Neste domingo, 11 de outubro, Mato Grosso do Sul completa 49 anos de criação. E para muita gente, a data também é dia de comemorar a própria vida, que começou praticamente junto com a história do Estado. Entre esses moradores está o campo-grandense Carlos Adriano Gonçalves da Silva, que nasceu no mesmo dia em que o território sul-mato-grossense foi oficialmente criado, em 1977.
Chamado pelos amigos de “Primeiro” ou “01”, Carlos cresceu com uma história que chamou a atenção da imprensa desde a infância. Aos 49 anos, ele diz que tem a coincidência do aniversário e, junto dela, a sensação de ter acompanhado na própria vivência, o desenvolvimento de Mato Grosso do Sul.
Já Fabiano Grison nasceu algumas semanas antes da divisão, no dia 16 de setembro de 1977, quando a região ainda fazia parte de Mato Grosso. Com a certidão de nascimento registrada no antigo Estado, ele cresceu em uma região que mudou de nome e de organização política pouco depois. Hoje, também aos 49 anos, tem nas lembranças da infância e nos laços construídos por aqui motivos para continuar vivendo em Mato Grosso do Sul.

As histórias dos dois ajudam a contar um pouco do que significa crescer junto com um estado que ainda não chegou ao meio século de existência.
A criação de Mato Grosso do Sul foi oficializada durante o governo do presidente Ernesto Geisel. Até então, o território fazia parte de Mato Grosso, com capital em Cuiabá. Com isso, milhares de pessoas que já viviam na região passaram a fazer parte de uma nova história política sem precisar mudar de casa.
Para quem nasceu naquela época, como Fabiano, a própria certidão de nascimento guarda a lembrança de um tempo em que Mato Grosso do Sul ainda não existia oficialmente.
O menino que virou símbolo da divisão – Carlos Adriano conta que sua ‘estreia’ ao mundo aconteceu em meio à movimentação em torno da criação do novo estado. “Já tinha uma mobilização para que o primeiro bebê nascido depois da oficialização da divisão simbolizasse o início de Mato Grosso do Sul. Um monte de gente se reuniu em frente à Maternidade Cândido Mariano na expectativa pelo nascimento da criança’", detalha

A história fez com que ele se tornasse conhecido ainda pequeno. A imprensa sempre o procurava e ele ganhou o apelido de “Primeiro” entre os moradores. “Eu me sentia celebridade no bairro”, brinca.
De acordo com ele, naquela época ainda havia uma promessa de que o poder público ajudaria a primeira criança nascida em Mato Grosso do Sul por entender que o desenvolvimento do bebê representaria o crescimento do próprio estado. “Disseram que dariam apoio nos estudos, meu pai fez várias reuniões com políticos, mas nunca deu em nada. Nunca deram nem uma bola pra eu brincar”, explica.
Hoje, ele é pai de 2 filhos, de 24 e 18 anos. Depois de trabalhar anos no Aero Rancho, onde mora desde a juventude, o bebê 01 trabalha atualmente na Prefeitura de Campo Grande.
Mesmo com as decepções que carrega dessa história, Carlos fala do Estado com orgulho. Para ele, Mato Grosso do Sul oferece oportunidades de trabalho e uma qualidade de vida que não se encontra em outros lugares.

“Meu estado é ótimo. Eu acredito que é um dos melhores. Eu já tive oportunidades de se mudar para outros lugares, inclusive para Mato Grosso, mas prefiro permanecer por aqui, perto da família”, afirma.
Para ele, Mato Grosso do Sul tem características especiais que pesam. “Campo grande é uma Capital com estrutura de cidade grande, mas com hábitos de interior. Também tem oportunidades e um cotidiano tranquilo. Se você falar mal do meu estado, eu vou brigar”, brinca.
Uma certidão que guarda o passado – A história de Fabiano Grison começa um pouco antes. Ele nasceu em 16 de setembro de 1977, em Pedro Gomes, no norte do então Mato Grosso. Na família de cinco filhos, foi o único nascido no Estado. Os irmãos nasceram no Rio Grande do Sul e no Paraná, de onde vieram os pais antes de chegarem na região.
A certidão de nascimento de Fabiano ainda registra Mato Grosso, um detalhe que ajuda a dimensionar a mudança que ocorreu naquele período. Por ser bebê, ele não tem lembranças próprias da divisão, mas, anos depois, ouvia histórias.
“Meus pais contavam como era a região naquela época. Quando eles chegaram, ainda não tinha a BR-163 como conhecemos hoje, e cidades como São Gabriel do Oeste, onde moro hoje, nem eram emancipadas. Eram outras condições de acesso e de vida por aqui”, destaca.

Com o tempo, Fabiano passou a entender melhor a dimensão dessa transformação. E, embora tenha nascido antes da criação oficial de Mato Grosso do Sul, cresceu praticamente toda a vida ligado à região.
A relação com o lugar também passou por uma temporada longe de casa. Fabiano saiu para estudar no Rio Grande do Sul, onde passou 10 anos. A experiência fez com que percebesse o peso da identificação com as pessoas, os costumes e as cidades de Mato Grosso do Sul.
“Quando fui morar lá, eu não tinha essa identificação com as cidades como tenho aqui. Lá, quando alguém falava de uma cidade, eu nem sabia onde era. Aqui, se a pessoa fala que é de Corumbá, Coxim ou Bela Vista, eu já tenho uma ideia de como é o lugar, das pessoas e dos costumes. Foi uma das coisas de que mais senti falta”, conta.
Para ele, saber de onde alguém vem ou conhecer as regiões e diferentes estilos de vida sul-mato-grossenses é entender um pouco da cultura e do jeito local de viver.
Entre as memórias mais fortes do servidor público que cresceu junto com Mato Grosso do Sul, estão momentos simples do cotidiano local, como passeios e banhos de rio em Coxim e Rio Verde, o hábito do tereré, e o costume interiorano de sentar em frente de casa com os amigos para conversar e ver o movimento da rua.

“Eu também vi o Shopping Campo Grande nascer. Naquela época, a gente ia no Shopping Marrakech, que era uma galeria, mas como se fosse o nosso shopping. Também lembro de assistir a Titanic no Cine Campo Grande. Era um filme que fez muito sucesso e tinha uma fila quilométrica. São lembranças que ficaram desses anos”, relata.
Fabiano conta que se sente em casa em Mato Grosso do Sul, identificação que ficou ainda mais evidente depois de morar fora. Prestes a completar meio século de vida junto com o Estado, ele deseja que o Estado continue crescendo sem deixar de lado a preservação ambiental.
“Eu espero que o Estado continue crescendo, mas que esse crescimento caminhe junto com a preservação da natureza. A gente tem uma produção agrícola muito forte, mas não precisa destruir para produzir mais”, finaliza.

