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quarta-feira, 7 de outubro de 2026

Quedas e perda de memória não devem ser tratadas como “coisas da idade”

Envelhecer com saúde envolve investigar mudanças no corpo e manter a liberdade para conduzir a própria vida

Os filhos faziam as compras para facilitar a vida da mãe. Ela, porém, queria ir ao mercado e escolher o próprio xampu. O caso, lembrado pela geriatra Marta Driemeier, do Hospital Universitário Maria Aparecida Pedrossian (Humap-UFMS), mostra uma dimensão do envelhecimento que pode passar despercebida: além de tratar doenças, é preciso preservar o direito de decidir sobre a própria rotina.

Essa independência também pode ser ameaçada quando quedas, falhas de memória e perda de força são atribuídas à idade, sem avaliação. Envelhecer provoca mudanças no organismo, mas não explica, por si só, toda dificuldade que aparece ao longo dos anos.

No contexto do Outubro Prata, dedicado à conscientização sobre o envelhecimento, a médica chama a atenção para um critério importante: sintomas novos, persistentes, que pioram ou começam a atrapalhar as atividades cotidianas merecem investigação.

Segundo Marta, o desafio é reconhecer o que faz parte do envelhecimento natural e o que pode indicar um problema de saúde, evitando tanto desprezar as queixas quanto submeter a pessoa a exames desnecessários.

“Precisamos de uma boa anamnese e exame físico detalhado para separar o joio do trigo”, afirma. A anamnese é a conversa em que o profissional procura conhecer os sintomas e o histórico do paciente.

As quedas estão entre os acontecimentos que não devem ser naturalizados. Na geriatria, são consideradas um sinal de alerta, muitas vezes provocado por uma combinação de fatores. Medicamentos, calçados inadequados, infecções, doenças neurológicas, desnutrição e redução da força e da massa muscular podem estar envolvidos.

Quem caiu uma vez apresenta maior risco de cair novamente. Por isso, segundo a especialista, é necessário investigar as causas e cuidar também da saúde dos ossos, para reduzir o risco de fraturas.

A memória exige atenção semelhante. Um esquecimento ocasional, sem consequências para a rotina, geralmente não é motivo de preocupação. Mas falhas percebidas pela própria pessoa ou mudanças observadas pelos familiares precisam ser avaliadas, especialmente quando comprometem atividades do dia a dia.

Essas alterações podem ter diferentes origens, entre elas problemas da tireoide, depressão, efeitos de medicamentos e demências. A avaliação, portanto, vai além de testes de memória: considera como a pessoa está vivendo e quais tarefas passou a ter dificuldade para realizar.

Cansaço e perda de força também não devem ser automaticamente atribuídos aos anos de vida. Noites mal dormidas, anemia, alterações hormonais e problemas cardiopulmonares estão entre as possíveis causas do cansaço.

Já a redução da força pode estar associada à sarcopenia, condição caracterizada pela perda de força e massa muscular, favorecida pelo sedentarismo, pela baixa ingestão de proteínas e por algumas doenças. Quando essas dificuldades interferem na rotina, identificar a causa ajuda a orientar o cuidado.

Problemas de visão e audição também têm consequências que ultrapassam a dificuldade de enxergar ou ouvir. Podem aumentar o risco de quedas, prejudicar o uso correto de medicamentos, o preparo de refeições e a participação em atividades de lazer. A comunicação fica mais difícil, e o convívio social pode dar lugar ao isolamento.

Para a geriatria, a presença de uma doença crônica não significa, necessariamente, perda de autonomia. O cuidado deve considerar quanto cada condição interfere na capacidade de conduzir a própria vida.

É nesse ponto que a ajuda da família precisa ser ajustada às necessidades reais. Se a pessoa mantém sua capacidade de decisão, suas escolhas devem ser respeitadas. Fazer por ela tudo o que ainda consegue realizar sozinha pode retirar oportunidades de participação e independência.

A construção de um envelhecimento saudável, segundo Marta, começa muito antes da velhice. Atividade física, alimentação adequada e acompanhamento da saúde se somam à leitura, ao aprendizado, às amizades e à convivência.

“Envelhecer bem não começa na velhice. É uma construção diária, feita ao longo de toda a vida”, afirma.

O desejo de escolher o próprio xampu ajuda a traduzir esse cuidado: preservar a saúde também é manter espaço para as pequenas decisões que fazem uma pessoa continuar sendo dona da própria vida.

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