, esse nosso carro hoje tem 91% de originalidade”, relata. A porcentagem citada por ela se refere à avaliação feita quando o veículo passou pelo processo de certificação.
A placa que permanece no Fusca é de um padrão anterior ao modelo atualmente usado nos veículos de coleção. Mariana não pensa em substituí-la apenas para acompanhar as mudanças posteriores.
A família, inclusive, ampliou a garagem de antigos: além do Fusca, possui uma Parati 1986 e adquiriu recentemente um Escort 1984, que já recebeu uma versão mais recente da placa destinada aos veículos de coleção.
Para Mariana, porém, o valor da identificação está principalmente no que ela representa sobre a conservação do automóvel. “É o conjunto, sabe? Você saber da originalidade do teu carro, você saber que ele chama a atenção, isso é muito gratificante. Quando a gente vai a algum lugar e tem uma criança, uma pessoa que pede para tirar uma foto, a gente sempre atende com a maior boa vontade”, conta.

O Fusca ganhou até apelido por causa da cor: Abacatinho. A escolha do modelo começou com um gosto compartilhado dentro de casa. Mariana cresceu com a lembrança do Fusca que pertenceu à mãe, enquanto Alexandre, professor de matemática de 55 anos, também gostava de carros antigos desde criança e já havia tido outros Fuscas.
O interesse dos dois acabou virando um projeto da família, que também envolve João, de 18 anos, estudante da UFMS (Universidade Federal de Mato Grosso do Sul).
Curiosamente, verde não era a primeira escolha de Mariana. “Quando eu fui atrás de um Fusca, eu queria um Fusca vermelho, só que não achei. Esse carro me encantou tanto, me encantou tanto”, lembra.
O encontro aconteceu depois que um amigo garagista de Sidrolândia soube que ela procurava um antigo e telefonou oferecendo o veículo. Mariana foi conhecê-lo no horário do almoço sem sequer ter o dinheiro separado para a compra. “Eu não tinha nada, nem um real na minha conta. Falei: ‘Tá bom, eu vou ver’. Fui lá, sentei com ele, dei meus pulos e, uns três dias depois, o carro já estava em casa. Era para ser mesmo”.
Como deixar minha placa preta? – O caminho para transformar oficialmente um antigo em veículo de coleção começa fora do Detran-MS (Departamento Estadual de Trânsito de Mato Grosso do Sul).
O proprietário precisa procurar uma entidade credenciada pela Senatran (Secretaria Nacional de Trânsito), responsável por avaliar se o veículo atende às exigências da categoria. Essa vistoria obrigatoriamente é presencial, portanto, o proprietário não pode realizá-la apenas com fotografias ou por avaliação a distância.
Se o veículo for aprovado, a entidade emite o CVCOL (Certificado de Veículo de Coleção). Com o documento em mãos, o proprietário procura o Detran-MS para solicitar a mudança da espécie no cadastro para “coleção”.
Quando houver modificação que exija comprovação de segurança, também deverá ser apresentado o CSV (Certificado de Segurança Veicular). Depois da conferência dos documentos e da conclusão dos procedimentos cadastrais, a nova classificação aparece no CRLV-e (Certificado de Registro e Licenciamento de Veículo em meio digital) e a placa correspondente pode ser estampada.

O Detran-MS ressalta que não é responsável por determinar o grau de originalidade do veículo nem pela emissão do certificado de coleção. Essa análise cabe à entidade credenciada, que realiza a vistoria e aplica os critérios técnicos estabelecidos pela regulamentação.
Ao Departamento compete a parte administrativa, como conferir os documentos, atualizar o cadastro, emitir o CRLV-e com a nova classificação e autorizar a mudança da placa. Se um veículo registrado como coleção original for posteriormente modificado, o proprietário deverá obter autorização prévia do órgão de trânsito e cumprir as novas exigências de inspeção e certificação.
As regras gerais alcançam carros, motocicletas e outros tipos de veículos com mais de 30 anos, embora os critérios técnicos de avaliação possam variar conforme a categoria. E a certificação não é definitiva: o CVCOL vale por 60 meses, ou 5 anos. Encerrado esse período, ele poderá ser renovado, desde que o veículo continue cumprindo as condições necessárias para permanecer enquadrado como veículo de coleção.

