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segunda-feira, 26 de outubro de 2026

Fugindo da guerra, Yarub trouxe na bagagem os sabores da Síria

Ele deixou o país em meio aos conflitos e encontrou na culinária uma forma de construir seu futuro

Imagine uma entrevista em que a repórter brasileira faz perguntas em inglês e o entrevistado, natural da Síria, tenta responder em português. Entre palavras trocadas e risadas, a conversa revela uma história de recomeço. Aos 27 anos, Yarub Alnaddaf chegou a Campo Grande há pouco mais de um ano, depois de deixar para trás uma vida marcada pela guerra. Formado em Arquitetura, ele encontrou nas feiras da Capital uma maneira de conquistar a independência financeira, vendendo o sujuk, sanduíche tradicional da culinária síria.

A trajetória de Yarub começou longe das barracas de comida. Ele se formou em Arquitetura na Síria, em 2023, mas cresceu em um país marcado por conflitos desde 2011. Durante a adolescência e o início da vida adulta, conviveu com o medo e a insegurança. "A guerra na Síria começou em 2011, então passei quase metade da minha vida vivendo em meio à guerra. Com o tempo, senti que já tinha sofrido o suficiente e que precisava ter a oportunidade de viver em paz e começar uma nova vida", relata.

Fugindo da guerra, Yarub trouxe na bagagem os sabores da Síria
Yarub Alnaddaf, de 27 anos, deixou a Síria para fugir da guerra e encontrou em Campo Grande uma oportunidade de recomeçar (. Foto: Amanda Ferreira)

Depois da faculdade, tentou diversas vezes conseguir um visto para o Brasil, onde sua irmã mora há cerca de dez anos. Enquanto aguardava uma oportunidade, dedicou dois anos ao trabalho voluntário no setor de emergência médica do Crescente Vermelho Sírio, organização humanitária que atua no atendimento à população.

Nesse período, presenciou situações que, segundo ele, nunca serão esquecidas. "Durante esses dois anos, me dediquei ao voluntariado no setor de emergência médica do Crescente Vermelho Sírio, onde presenciei situações muito difíceis e cenas terríveis", conta.

Em 2025, novos confrontos políticos e militares atingiram a província de Suwayda, onde Yarub morava. Segundo seu relato, os ataques provocaram milhares de mortes e obrigaram moradores a abandonar suas casas.

Como voluntário, ele estava diretamente envolvido no atendimento às pessoas atingidas. Quando conseguiu deixar a região, embarcou na primeira caravana humanitária em direção a Damasco. Um percurso que normalmente levaria uma hora durou entre oito e nove horas por causa dos bloqueios e das inspeções de segurança.

Fugindo da guerra, Yarub trouxe na bagagem os sabores da Síria
Nas feiras de Campo Grande, Yarub apresenta os sabores da Síria enquanto aprende português e conhece a cultura brasileira (. Foto: Amanda Ferreira)

No dia seguinte à chegada à capital síria, Yarub procurou a Embaixada do Brasil, mesmo sem agendamento. Os documentos necessários estavam no WhatsApp, enviados pela irmã, que já possui cidadania brasileira e havia preparado tudo para recebê-lo.

"Quando expliquei aos funcionários da embaixada que eu vinha de Suwayda e contei a situação que estava enfrentando, eles se sensibilizaram com a minha história. Graças a Deus, consegui o visto naquele mesmo dia", relembra. Em 4 de setembro de 2025, finalmente desembarcou no Brasil.

O apoio da irmã marcou a chegada a Campo Grande, pois ela alugou e mobiliou uma casa para ele. No começo, Yarub trabalhou no restaurante sírio dela, mas queria encontrar uma maneira de seguir o próprio caminho.

"Inicialmente, comecei a trabalhar no restaurante sírio dela, mas queria conquistar minha independência, trabalhar por conta própria, conhecer melhor a sociedade brasileira e aprender o idioma, os costumes e as tradições", explica. Com a ajuda de uma amiga brasileira, começou a participar das feiras da cidade e descobriu na culinária uma oportunidade de renda.

Sabores da Síria – O prato escolhido para conquistar os campo-grandenses foi o sujuk, sanduíche preparado com carne moída e uma mistura de especiarias tradicionais. A receita é uma lembrança da terra natal e carrega um detalhe especial: o próprio Yarub prepara os temperos.

Fugindo da guerra, Yarub trouxe na bagagem os sabores da Síria
Sujuk aberto mostra o recheio de carne moída temperada com nove especiarias preparadas por Yarub (. Foto: Amanda Ferreira)

"Eu faço comida árabe. O nome da comida é sujuk. Essa é a original, tradicional na Síria. Ele faz com carne moída, com tempero, mas tempero muito diferente. Aqui no Brasil não tem esse tempero, eu faço esse tempero meu", conta, em português, enquanto procura as palavras para explicar a receita.

O segredo está na combinação de 9 especiarias, utilizadas para dar sabor à carne. O sanduíche é preparado no pão prensado na chapa, com picles e recheio suculento. No cardápio, o sujuk tradicional custa R$ 25. A versão dupla com queijo, que leva o dobro de carne e muçarela derretida, sai por R$ 30. Para quem não consome carne, há o sujuk vegano, feito com proteína de soja, por R$ 20, e o vegetariano com queijo, por R$ 25.

Mesmo com as dificuldades para se comunicar, Yarub já percebe a boa recepção dos clientes. Ele entende melhor o inglês, mas faz questão de praticar o português durante as vendas. Entre uma pergunta e outra, tenta compreender os elogios e expressões que escuta nas feiras.

"Tem pessoas que falam: nossa, maravilhoso, muito bom . Outros falam, mas não entendo. Eles falam muito e eu não entendo. Falam que é bom", conta, sorrindo diante das diferenças entre os idiomas.

A rotina inclui diferentes feiras de Campo Grande. No primeiro sábado do mês, Yarub participa da Ziriguidum e, no primeiro domingo, da Borogodó. No segundo domingo, costuma estar na Feira da Bolívia. Já no terceiro fim de semana, passa pela Feira São Bento, no sábado, e pelo Bosque da Paz, no domingo.

Fugindo da guerra, Yarub trouxe na bagagem os sabores da Síria
Formado em Arquitetura, Yarub encontrou na culinária síria uma maneira de conquistar sua independência financeira (. Foto: Amanda Ferreira)

Também participa da Feira de Opa, no quarto sábado do mês, e da Feira da Rita Vieira, às quintas-feiras. A circulação por esses espaços permite conhecer novos clientes, praticar o idioma e apresentar um pouco da cultura síria aos moradores.

Sonhos que ficaram – Apesar de ter encontrado acolhimento em Campo Grande, Yarub não esconde a saudade da Síria. A família, os costumes e as lembranças da terra natal continuam presentes em sua vida. "Sim, claro. Eu tenho muita saudade da Síria", afirma. Ainda assim, acredita que a situação no país de origem levará muitos anos para melhorar e, por enquanto, prefere concentrar os esforços na construção de uma vida mais tranquila no Brasil.

A culinária garante a renda atual, mas Yarub não desistiu da profissão que escolheu. Ele se candidatou a uma vaga de mestrado na UFMS (Universidade Federal de Mato Grosso do Sul) e aguarda o resultado para saber se poderá continuar os estudos no próximo semestre.

" Depois de tantos anos vivendo em meio à guerra, tudo o que desejo agora é viver em paz, construir meu futuro e realizar meus sonhos na área de Arquitetura. Para mim, o Brasil não é apenas o país para onde consegui chegar, mas uma nova oportunidade de começar uma vida diferente e recuperar os anos difíceis que vivi", afirma.

Quem quiser conhecer seus pratos e acompanhar os próximos locais de venda pode acessar o Instagram @sujukyarub.

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